Gostou do artigo? Compartilhe!

Não foram encontradas evidências de riscos cardiovasculares precoces com o tratamento com testosterona

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

O tratamento com testosterona para hipogonadismo não aumentou os riscos a curto ou médio prazo para eventos cardiovasculares, de acordo com uma revisão sistemática e metanálise.

Os riscos cardiovasculares foram semelhantes entre os homens no grupo de testosterona e aqueles no grupo placebo1 (7,5% vs 7,2%), relataram Channa Jayasena, PhD, do Imperial College London, na ENDO 2022, a reunião anual da Endocrine Society.

As descobertas também foram publicadas recentemente na revista The Lancet Healthy Longevity.

A taxa de mortalidade2 entre aqueles em tratamento com testosterona foi 0,4 pontos percentuais menor do que o grupo controle, mas essa diferença não foi estatisticamente significativa.

“Embora tenham ocorrido algumas mortes até agora, não há evidências atuais de que a testosterona elevaria o risco cardiovascular ou cerebrovascular”, destacou Jayasena durante a apresentação dos resultados.

No entanto, ele observou que a metanálise se baseou em estudos de curto prazo – alguns tão curtos quanto 3 meses – que não foram projetados para avaliar completamente esse risco.

Saiba mais: "Hipogonadismo" e "Sobre o uso de testosterona".

“A prescrição de testosterona para hipogonadismo está aumentando globalmente, mas mensagens conflitantes sobre sua segurança podem ter levado muitos pacientes a não receberem o tratamento”, disse a co-investigadora Jemma Hudson, MSc, da Universidade de Aberdeen, na Escócia, em um comunicado à imprensa. “Estudos em andamento devem ajudar a determinar a segurança a longo prazo da testosterona, mas, enquanto isso, nossos resultados fornecem a garantia muito necessária sobre sua segurança a curto e médio prazo. Nossas descobertas podem ter implicações importantes para o tratamento de homens com hipogonadismo no mundo todo.”

Os eventos cardiovasculares mais comuns nos grupos de testosterona e placebo1 incluíram arritmia3 (31,3% vs 26,7%), doença arterial coronariana (19,9% vs 18,8%), insuficiência cardíaca4 (13,3% vs 15,9%) e infarto do miocárdio5 (6,0% vs 9,1 %).

“O que não queremos é ser uma espécie de bandeira verde para dizer: 'Está aberta a temporada para receitar testosterona'”, disse Jayasena. “Porque qualquer medicamento que não seja necessário não é seguro.”

No artigo publicado, os pesquisadores relatam que a testosterona é o tratamento padrão para o hipogonadismo masculino, mas há incerteza sobre sua segurança cardiovascular devido a achados inconsistentes.

O objetivo, portanto, era fornecer o mais extenso conjunto de dados de participantes individuais (CDPI) de ensaios de testosterona disponíveis, analisar subtipos de todos os eventos cardiovasculares observados durante o tratamento e investigar o efeito da incorporação de dados de ensaios que não forneceram CDPI.

Foi feita uma revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos6 randomizados, incluindo CDPI. Pesquisou-se as bases de dados MEDLINE, MEDLINE In-Process & Other Non-Indexed Citations, MEDLINE Epub Ahead of Print, Embase, Science Citation Index, Cochrane Controlled Trials Register, Cochrane Database of Systematic Reviews e Database of Abstracts of Review of Effects para literatura de 1992 em diante (data da busca, 27 de agosto de 2018).

Os seguintes critérios de inclusão foram aplicados:

  1. homens com 18 anos ou mais com uma concentração de testosterona na triagem de 12 nmol/L (350 ng/dL) ou menos;
  2. a intervenção de interesse foi o tratamento com qualquer formulação de testosterona, frequência de dose e via de administração, por um período mínimo de 3 meses;
  3. um comparador de tratamento com placebo1;
  4. e estudos avaliando os desfechos primários ou secundários pré-especificados de interesse.

Detalhes do desenho do estudo, intervenções, participantes e medidas de resultados foram extraídos de artigos publicados e CDPI anônimos foram solicitados aos investigadores de todos os ensaios identificados.

Os desfechos primários foram mortalidade2, eventos cardiovasculares e cerebrovasculares em qualquer momento durante o acompanhamento.

O risco de viés foi avaliado usando a ferramenta Cochrane Risk of Bias. Foi feita uma metanálise de um estágio usando CDPI e uma metanálise de dois estágios integrando CDPI com dados de estudos que não forneceram CDPI.

9.871 citações foram identificadas por meio de pesquisas de banco de dados e, após a exclusão de duplicatas e de citações irrelevantes, 225 relatórios de estudo foram recuperados para triagem de texto completo. 116 estudos foram posteriormente excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão em termos de desenho de estudo e características de intervenção, e 35 estudos primários (5.601 participantes, idade média de 65 anos, [DP 11]) relatados em 109 publicações revisadas por pares foram considerados adequados para inclusão.

Destes, 17 estudos (49%) forneceram CDPI (3.431 participantes, duração média de 9,5 meses) de nove países diferentes, enquanto 18 não forneceram dados de CDPI. O risco de viés foi considerado baixo na maioria dos estudos de CDPI (71%).

Menos mortes ocorreram com o tratamento com testosterona (seis [0,4%] de 1.621) do que placebo1 (12 [0,8%] de 1.537), sem diferenças significativas entre os grupos (odds ratio [OR] 0,46 [IC 95% 0,17-1,24]; p = 0,13).

O risco cardiovascular foi semelhante durante o tratamento com testosterona (120 [7,5%] de 1.601 eventos) e tratamento com placebo1 (110 [7,2%] de 1.519 eventos; OR 1,07 [IC 95% 0,81-1,42]; p = 0,62).

Eventos cardiovasculares de ocorrência frequente incluíram arritmia3 (52 de 166 vs 47 de 176), doença arterial coronariana (33 de 166 vs 33 de 176), insuficiência cardíaca4 (22 de 166 vs 28 de 176) e infarto do miocárdio5 (10 de 166 vs 16 de 176).

Em geral, idade do paciente (interação 0,97 [IC 99% 0,92-1,03]; p = 0,17), testosterona basal (interação 0,97 [0,82-1,15]; p = 0,69), status de tabagismo (interação 1,68 [0,41-6,88]; p = 0,35), ou status de diabetes7 (interação 2,08 [0,89-4,82; p = 0,025) não foram associados ao risco cardiovascular.

O estudo não encontrou evidências de que a testosterona aumentasse os riscos cardiovasculares de curto a médio prazo em homens com hipogonadismo, mas há uma escassez de dados avaliando sua segurança a longo prazo. Dados de longo prazo são necessários para avaliar completamente a segurança da testosterona.

Veja também sobre "Doenças cardiovasculares8" e "Sete passos para um coração9 saudável".

 

Fontes:
The Lancet Healthy Longevity, Vol. 3, Nº 6, em junho de 2022.
MedPage Today, notícia publicada em 13 de junho de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Não foram encontradas evidências de riscos cardiovasculares precoces com o tratamento com testosterona. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1418725/nao-foram-encontradas-evidencias-de-riscos-cardiovasculares-precoces-com-o-tratamento-com-testosterona.htm>. Acesso em: 10 dez. 2022.

Complementos

1 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
2 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
3 Arritmia: Arritmia cardíaca é o nome dado a diversas perturbações que alteram a frequência ou o ritmo dos batimentos cardíacos.
4 Insuficiência Cardíaca: É uma condição na qual a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto (débito cardíaco) é insuficiente para suprir as demandas normais de oxigênio e de nutrientes do organismo. Refere-se à diminuição da capacidade do coração suportar a carga de trabalho.
5 Infarto do miocárdio: Interrupção do suprimento sangüíneo para o coração por estreitamento dos vasos ou bloqueio do fluxo. Também conhecido por ataque cardíaco.
6 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
7 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
8 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
9 Coração: Órgão muscular, oco, que mantém a circulação sangüínea.
Gostou do artigo? Compartilhe!