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O que os psiquiatras podem aprender com os surtos de SARS e MERS?

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Embora o atendimento padrão a pacientes com distúrbios psiquiátricos deva continuar durante a atual pandemia1 de COVID-19, os psiquiatras também precisam tratar as complicações psiquiátricas dos pacientes com essa nova doença. Uma estimativa das prevalências esperadas de distúrbios psiquiátricos que ocorrem neste grupo ajudaria a redistribuir o pessoal de saúde2 mental entre tarefas antigas e novas para atender às necessidades de ambos os grupos de maneira ideal.

No The Lancet Psychiatry, Jonathan Rogers e colaboradores relatam os resultados de sua revisão sistemática e metanálise de sequelas3 psiquiátricas em pacientes internados em hospital com síndrome4 respiratória aguda grave (SARS), síndrome4 respiratória do Oriente Médio (MERS) e COVID-19 nos estágios agudo5 e pós-doença.

A revisão sistemática mostrou que a maioria dos pacientes com SARS ou MERS não desenvolve distúrbios psiquiátricos, mas uma minoria significativa exibe confusão (36 [27,9%; IC 95% 20,5–36,0] dos 129 pacientes), humor deprimido (42 [32,6%; 24,7-40,9] de 129), ansiedade (46 [35,7%; 27,6-44,2] de 129), memória prejudicada (44 [34,1%; 26,2–42,5] de 129) e insônia (54 [41,9%; 22,5–50,5] de 129).

A metanálise mostrou que a prevalência6 pontual no estágio pós-doença foi de 32,2% (IC 95% 23,7–42,0) para transtorno de estresse pós-traumático, 14,9% (12,1–18,2) para depressão e 14,8% (11,1–19,4) para ansiedade.

Leia sobre "Como é o coronavírus", "Estresse pós-traumático" e "Transtorno de ansiedade generalizada".

Como a pandemia1 de COVID-19 é recente e contínua, poucos estudos relataram distúrbios psiquiátricos complicando essa doença em particular e aqueles que relataram observaram apenas aspectos de curto prazo. Rogers e colegas contornaram essa lacuna de conhecimento, reunindo os poucos estudos sobre distúrbios psiquiátricos em pacientes com COVID-19 com o corpo muito maior de literatura sobre transtornos psiquiátricos que acompanham duas epidemias anteriores de coronavírus: os surtos de SARS de 2002 e MERS de 2012.

Do ponto de vista biológico, faz sentido mesclar dados sobre infecções7 por SARS-CoV-2, que causa COVID-19, com infecções7 por SARS-CoV e MERS-CoV, porque a semelhança entre esses três tipos de coronavírus é alta. O SARS-CoV-2 é tanto estrutural quanto geneticamente altamente homólogo do MERS-CoV (>50% de similaridade) e do SARS-CoV (>79% de similaridade).

Mesmo as proteínas8 spike que o SARS-CoV e o SARS-CoV-2 usam para se ligar à membrana celular9 alvo (proteína spike S, que interage com o receptor da enzima10 conversora de angiotensina 2) são amplamente semelhantes.

Os coronavírus têm se mostrado potencialmente neuroinvasivos, neurotrópicos e neurovirulentos. Para SARS-CoV e MERS-CoV, a presença de vírus11 no cérebro12 foi confirmada com RT-PCR13, imuno-histoquímica e hibridação in situ14. Essas confirmações ainda não foram fornecidas para SARS-CoV-2, mas sintomas15 como confusão mental, convulsões e anosmia durante infecção16 aguda podem refletir o envolvimento do SNC17. Assim, em termos de propriedades do vírus11, SARS-CoV-2, SARS-CoV e MERS-CoV são amplamente comparáveis.

No entanto, o tratamento de pacientes internados no hospital por infecção16 pelo SARS-CoV-2 parece ser diferente do tratamento daqueles admitidos por infecções7 por SARS-CoV e MERS-CoV. Além disso, a situação social à qual os sobreviventes da COVID-19 retornam é completamente diferente da situação dos sobreviventes da SARS e MERS. Essas diferenças são relevantes para a prevalência6 de transtornos psiquiátricos nos estágios agudo5 e pós-doença.

Pacientes com COVID-19 admitidos no hospital podem ser mais velhos do que pacientes com SARS (embora nem todos os estudos mostrem isso), e a duração média de sua permanência na unidade de terapia intensiva18 (UTI) é mais longa. Na era da COVID-19, diferentemente dos surtos anteriores de SARS e MERS, o medo de falta de instalações médicas, como ventiladores, pode aumentar ainda mais o estresse.

Todos os três fatores aumentam o risco de complicações psiquiátricas, como ansiedade e delírio19 na fase aguda de pacientes com COVID-19 em comparação com aqueles com SARS ou MERS. Ficar na UTI é um fator de risco20 para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos por si só. Em 2018, um grande estudo entre quase 5.000 sobreviventes de UTI mostrou que a prevalência6 de transtorno de estresse pós-traumático era de 46%, a de ansiedade era de 40% e a de depressão era de 22%. Essas prevalências estão bem acima das faixas superiores dos intervalos de confiança relatados por Rogers e colegas.

Como a permanência prolongada na UTI e o uso de ventilação21 mecânica são fatores de risco para distúrbios psiquiátricos, pacientes com COVID-19 que precisam de internação em uma UTI são um grupo de risco22 ultra alto para desenvolver distúrbios psiquiátricos agudos, especialmente delirium23.

Finalmente, os sobreviventes da COVID-19, ao contrário dos sobreviventes da SARS e da MERS, retornam a uma sociedade em profunda crise econômica, com escassez de necessidades básicas, como alimentos em alguns países e outros países ainda bloqueados e reforçando o isolamento físico. Essas adversidades sociais manterão altos os níveis de estresse após a recuperação somática e aumentarão ainda mais o risco de complicações psiquiátricas a longo prazo, como ansiedade e depressão.

Conclui-se que os achados de surtos anteriores de coronavírus são úteis, mas podem não ser preditores exatos de prevalência6 de complicações psiquiátricas em pacientes com COVID-19. O aviso de Rogers e colegas de que devemos nos preparar para tratar um grande número de pacientes com COVID-19 que desenvolvem delirium23, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão é uma mensagem importante para a comunidade psiquiátrica.

As estimativas de prevalência6 relatadas neste artigo devem ser interpretadas com cautela, pois o número real de transtornos psiquiátricos agudos e de longo prazo para pacientes24 com COVID-19 pode ser consideravelmente maior.

Leia sobre "Delirium23 ou estado confusional", "Depressões" e "Orientações para isolamento domiciliar de casos de COVID-19".

 

Fonte: The Lancet Psychiatry, comentário publicado em 18 de maio de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. O que os psiquiatras podem aprender com os surtos de SARS e MERS?. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1367628/o-que-os-psiquiatras-podem-aprender-com-os-surtos-de-sars-e-mers.htm>. Acesso em: 31 mai. 2020.

Complementos

1 Pandemia: É uma epidemia de doença infecciosa que se espalha por um ou mais continentes ou por todo o mundo, causando inúmeras mortes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pandemia pode se iniciar com o aparecimento de uma nova doença na população, quando o agente infecta os humanos, causando doença séria ou quando o agente dissemina facilmente e sustentavelmente entre humanos. Epidemia global.
2 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
3 Sequelas: 1. Na medicina, é a anomalia consequente a uma moléstia, da qual deriva direta ou indiretamente. 2. Ato ou efeito de seguir. 3. Grupo de pessoas que seguem o interesse de alguém; bando. 4. Efeito de uma causa; consequência, resultado. 5. Ato ou efeito de dar seguimento a algo que foi iniciado; sequência, continuação. 6. Sequência ou cadeia de fatos, coisas, objetos; série, sucessão. 7. Possibilidade de acompanhar a coisa onerada nas mãos de qualquer detentor e exercer sobre ela as prerrogativas de seu direito.
4 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
5 Agudo: Descreve algo que acontece repentinamente e por curto período de tempo. O oposto de crônico.
6 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
7 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
8 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
9 Membrana Celular: Membrana seletivamente permeável (contendo lipídeos e proteínas) que envolve o citoplasma em células procarióticas e eucarióticas.
10 Enzima: Proteína produzida pelo organismo que gera uma reação química. Por exemplo, as enzimas produzidas pelo intestino que ajudam no processo digestivo.
11 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
12 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
13 PCR: Reação em cadeia da polimerase (em inglês Polymerase Chain Reaction - PCR) é um método de amplificação de DNA (ácido desoxirribonucleico).
14 In situ: Mesmo que in loco , ou seja, que está em seu lugar natural ou normal (diz-se de estrutura ou órgão). Em oncologia, é o que permanece confinado ao local de origem, sem invadir os tecidos vizinhos (diz-se de tumor).
15 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
16 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
17 SNC: Principais órgãos processadores de informação do sistema nervoso, compreendendo cérebro, medula espinhal e meninges.
18 Terapia intensiva: Tratamento para diabetes no qual os níveis de glicose são mantidos o mais próximo do normal possível através de injeções freqüentes ou uso de bomba de insulina, planejamento das refeições, ajuste em medicamentos hipoglicemiantes e exercícios baseados nos resultados de testes de glicose além de contatos freqüentes entre o diabético e o profissional de saúde.
19 Delírio: Delirio é uma crença sem evidência, acompanhada de uma excepcional convicção irrefutável pelo argumento lógico. Ele se dá com plena lucidez de consciência e não há fatores orgânicos.
20 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
21 Ventilação: 1. Ação ou efeito de ventilar, passagem contínua de ar fresco e renovado, num espaço ou recinto. 2. Agitação ou movimentação do ar, natural ou provocada para estabelecer sua circulação dentro de um ambiente. 3. Em fisiologia, é o movimento de ar nos pulmões. Perfusão Em medicina, é a introdução de substância líquida nos tecidos por meio de injeção em vasos sanguíneos.
22 Grupo de risco: Em medicina, um grupo de risco corresponde a uma população sujeita a determinados fatores ou características, que a tornam mais susceptível a ter ou adquirir determinada doença.
23 Delirium: Alteração aguda da consciência ou da lucidez mental, provocado por uma causa orgânica. O delirium tem causa orgânica e cessa se a causa orgânica cessar. Ele pode acontecer nos traumas cranianos, nas infecções etc. Os exemplos mais típicos são o delirium do alcoólatra crônico e o delirium febril.
24 Para pacientes: Você pode utilizar este texto livremente com seus pacientes, inclusive alterando-o, de acordo com a sua prática e experiência. Conheça todos os materiais Para Pacientes disponíveis para auxiliar, educar e esclarecer seus pacientes, colaborando para a melhoria da relação médico-paciente, reunidos no canal Para Pacientes . As informações contidas neste texto são baseadas em uma compilação feita pela equipe médica da Centralx. Você deve checar e confirmar as informações e divulgá-las para seus pacientes de acordo com seus conhecimentos médicos.
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