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O tratamento com sitagliptina pode reduzir a mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19 e diabetes tipo 2

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Resultados ruins foram relatados em pacientes com diabetes1 tipo 2 e doença do coronavírus 2019 (COVID-19); portanto, é obrigatório explorar novas abordagens terapêuticas para essa população.

Um estudo observacional multicêntrico na Itália sugere que a sitagliptina, um medicamento aprovado pela Food and Drug Administration para reduzir o açúcar2 no sangue3 no diabetes tipo 24 reduz a mortalidade5 em pacientes diabéticos hospitalizados com COVID-19.

Os resultados do estudo, que envolveu sete hospitais durante a primeira onda de casos de COVID-19 na primavera de 2020 e foi liderado por Paolo Fiorina, professor de pediatria em tempo parcial na Harvard Medical School e pesquisador associado na Divisão de Nefrologia no Hospital Infantil de Boston, foram relatados em 29 de setembro na revista Diabetes1 Care.

Os autores relatam que os pacientes que receberam sitagliptina além da insulina6 tiveram uma taxa de mortalidade5 de 18%. Pacientes pareados que receberam apenas insulina6 tiveram uma taxa de mortalidade5 de 37%.

A sitagliptina parece bloquear a entrada do SARS-CoV-2 nas células7 e reduz a inflamação8, disseram os autores.

No estudo multicêntrico, caso-controle, retrospectivo9 e observacional, a sitagliptina, um inibidor da dipeptidil peptidase 4 oral e altamente seletivo, foi adicionada ao tratamento padrão (por exemplo, administração de insulina6) no momento da hospitalização em pacientes com diabetes tipo 24 que eram hospitalizados com COVID-19. Cada centro também recrutou em uma proporção de 1:1 indivíduos controle não tratados pareados por idade e sexo.

Leia sobre "Características e prognóstico10 de pacientes com COVID-19 e diabetes1" e "Opções de tratamentos para o diabetes1".

A sitagliptina pertence a uma classe de medicamentos conhecidos como inibidores da DPP-4, que são prescritos para cerca de 15 a 20 por cento dos pacientes com diabetes tipo 24. A droga reduz o açúcar2 no sangue3 ao bloquear o receptor da enzima11 DPP-4, também chamada de CD26, que aumenta a produção de insulina6.

Estudos recentes sugerem que a DPP-4 tem duas ações colaterais que são relevantes para COVID-19. Pode ajudar o coronavírus SARS-CoV-2 a entrar nas células7 respiratórias. Ela também reduz a inflamação8, reduzindo a produção da citocina12 IL-6 que contribui para a tempestade de citocinas13 que causa complicações orgânicas na COVID-19.

A principal ação da sitagliptina – reduzir o açúcar2 no sangue3 – também pode ajudar a aumentar a sobrevivência14. Estudos anteriores mostraram que pacientes diabéticos com pior controle glicêmico apresentam piores desfechos de COVID-19.

“Decidimos experimentar a sitagliptina e coletar os dados”, disse Fiorina. “Vemos uma alta mortalidade5 de COVID-19 em pacientes diabéticos, e o medicamento é muito seguro, então sentimos que não havia razão para não o usar.”

Todos os pacientes do estudo apresentavam pneumonia15 e exibiam saturação de oxigênio <95% ao respirar ar ambiente ou receber suporte de oxigênio. Os desfechos primários foram alta hospitalar / óbito16 e melhora dos desfechos clínicos, definidos como um aumento em pelo menos dois pontos em uma escala ordinal modificada de sete categorias. Os dados foram coletados retrospectivamente de pacientes que receberam sitagliptina de 1º de março a 30 de abril de 2020.

Dos 338 pacientes consecutivos com diabetes tipo 24 e COVID-19 admitidos em hospitais do norte da Itália incluídos neste estudo, 169 estavam em uso de sitagliptina, enquanto 169 estavam em tratamento padrão.

A gravidade da doença, outras características clínicas e o uso de outros tratamentos para COVID-19 foram semelhantes nos dois grupos.

O tratamento com sitagliptina no momento da hospitalização foi associado à redução da mortalidade5 (18% vs. 37% dos pacientes falecidos; razão de risco 0,44 [IC 95% 0,29–0,66]; P = 0,0001), com uma melhora nos resultados clínicos (60% vs. 38% de pacientes com melhora; P = 0,0001) e com um maior número de altas hospitalares (120 vs. 89 de pacientes que receberam alta; P = 0,0008) em comparação com pacientes que receberam tratamento padrão, respectivamente.

Além do aumento da sobrevida17, os pacientes tratados com sitagliptina tiveram:

  • Menor probabilidade que os controles de necessitar de ventilação18 mecânica.
  • Menor probabilidade de necessitar de cuidados intensivos.
  • Maior probabilidade que os controles de ter pelo menos uma queda de dois pontos em uma escala de sete pontos de gravidade da doença.
  • Menor probabilidade de haver piora dos desfechos clínicos, conforme definido por qualquer aumento no escore de gravidade clínica.

Neste estudo de pacientes com diabetes tipo 24 internados no hospital devido à COVID-19, o tratamento com sitagliptina no momento da hospitalização foi associado à mortalidade5 reduzida e melhores resultados clínicos em comparação com o tratamento de cuidados padrão. Os efeitos da sitagliptina em pacientes com diabetes tipo 24 e COVID-19 devem ser confirmados em um estudo randomizado19 controlado com placebo20 em andamento.

“Achamos que é razoável tentar sitagliptina se um paciente for internado no hospital com diabetes tipo 24 e COVID-19”, disse Fiorina.

Veja também sobre "COVID-19 em diabéticos: razões para piores resultados" e "Metformina21 reduz mortalidade5 em pacientes com COVID-19 e diabetes1".

 

Fontes:
Diabetes1 Care, publicação em setembro de 2020.
Harvard Medical School, notícia publicada em 30 de setembro de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. O tratamento com sitagliptina pode reduzir a mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19 e diabetes tipo 2. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1381068/o-tratamento-com-sitagliptina-pode-reduzir-a-mortalidade-em-pacientes-hospitalizados-com-covid-19-e-diabetes-tipo-2.htm>. Acesso em: 5 dez. 2020.

Complementos

1 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
2 Açúcar: 1. Classe de carboidratos com sabor adocicado, incluindo glicose, frutose e sacarose. 2. Termo usado para se referir à glicemia sangüínea.
3 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
4 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
5 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
6 Insulina: Hormônio que ajuda o organismo a usar glicose como energia. As células-beta do pâncreas produzem insulina. Quando o organismo não pode produzir insulna em quantidade suficiente, ela é usada por injeções ou bomba de insulina.
7 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
8 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
9 Retrospectivo: Relativo a fatos passados, que se volta para o passado.
10 Prognóstico: 1. Juízo médico, baseado no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, em relação à duração, à evolução e ao termo de uma doença. Em medicina, predição do curso ou do resultado provável de uma doença; prognose. 2. Predição, presságio, profecia relativos a qualquer assunto. 3. Relativo a prognose. 4. Que traça o provável desenvolvimento futuro ou o resultado de um processo. 5. Que pode indicar acontecimentos futuros (diz-se de sinal, sintoma, indício, etc.). 6. No uso pejorativo, pernóstico, doutoral, professoral; prognóstico.
11 Enzima: Proteína produzida pelo organismo que gera uma reação química. Por exemplo, as enzimas produzidas pelo intestino que ajudam no processo digestivo.
12 Citocina: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
13 Citocinas: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
14 Sobrevivência: 1. Ato ou efeito de sobreviver, de continuar a viver ou a existir. 2. Característica, condição ou virtude daquele ou daquilo que subsiste a um outro. Condição ou qualidade de quem ainda vive após a morte de outra pessoa. 3. Sequência ininterrupta de algo; o que subsiste de (alguma coisa remota no tempo); continuidade, persistência, duração.
15 Pneumonia: Inflamação do parênquima pulmonar. Sua causa mais freqüente é a infecção bacteriana, apesar de que pode ser produzida por outros microorganismos. Manifesta-se por febre, tosse, expectoração e dor torácica. Em pacientes idosos ou imunodeprimidos pode ser uma doença fatal.
16 Óbito: Morte de pessoa; passamento, falecimento.
17 Sobrevida: Prolongamento da vida além de certo limite; prolongamento da existência além da morte, vida futura.
18 Ventilação: 1. Ação ou efeito de ventilar, passagem contínua de ar fresco e renovado, num espaço ou recinto. 2. Agitação ou movimentação do ar, natural ou provocada para estabelecer sua circulação dentro de um ambiente. 3. Em fisiologia, é o movimento de ar nos pulmões. Perfusão Em medicina, é a introdução de substância líquida nos tecidos por meio de injeção em vasos sanguíneos.
19 Estudo randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle - o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
20 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
21 Metformina: Medicamento para uso oral no tratamento do diabetes tipo 2. Reduz a glicemia por reduzir a quantidade de glicose produzida pelo fígado e ajudando o corpo a responder melhor à insulina produzida pelo pâncreas. Pertence à classe das biguanidas.
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