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A evolução do parasita Plasmodium falciparum está dificultando a detecção e o tratamento da malária

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Testes rápidos baratos para a malária ajudaram a diminuir a prevalência1 da doença em muitas partes da África. Mas apenas 15 anos ou mais após sua introdução, surgiram parasitas “furtivos” da malária que não podem mais ser detectados pelos testes rápidos padrão.

“Esta é uma grande ameaça ao controle da malária”, disse Jane Cunningham, do Programa Global de Malária da Organização Mundial de Saúde2, em Genebra.

As cepas3 de Plasmodium falciparum que escapam do diagnóstico4 por testes de diagnóstico4 rápido (TDRs) representam uma grande ameaça ao controle da malária e aos esforços de eliminação.

Em muitos países africanos, apenas as pessoas cujos resultados do teste rápido são positivos são tratadas. Mas na Eritreia, por volta de 2016, os profissionais de saúde2 notaram que muitas crianças que pareciam estar realmente doentes com malária apresentavam resultados negativos. Quando os médicos examinaram as amostras de sangue5 em um microscópio, eles puderam ver que muitas das crianças estavam realmente infectadas.

“Era uma situação de crise”, diz Cunningham. “Eles pensaram que havia algo errado com o teste.”

Em vez disso, sua equipe descobriu que até 80 por cento dos parasitas da malária na área têm mutações que significam que eles não produzem mais as duas proteínas6 – chamadas pfhrp2 e pfhrp3 – detectadas pelos testes rápidos.

“O uso contínuo desses testes rápidos está selecionando parasitas sem as duas proteínas6 marcadoras para proliferar”, diz Cunningham.

Sua equipe então fez uma pesquisa na vizinha Etiópia. “Não encontramos uma prevalência1 tão alta como na Eritreia, mas encontramos níveis realmente preocupantes”, diz ela.

Leia sobre "Conhecendo a malária", "Parasitoses" e "Infecções7 oportunistas".

A evolução costuma ser uma troca, com as mutações que fornecem uma vantagem de uma forma sendo uma desvantagem de outra. Mas os parasitas parecem prosperar sem as proteínas6 pfhrp, cuja função é desconhecida.

Na África, a maioria dos TDRs para malária reconhece o antígeno8 da proteína 2 rica em histidina. Os parasitas Plasmodium falciparum sem os genes da proteína 2 rica em histidina (pfhrp2) e da proteína 3 rica em histidina (pfhrp3) escapam da detecção por esses TDRs, mas não se sabe se essas deleções conferem vantagem seletiva suficiente para conduzir a rápida expansão populacional.

Foi neste contexto que Cunningham e sua equipe conduziram um estudo, publicado na Nature Microbiology.

Ao estudar amostras de sangue5 de uma coorte9 de 12.572 participantes inscritos em uma pesquisa transversal prospectiva ao longo das fronteiras da Etiópia com a Eritreia, o Sudão e o Sudão do Sul, usando TDRs, PCR10, um imunoensaio ultrassensível baseado em esferas para detecção de antígeno8 e sequenciamento de próxima geração, os pesquisadores estimaram que os TDRs baseados na proteína 2 rica em histidina perderiam 9,7% (intervalo de confiança de 95% 8,5-11,1) dos casos de malária por P. falciparum devido à deleção do pfhrp2.

Aplicou-se uma abordagem de sequenciamento profundo direcionado para sonda de inversão molecular para identificar padrões de deleção subtelomérica distintos e deleção de pfhrp3 bem estabelecida e para descobrir a expansão recente de uma deleção de pfhrp2 singular em todas as regiões amostradas.

Foi proposto um modelo no qual as deleções de pfhrp3 surgiram independentemente várias vezes, seguidas por uma forte seleção positiva para a deleção de pfhrp2 devido ao teste e tratamento com base em TDR.

Esses achados demonstram que as estratégias de diagnóstico4 existentes precisam ser reconsideradas com urgência11 na Etiópia, e uma vigilância aprimorada para a deleção do pfhrp2 é necessária em todo o Sudeste Africano.

As áreas com o parasita12 da malária mutante já estão mudando para testes que detectam outra proteína, mas esses testes ainda não são tão confiáveis ​​– eles são menos estáveis ​​ao calor, por exemplo. Mudar para detecção de microscópio não é uma opção na maioria dos lugares, pois requer equipamentos caros e técnicos qualificados.

Idealmente, diz Cunningham, os testes rápidos procurariam vários alvos biomoleculares nos parasitas ao mesmo tempo, e aqueles que desempenham um papel fundamental na biologia dos organismos, de modo que é difícil para eles sofrer mutação13. Mas isso torna os testes mais complexos e caros.

É comum que vírus14, bactérias, parasitas e cânceres desenvolvam resistência aos tratamentos, mas evoluir para escapar de um teste é muito mais incomum – este pode ser o primeiro exemplo claro. Alguns vírus14 da hepatite15 B têm mutações que significam que são perdidos nos testes, diz Cunningham, mas não está claro se isso é devido à seleção como consequência do teste.

Veja também sobre "Tafenoquina - novo medicamento para tratamento contra a malária" e "Vacina16 contra malária se mostra promissora".

 

Fontes:
Nature Microbiology, publicação em 27 de setembro de 2021.
New Scientist, notícia publicada em 27 de setembro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. A evolução do parasita Plasmodium falciparum está dificultando a detecção e o tratamento da malária. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1402895/a-evolucao-do-parasita-plasmodium-falciparum-esta-dificultando-a-deteccao-e-o-tratamento-da-malaria.htm>. Acesso em: 8 dez. 2021.

Complementos

1 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
2 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
3 Cepas: Cepa ou estirpe é um termo da biologia e da genética que se refere a um grupo de descendentes com um ancestral comum que compartilham semelhanças morfológicas e/ou fisiológicas.
4 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
5 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
6 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
7 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
8 Antígeno: 1. Partícula ou molécula capaz de deflagrar a produção de anticorpo específico. 2. Substância que, introduzida no organismo, provoca a formação de anticorpo.
9 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
10 PCR: Reação em cadeia da polimerase (em inglês Polymerase Chain Reaction - PCR) é um método de amplificação de DNA (ácido desoxirribonucleico).
11 Urgência: 1. Necessidade que requer solução imediata; pressa. 2. Situação crítica ou muito grave que tem prioridade sobre outras; emergência.
12 Parasita: Organismo uni ou multicelular que vive às custas de outro, denominado hospedeiro. A presença de parasitos em um hospedeiro pode produzir diferentes doenças dependendo do tipo de afecção produzida, do estado geral de saúde do hospedeiro, de mecanismos imunológicos envolvidos, etc. São exemplos de parasitas: a sarna, os piolhos, os áscaris (lombrigas), as tênias (solitárias), etc.
13 Mutação: 1. Ato ou efeito de mudar ou mudar-se. Alteração, modificação, inconstância. Tendência, facilidade para mudar de ideia, atitude etc. 2. Em genética, é uma alteração súbita no genótipo de um indivíduo, sem relação com os ascendentes, mas passível de ser herdada pelos descendentes.
14 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
15 Hepatite: Inflamação do fígado, caracterizada por coloração amarela da pele e mucosas (icterícia), dor na região superior direita do abdome, cansaço generalizado, aumento do tamanho do fígado, etc. Pode ser produzida por múltiplas causas como infecções virais, toxicidade por drogas, doenças imunológicas, etc.
16 Vacina: Tratamento à base de bactérias, vírus vivos atenuados ou seus produtos celulares, que têm o objetivo de produzir uma imunização ativa no organismo para uma determinada infecção.
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