NewsMed

Jejuar por 24 horas pode enfraquecer o sistema imunológico

quinta-feira, 23 de março de 2023
Avalie este artigo
Jejuar por 24 horas pode enfraquecer o sistema imunológico

O jejum tem sido sugerido como uma abordagem útil para prevenir ou controlar doenças crônicas, como câncer, obesidade e doenças cardíacas – mas resultados de estudos com camundongos mostram que jejuns prolongados podem prejudicar o sistema imunológico.

Em um novo estudo, publicado na revista Immunity, camundongos que jejuaram por 24 horas tiveram mais inflamação e foram mais propensos a morrer de uma infecção bacteriana do que os camundongos seguindo um horário regular de alimentação.

Filip Swirski, da Escola de Medicina Icahn, em Mount Sinai, Nova York, e seus colegas analisaram amostras de sangue e tecidos de cinco camundongos sem acesso a comida por 24 horas. Exames de sangue comparando esses camundongos com aqueles que receberam uma dieta regular mostraram que, em média, os camundongos em jejum tinham menos de 10% do número de monócitos – um tipo de glóbulo branco que ajuda a combater infecções e recruta outras células imunes para tratar lesões.

“Estas são as células que são soldados de infantaria realmente críticos do sistema imunológico”, diz Swirski. Os pesquisadores descobriram que a diminuição se devia ao recuo dos monócitos do sangue para a medula óssea, onde basicamente hibernavam, diz ele.

Como resultado, quando os camundongos em jejum receberam comida novamente, os monócitos voltaram à corrente sanguínea. “Como existe esse excesso de monócitos que estão hibernando e vivendo na medula óssea, eles sobrevivem por mais tempo do que de outra forma”, diz Swirski. “Então, ao realimentar, o que vemos é uma onda de monócitos.” Em comparação com camundongos que continuaram a jejuar ou aqueles que nunca jejuaram, esses animais tinham quase quatro vezes mais monócitos no sangue, em média.

Leia sobre "Dieta do jejum" e "O que é uma alimentação saudável".

Para entender como isso afetou a imunidade, o pesquisador e sua equipe injetaram em 45 camundongos uma cepa de bactéria que infecta os pulmões. Vinte e três dos animais jejuaram por 24 horas antes da injeção. Os pesquisadores então permitiram que eles tivessem acesso aos alimentos.

Após 72 horas, quase 90% dos camundongos que jejuaram morreram, enquanto cerca de 60% dos camundongos que nunca jejuaram morreram. Os camundongos em dietas restritas também apresentaram maiores níveis de inflamação, sugerindo que longos períodos de jejum prejudicam as respostas imunes.

No entanto, Satchidananda Panda, do Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia, diz que os regimes de jejum mais comuns para humanos não duram 24 horas. Na verdade, sua própria pesquisa mostrou que um jejum de 15 horas melhora a imunidade em camundongos.

Mesmo assim, Swirski diz que essas descobertas são importantes para a forma como pensamos sobre a duração e as implicações do jejum. “Como tantas coisas na vida, o equilíbrio é importante. Portanto, o que pode ser benéfico de uma forma pode ter um impacto negativo imprevisto de outra”, diz ele.

No artigo, os pesquisadores relatam como os monócitos reentram na medula óssea durante o jejum e alteram a resposta do hospedeiro à infecção.

Destaques

  • Monócitos circulantes migram para a medula óssea quando é feito jejum
  • Os monócitos aumentam a proteína CXCR4 por meio de uma resposta de estresse hormonal induzida pelo jejum
  • A realimentação após um jejum prolongado resulta em um aumento de monócitos na circulação
  • Jejum prolongado e realimentação alteram a resposta imune à infecção bacteriana

Resumo

A dieta influencia profundamente a fisiologia. Considerando que a supernutrição eleva o risco de doenças por meio de sua influência na imunidade e no metabolismo, a restrição calórica e o jejum parecem ser salutogênicos. Apesar das múltiplas correlações observadas entre dieta e saúde, a biologia subjacente permanece obscura.

Neste estudo, identificou-se uma mudança induzida pelo jejum na migração de leucócitos que prolonga a vida útil dos monócitos e altera a suscetibilidade a doenças em camundongos.

Mostrou-se que o jejum durante a fase ativa induziu o retorno rápido de monócitos do sangue para a medula óssea. A reentrada dos monócitos foi orquestrada pela liberação de corticosterona dependente do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), que aumentou o receptor de quimiocina CXCR4.

Embora a medula seja um refúgio seguro para os monócitos durante a escassez de nutrientes, a realimentação levou à mobilização que culminou na monocitose de monócitos cronologicamente mais velhos e transcricionalmente distintos. Essas mudanças alteraram a resposta à infecção.

Esse estudo mostra que a dieta – em particular, o equilíbrio dinâmico temporal de uma dieta – modula o tempo de vida dos monócitos com consequências para a adaptação a estressores externos.

Veja também sobre "Sistema imunológico" e "O que é inflamação".

 

Fontes:
Immunity, publicação em 23 de fevereiro de 2023.
New Scientist, notícia publicada em 23 de fevereiro de 2023.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários