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Saúde metabólica no Brasil: dados mostram baixos níveis de atividade física, maus hábitos alimentares e aumento das doenças crônicas nos últimos anos

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Como um país em desenvolvimento com uma extensão territorial que se estende por grande parte do continente sul-americano e com uma população de cerca de 212 milhões, o Brasil enfrenta muitos desafios relacionados à desigualdade na assistência à saúde1 e estratégias preventivas, especialmente para doenças não transmissíveis. Esta análise, publicada pelo The Lancet Diabetes2 & Endocrinology, discute como nos últimos 50 anos o Brasil passou por uma transição epidemiológica caracterizada pela redução das doenças infecciosas e aumento das doenças crônicas.

Mudanças nos padrões socioeconômicos e culturais da população, como rápida urbanização, migração interna e desenvolvimento econômico desigual, resultaram em mudanças nos hábitos de vida, incluindo padrões alimentares cada vez mais prejudiciais à saúde1 e redução da atividade física.[1]

Em 2019, a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e de Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel, pesquisa telefônica anual feita pelo Ministério da Saúde1 do Brasil que visa fornecer um amplo panorama nacional das mudanças nos hábitos alimentares e de saúde1 e de diversas doenças não transmissíveis, tais como hipertensão3 e diabetes2) mostrou que 44,8% da população geral relatou um nível insuficiente de atividade física (ou seja, menos de 150 minutos por semana de atividade de intensidade moderada ou 75 minutos por semana de atividade de alta intensidade).[2]

A atividade física insuficiente foi mais comum entre as mulheres (52,2%) do que entre os homens (36,1%) e tendeu a ser mais prevalente com o aumento da idade e menor nível de escolaridade em ambos os sexos.

Apenas 34,3% da população relatou consumo regular (≥5 dias por semana) de frutas e verduras (27,9% para homens e 39,8% para mulheres); o valor equivalente para o consumo regular de alimentos ultraprocessados ​​foi de 18,2% e foi maior entre os homens (21,8%) do que entre as mulheres (15,1%).

Os dados da pesquisa Vigitel também revelaram que a prevalência4 de obesidade5 (IMC6 ≥30 kg/m²) aumentou de 13,9% em 2009 para 19,8% em 2019. Para pessoas com idade entre 45-64 anos, a prevalência4 de obesidade5 foi de 20,9%, enquanto nas pessoas de 18 a 24 anos era de 8,7%. Esses achados foram consistentes com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e sugerem que os fatores de estilo de vida parecem, pelo menos em parte, responsáveis ​​pela tendência crescente de sobrepeso7 e obesidade5 em todas as faixas etárias no Brasil.

Dados sobre a prevalência4 de síndrome metabólica8, um agrupamento de anormalidades metabólicas e cardiovasculares, também estão disponíveis para algumas cidades brasileiras. Por exemplo, um estudo de base populacional realizado entre 2009 e 2014 com 818 adultos com 20 anos ou mais de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, mostrou que a prevalência4 geral de síndrome metabólica8 foi de 30,9% (IC 95% 27,2-34,7). Esses valores foram maiores do que aqueles encontrados nos primeiros anos do século 21 (19-25%).[3] Após ajuste para etnia, nível educacional, renda, estado civil e tabagismo, adultos que deixaram de ser ativos durante os momentos de lazer entre 2009 e 2014 tiveram uma probabilidade cerca de duas vezes maior de desenvolver síndrome metabólica8 (odds ratio 2,08, IC 95% 1,30–3,33), com uma probabilidade ligeiramente maior vista naqueles que permaneceram fisicamente inativos (2,24, 1,38–3,65).[4]

Leia sobre "Alimentação saudável", "Obesidade5", "Maior consumo de ultraprocessados aumenta risco de mortalidade9" e "Sedentarismo10".

A crescente prevalência4 de diabetes2 tipo 2 no Brasil também é preocupante. Dados da Vigitel mostraram um aumento de 24% na prevalência4 de diabetes tipo 211 autorreferida entre adultos brasileiros de 2006 a 2019 (de 5,5% para 7,4%). Os resultados do ELSA-Brasil, um estudo de coorte12 de 15.105 funcionários públicos com idades entre 35-74 anos de várias regiões, mostrou que 20% dos participantes tinham diabetes tipo 211 no início do estudo (2008-10).[5] A carga de mortalidade9 do diabetes2 no Brasil também merece atenção: em uma análise nacional,[6] houve 65.581 mortes atribuíveis ao diabetes2 conhecido entre adultos de 35-80 anos em 2013, representando 9,1% das mortes nesta faixa etária (se o diabetes2 não diagnosticado fosse levado em consideração, esse valor aumentaria para 14,3%).[6] Por outro lado, a proporção de todas as mortes atribuídas ao diabetes2, com base em atestados de óbito13, de 5,3% é provavelmente uma subestimativa.

No estudo ELSA-Brasil com adultos de 35-74 anos,[7] entre mulheres e homens, respectivamente, 23,2% e 40,7% tinham hipertrigliceridemia, 20,7% e 14,7% tinham colesterol14 HDL15 baixo e 57,6% e 58,8% tinham colesterol14 LDL16 alto. Uma alta prevalência4 de dislipidemia também foi aparente no estudo ERICA com 38.069 adolescentes com idades entre 12-17 anos.[8] As alterações lipídicas mais prevalentes na população do estudo ERICA foram colesterol14 HDL15 baixo (46,8%, IC 95% 44,8–48,9), hipercolesterolemia17 (20,1%, 19,0–21,3) e hipertrigliceridemia (7,8%, 7,1–8,6). A prevalência4 de hipercolesterolemia17 familiar, uma doença genética associada à aterosclerose18 precoce, também foi avaliada no estudo ELSA-Brasil, mostrando uma carga geral de um em 263 indivíduos; a hipercolesterolemia17 familiar foi mais comum em grupos étnicos negros (um em 156) e pardos (etnia mista; um em 204) do que em brancos (um em 417).[9]

A pandemia19 de COVID-19, que até o momento resultou na morte de mais de 157.000 pessoas no Brasil, exacerbou as desigualdades de saúde1 existentes. Tanto a obesidade5 quanto o diabetes2 são fatores de risco reconhecidos para desfechos clínicos graves de COVID-19 e são mais prevalentes em populações socialmente desfavorecidas, como grupos étnicos pardo e negro. No Brasil, esses grupos étnicos foram desproporcionalmente afetados pela COVID-19 e tinham maior probabilidade de morrer.[10] A escala do impacto negativo da pandemia19 na saúde1 dos brasileiros, especialmente na saúde1 de seus cidadãos mais carentes, ainda não é conhecida, mas espera-se que seja muito substancial.

Em 2012, o Ministério da Saúde1 brasileiro estabeleceu um painel de cientistas, médicos e economistas da saúde1 para produzir diretrizes para o tratamento de doenças crônicas, incluindo obesidade5, diabetes2 e comorbidades20 associadas. Em 2020, esse painel publicou um novo conjunto de diretrizes com base nas mudanças no estilo de vida, incluindo protocolos para atividade física e orientação dietética, farmacoterapia e cirurgia bariátrica21 ou metabólica. O Brasil possui o segundo maior volume de cirurgias bariátricas ou metabólicas do mundo, depois dos EUA, com 68.530 procedimentos realizados em 2019.

Cerca de 47 milhões de brasileiros são atendidos pelo sistema privado de saúde1, a maioria com acesso a medicamentos de ponta. No entanto, a grande maioria da população ainda não é atendida pelo sistema público de saúde1. As seguradoras privadas de saúde1 reembolsam cerca de 90% das cirurgias bariátricas ou metabólicas, embora esses procedimentos não estejam amplamente disponíveis para as pessoas atendidas pelo sistema público de saúde1. As novas diretrizes para 2020 incluem recomendações que devem atuar como motivadores para aumentar o número de procedimentos cirúrgicos bariátricos no sistema público de saúde1. No entanto, essas orientações foram emitidas no final de fevereiro, após o qual todos os principais hospitais públicos tiveram seus leitos e até mesmo salas de cirurgia transformadas em unidades de terapia intensiva22 para tratar pacientes com COVID-19. Assim, nenhum procedimento de cirurgia bariátrica21 foi realizado de março até o final de agosto de 2020, embora as operações agora estejam sendo retomadas lentamente.

O Brasil está enfrentando as consequências metabólicas de uma rápida transição epidemiológica. Lidar com o fardo da saúde1 metabólica precária requer o envolvimento de organizações de saúde1 e da sociedade civil, bem como esforços robustos do governo. Há uma necessidade urgente de implementar programas educacionais e melhorar as instalações públicas dedicadas para ajudar os brasileiros a ter um estilo de vida mais saudável e reduzir o fardo da obesidade5 e suas comorbidades20.

Veja também sobre "Diabetes Mellitus23", "Anos de vida perdidos para o diabetes2", "Colesterol14 alto" e "Síndrome metabólica8".

 

Referências

[1] Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. | Link

[2] Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. | Link

[3] Metabolic syndrome in central Brazil: prevalence and correlates in the adult population. | Link

[4] Level of leisure-time physical activity and its association with the prevalence of metabolic syndrome in adults: a population-based study. | Link

[5] High prevalence of diabetes2 and intermediate hyperglycemia—the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). | Link

[6] A nationwide analysis of the excess death attributable to diabetes2 in Brazil. Link

[7] Dyslipidemia according to gender and race: the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). | Link

[8] ERICA: prevalence of dyslipidemia in Brazilian adolescents. | Link

[9] Familial hypercholesterolemia prevalence in an admixed racial society: sex and race matter. The ELSA-Brasil. | Link

[10] Ethnic and regional variations in hospital mortality from COVID-19 in Brazil: a cross-sectional observational study. | Link

 

Fonte: The Lancet Diabetes2 & Endocrinology, Vol. 8, Nº 12, em 01 de dezembro de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. Saúde metabólica no Brasil: dados mostram baixos níveis de atividade física, maus hábitos alimentares e aumento das doenças crônicas nos últimos anos. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/saude/1382938/saude-metabolica-no-brasil-dados-mostram-baixos-niveis-de-atividade-fisica-maus-habitos-alimentares-e-aumento-das-doencas-cronicas-nos-ultimos-anos.htm>. Acesso em: 26 jul. 2021.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
3 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
4 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
5 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
6 IMC: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
7 Sobrepeso: Peso acima do normal, índice de massa corporal entre 25 e 29,9.
8 Síndrome metabólica: Tendência de várias doenças ocorrerem ao mesmo tempo. Incluindo obesidade, resistência insulínica, diabetes ou pré-diabetes, hipertensão e hiperlipidemia.
9 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
10 Sedentarismo: Qualidade de quem ou do que é sedentário, ou de quem tem vida e/ou hábitos sedentários. Sedentário é aquele que se exercita pouco, que não se movimenta muito.
11 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
12 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
13 Óbito: Morte de pessoa; passamento, falecimento.
14 Colesterol: Tipo de gordura produzida pelo fígado e encontrada no sangue, músculos, fígado e outros tecidos. O colesterol é usado pelo corpo para a produção de hormônios esteróides (testosterona, estrógeno, cortisol e progesterona). O excesso de colesterol pode causar depósito de gordura nos vasos sangüíneos. Seus componentes são: HDL-Colesterol: tem efeito protetor para as artérias, é considerado o bom colesterol. LDL-Colesterol: relacionado às doenças cardiovasculares, é o mau colesterol. VLDL-Colesterol: representa os triglicérides (um quinto destes).
15 HDL: Abreviatura utilizada para denominar um tipo de proteína encarregada de transportar o colesterol sanguíneo, que se relaciona com menor risco cardiovascular. Também é conhecido como “Bom Colesterol”. Seus valores normais são de 35-50mg/dl.
16 LDL: Lipoproteína de baixa densidade, encarregada de transportar colesterol através do sangue. Devido à sua tendência em depositar o colesterol nas paredes arteriais e a produzir aterosclerose, tem sido denominada “mau colesterol“.
17 Hipercolesterolemia: Aumento dos níveis de colesterol do sangue. Está associada a uma maior predisposição ao desenvolvimento de aterosclerose.
18 Aterosclerose: Tipo de arteriosclerose caracterizado pela formação de placas de ateroma sobre a parede das artérias.
19 Pandemia: É uma epidemia de doença infecciosa que se espalha por um ou mais continentes ou por todo o mundo, causando inúmeras mortes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pandemia pode se iniciar com o aparecimento de uma nova doença na população, quando o agente infecta os humanos, causando doença séria ou quando o agente dissemina facilmente e sustentavelmente entre humanos. Epidemia global.
20 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
21 Cirurgia Bariátrica:
22 Terapia intensiva: Tratamento para diabetes no qual os níveis de glicose são mantidos o mais próximo do normal possível através de injeções freqüentes ou uso de bomba de insulina, planejamento das refeições, ajuste em medicamentos hipoglicemiantes e exercícios baseados nos resultados de testes de glicose além de contatos freqüentes entre o diabético e o profissional de saúde.
23 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
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