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Alimentos à base de plantas, particularmente nozes, feijões e grãos integrais, estão associados a um menor risco de doenças cardíacas e diabetes

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O caso nunca foi tão claro: coma1 menos bacon e mais feijão.

Uma análise publicada na revista BMC Medicine, com base em dados de 37 estudos, acrescenta evidências de que comer menos alimentos de origem animal – especialmente carnes processadas – e substituí-los por grãos integrais, legumes e nozes está ligado a um risco reduzido de doenças cardiovasculares2 e diabetes tipo 23.

O estudo é particularmente útil porque detalha quais mudanças na dieta estão mais fortemente ligadas a uma saúde4 melhor, disse Qi5 Sun, professor associado de nutrição6 e epidemiologia da Harvard T.H. Chan School of Public Health, que não esteve envolvido no estudo. Por exemplo, o estudo estimou que substituir uma porção diária de carnes processadas, como cachorros-quentes, salsichas, frios ou bacon, por uma porção de grãos integrais, nozes ou feijão estava associado a um risco 23 a 36 por cento menor de problemas cardiovasculares, incluindo acidente vascular cerebral7, ataque cardíaco e doença coronariana8.

A análise combinou os resultados de estudos realizados nos Estados Unidos, Europa e Ásia que fizeram perguntas detalhadas aos participantes sobre os alimentos que normalmente comiam. Os pesquisadores os acompanharam por uma média de 19 anos e procuraram correlações entre suas dietas e saúde4. Eles fizeram ajustes para outros fatores que podem afetar a saúde4, incluindo ingestão de calorias9, atividade física, tabagismo e uso de álcool.

Esses tipos de estudos não podem determinar se os alimentos à base de plantas previnem diretamente doenças cardiovasculares2 ou diabetes tipo 23 – apenas que existe uma associação entre comer mais desses alimentos e um menor risco de desenvolver essas condições, disse Sabrina Schlesinger, epidemiologista e cientista de nutrição6 do Centro Alemão de Diabetes10 em Düsseldorf, Alemanha, e principal autora do estudo. Mas as descobertas foram consistentes entre os estudos, disse ela, e são apoiadas por outras pesquisas que apontam na mesma direção.

Leia sobre "O que é uma alimentação saudável" e "Alimentação vegetariana e alimentação vegana - como elas são".

Os benefícios de seguir uma dieta rica em grãos integrais, nozes e legumes e pobre em carnes vermelhas e processadas são apoiados por pelo menos 30 anos de evidências científicas, disse Maya Vadiveloo, professora associada de nutrição6 na Universidade de Rhode Island.

Esses alimentos à base de plantas estão cheios de gorduras e fibras saudáveis para o coração11, o que pode ajudar a controlar o açúcar12 no sangue13 e diminuir o risco de diabetes10, disse o Dr. Sun. Eles também contêm compostos à base de plantas benéficos; as leguminosas, por exemplo, são ricas em isoflavonas, que reduzem a inflamação14 e atuam como antioxidantes, disse ele.

As carnes vermelhas e processadas, por outro lado, podem ser mais ricas em gordura saturada15, sódio ou certos compostos que podem promover inflamação14, os quais podem contribuir para o risco de doenças crônicas, disse a Dra. Schlesinger.

Os pesquisadores do estudo descobriram que comer nozes / castanhas em vez de carnes processadas estava associado a um risco 22% menor de diabetes tipo 23 e a um risco 21% menor de morte precoce. A substituição da carne vermelha não processada por alimentos à base de plantas também esteve associada a melhores resultados de saúde4, embora as reduções no risco fossem menores e as evidências menos certas.

Os pesquisadores também descobriram que a substituição dos ovos por nozes / castanhas estava associada a um risco reduzido de diabetes tipo 23, doenças cardiovasculares2 e morte precoce. Isso é um tanto surpreendente, disse Sun, já que a maioria das pesquisas sugere que não há problema em comer um a dois ovos por dia. Mas numa comparação direta, as nozes podem ser mais saudáveis, disse ele.

O estudo não analisou leites e iogurtes vegetais ou substitutos de carne; mais pesquisas são necessárias para saber como esses produtos afetam a saúde4, disse a Dra. Schlesinger.

O estudo mostrou que mesmo mudanças dietéticas relativamente pequenas estão ligadas a uma saúde4 melhor, segundo a Dra. Schlesinger. “Adotar uma dieta baseada em vegetais não significa necessariamente eliminar todos os produtos de origem animal.”

Tomar medidas para comer menos carne vermelha “pode ser bom para a saúde4 cardiovascular e pode ajudar a ter uma dieta geral mais equilibrada e de maior qualidade, o que também é bom para o meio ambiente”, disse a Dra. Diminuir a carne vermelha também está associado a um risco reduzido de alguns tipos de câncer16 e ainda pode economizar dinheiro no supermercado, acrescentou ela.

Vadiveloo recomendou identificar pequenas mudanças que pareçam factíveis e focar nos alimentos que você já gosta. Se você costuma comer bacon no café da manhã ou um sanduíche com frios no almoço, tente alternativas alguns dias por semana, disse ela – como feijão ou frango em vez de bacon, ou manteiga de amendoim e geleia em vez de um sanduíche. Você também pode fazer substituições graduais em algumas refeições, como substituir parte da carne moída dos tacos por feijão, disse ela.

As pessoas às vezes temem que não obterão proteína suficiente se comerem menos carne, mas feijão, tofu e nozes fornecem proteína de alta qualidade, disse Sun. Ao reduzir o consumo de carne e adicionar estes alimentos nutritivos à base de plantas, “não há como errar”, disse ele.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Substituição de alimentos de origem animal por vegetais na saúde4 cardiometabólica e mortalidade17 por todas as causas

Há evidências crescentes de que a substituição de alimentos de origem animal por alimentos de origem vegetal está associada a um menor risco de doenças cardiovasculares2 (DCV), diabetes tipo 23 (DM2) e mortalidade17 por todas as causas.

O objetivo deste estudo foi resumir e avaliar as evidências da substituição de quaisquer alimentos de origem animal por alimentos de origem vegetal na saúde4 cardiometabólica e na mortalidade17 por todas as causas em uma revisão sistemática e metanálise.

Pesquisou-se sistematicamente as bases de dados MEDLINE, Embase e Web of Science até março de 2023 em busca de estudos prospectivos que investigassem a substituição de alimentos de origem animal por alimentos de origem vegetal em DCV, DM2 e mortalidade17 por todas as causas. Calculou-se taxas de risco resumidas (SHRs) e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) usando metanálises de efeitos aleatórios. Avaliou-se a certeza da evidência (CoE) usando a abordagem GRADE.

No total, foram incluídas 37 publicações baseadas em 24 coortes. Houve CoE moderada para um menor risco de DCV ao substituir carne processada por nozes / castanhas (SHR [IC 95%]: 0,73 [0,59, 0,91], n = 8 coortes), legumes (0,77 [0,68, 0,87], n = 8) e grãos integrais (0,64 [0,54, 0,75], n = 7), bem como substituir ovos por nozes (0,83 [0,78, 0,89], n = 8) e substituir manteiga por azeite (0,96 [0,95, 0,98], n = 3).

Além disso, encontrou-se CoE moderada para uma associação inversa com incidência18 de DM2 ao substituir carne vermelha por grãos / cereais integrais (0,90 [0,84, 0,96], n = 6) e carne vermelha ou carne processada por nozes / castanhas (0,92 [0,90, 0,94], n = 6 ou 0,78 [0,69, 0,88], n = 6), bem como para substituição de aves por grãos integrais (0,87 [0,83, 0,90], n = 2) e ovos por nozes ou grãos integrais (0,82 [0,79, 0,86], n = 2 ou 0,79 [0,76, 0,83], n = 2).

Adicionalmente, substituir a carne vermelha por nozes / castanhas (0,93 [0,91, 0,95], n = 9) e grãos integrais (0,96 [0,95, 0,98], n = 3), a carne processada por nozes / castanhas (0,79 [0,71, 0,88], n = 9) e legumes (0,91 [0,85, 0,98], n = 9), laticínios por nozes / castanhas (0,94 [0,91, 0,97], n = 3) e ovos por nozes / castanhas (0,85 [0,82, 0,89], n = 8) e legumes (0,90 [0,89, 0,91], n = 7) foi associado a um risco reduzido de mortalidade17 por todas as causas.

Essas descobertas indicam que uma mudança de alimentos de origem animal (por exemplo, carne vermelha e processada, ovos, laticínios, aves, manteiga) para alimentos de base vegetal (por exemplo, nozes / castanhas, legumes, grãos integrais, azeite) está beneficamente associada à saúde4 cardiometabólica e à mortalidade17 por todas as causas.

Veja também sobre "Diabetes Mellitus19" e "Sete passos para um coração11 saudável".

 

Fontes:
BMC Medicine, publicação em 16 de novembro de 2023.
The New York Times, notícia publicada em 15 de novembro de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Alimentos à base de plantas, particularmente nozes, feijões e grãos integrais, estão associados a um menor risco de doenças cardíacas e diabetes. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1462402/alimentos-a-base-de-plantas-particularmente-nozes-feijoes-e-graos-integrais-estao-associados-a-um-menor-risco-de-doencas-cardiacas-e-diabetes.htm>. Acesso em: 28 fev. 2024.

Complementos

1 Coma: 1. Alteração do estado normal de consciência caracterizado pela falta de abertura ocular e diminuição ou ausência de resposta a estímulos externos. Pode ser reversível ou evoluir para a morte. 2. Presente do subjuntivo ou imperativo do verbo “comer.“
2 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
3 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
4 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
5 QI: O QI é utilizado para dimensionar a inteligência humana em relação à faixa etária a que um sujeito pertence. Em 1905, os franceses Alfred Binet e Theodore Simon desenvolveram uma ferramenta para avaliar os potenciais cognitivos dos estudantes, tentando detectar entre eles aqueles que precisavam de um auxílio maior de seus mestres, criando a Escala de Binet-Simon. Outros estudiosos aperfeiçoaram esta metodologia. William Stern foi quem, em 1912, propôs o termo “QI“. O Quociente de Inteligência é a razão entre a Idade Mental e a Cronológica, multiplicada por 100 para se evitar a utilização dos decimais. Seguindo-se este indicador, é possível avaliar se um infante é precoce ou se apresenta algum retardamento no aprendizado. Os que apresentam o quociente em torno de 100 são considerados normais, os acima deste resultado revelam-se precoces e os que alcançam um valor mais inferior (cerca de 70) são classificados como retardados. Uma alta taxa de QI não indica que o indivíduo seja mentalmente são, ou mesmo feliz, e também não avalia outros potenciais e capacidades, tais como as artísticas e as de natureza espiritual. O QI mede bem os talentos linguísticos, os pensamentos lógicos, matemáticos e analíticos, a facilidade de abstração em construções teóricas, o desenvolvimento escolar, o saber acadêmico acumulado ao longo do tempo. Os grandes gênios do passado, avaliados dessa forma, apresentavam uma taxa de aproximadamente 180, o que caracteriza um superdotado.
6 Nutrição: Incorporação de vitaminas, minerais, proteínas, lipídios, carboidratos, oligoelementos, etc. indispensáveis para o desenvolvimento e manutenção de um indivíduo normal.
7 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
8 Doença coronariana: Doença do coração causada por estreitamento das artérias que fornecem sangue ao coração. Se o fluxo é cortado, o resultado é um ataque cardíaco.
9 Calorias: Dizemos que um alimento tem “x“ calorias, para nos referirmos à quantidade de energia que ele pode fornecer ao organismo, ou seja, à energia que será utilizada para o corpo realizar suas funções de respiração, digestão, prática de atividades físicas, etc.
10 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
11 Coração: Órgão muscular, oco, que mantém a circulação sangüínea.
12 Açúcar: 1. Classe de carboidratos com sabor adocicado, incluindo glicose, frutose e sacarose. 2. Termo usado para se referir à glicemia sangüínea.
13 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
14 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
15 Gordura saturada: Ela é encontrada principalmente em produtos de origem animal. Em temperatura ambiente, apresenta-se em estado sólido. Está nas carnes vermelhas e brancas (principalmente gordura da carne e pele das aves e peixes), leite e seus derivados integrais (manteiga, creme de leite, iogurte, nata) e azeite de dendê.
16 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
17 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
18 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
19 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
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