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Aparecimento de diabetes ou sua rápida piora pode ser um sinal de alerta para o câncer de pâncreas, segundo estudo apresentado no 2017 European Cancer Congress

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Alice Koechlin, do Instituto Internacional de Pesquisa Preventiva em Lyon, França, disse no Congresso que uma análise ligando quase um milhão de pacientes com diabetes1 tipo 2, na Lombardia (Itália) e na Bélgica, com casos registrados de câncer2 pancreático, mostrou que 50% de todos os casos deste tipo de tumor3, nas duas regiões, foram diagnosticados dentro de um ano do diagnóstico4 de diabetes tipo 25 e em pacientes recebendo sua primeira prescrição para controlá-la.

Saiba mais sobre "Diabetes Mellitus6" e "Câncer2 de pâncreas7".

"Na Bélgica, 25% dos casos foram diagnosticados em 90 dias e na Lombardia 18%. Após o primeiro ano, a proporção de cânceres pancreáticos diagnosticados caiu drasticamente ", disse a pesquisadora. Em comparação com pacientes que foram capazes de continuar usando antidiabéticos orais8, os pacientes estudados tinham um risco 3,5 vezes maior de serem diagnosticados com câncer2 de pâncreas7 nos primeiros três meses após a primeira prescrição envolvendo incretinomiméticos (hormônios metabólicos que estimulam o pâncreas7 a produzir mais insulina9 para baixar os níveis de glicose10 no sangue11); este risco caiu para 2,3 vezes nos próximos três a seis meses, para um risco de duas vezes para os próximos seis a 12 meses e 1,7 vezes após o primeiro ano.

Entre os pacientes que já tinham diabetes1 tipo 2 e estavam usando drogas antidiabéticas orais, a mudança para os incretinomiméticos ou para insulina9 aconteceu mais rapidamente entre os pacientes diabéticos que foram posteriormente diagnosticados com câncer2 de pâncreas7. Além disso, uma deterioração da sua condição que os obrigou a mudar para uma terapia anti-diabética mais agressiva, com injecções de insulina9, esteve associada a um risco sete vezes maior de ser diagnosticado com câncer2 pancreático.

Alice Koechlin, o professor Philippe Autier (também do International Prevention Research Institute) e colegas na Bélgica e Itália utilizaram dados de prescrição para identificar 368.377 doentes com diabetes tipo 25 na Bélgica, entre 2008 e 2013, e 456.311 doentes na Lombardia entre 2008 e 2012. Os dados foram relacionados a casos de câncer2 de pâncreas7 do Belgian Cancer2 Registry e a bases de dados de alta hospitalar na Lombardia. Foram 885 e 1.872 casos de câncer2 pancreático diagnosticados durante este período na Bélgica e na Lombardia, respectivamente.

Os pesquisadores dizem que embora seja sabido já há algum tempo que existe uma associação entre o diabetes1 do tipo 2 e o câncer2 de pâncreas7, esta relação é complexa. As terapias envolvendo incretinas reduzem a hiperglicemia12 diabética estimulando a liberação de insulina9 pelo pâncreas7. Estes fármacos são tipicamente prescritos quando os fármacos antidiabéticos orais8 já não podem controlar os níveis de glicose10 no sangue11. Devido aos seus efeitos estimulantes sobre o pâncreas7, há muito se pensava que este tipo de terapia poderia promover a ocorrência de câncer2 no pâncreas7.

Leia mais sobre "O que afeta o comportamento da sua glicemia13".

No entanto, sabe-se também que o câncer2 de pâncreas7 pode causar diabetes1. O presente estudo mostra que as terapias com incretinomiméticos são frequentemente prescritas a pacientes cujo diabetes1 é causado por um câncer2 de pâncreas7 ainda não diagnosticado. Porque o câncer2 pancreático finalmente se torna sintomático14 e é assim diagnosticado, parece que é a ingestão de drogas incretinomiméticas que poderia ser o gatilho do câncer2 pancreático, enquanto na realidade é o câncer2 pancreático que provoca uma deterioração da diabetes1, que é seguida pela prescrição de incretinomiméticos.

Esse fenômeno é chamado de “causalidade reversa" (reverse causation). O estudo também mostra que a causalidade reversa observada para fármacos envolvendo incretina também é observada para outras terapias anti-diabéticas, em particular para a terapia com insulina9.

Médicos e pacientes diabéticos devem estar cientes de que o aparecimento de diabetes1 ou a sua rápida deterioração pode ser o primeiro sinal15 de câncer2 de pâncreas7 ainda não diagnosticado e deve ser efetuada a sua investigação precoce. No entanto, investigar se um paciente tem câncer2 de pâncreas7 não diagnosticado é difícil e os pesquisadores dizem que o uso de bases de dados de prescrição poderia ajudar a desenvolver métodos para identificar quais pacientes podem ter câncer2 pancreático precoce não sintomático14.

"Não há atualmente nenhum bom método, não-invasivo, para detectar o câncer2 pancreático que ainda não está mostrando nenhum sinal15 ou sintoma16 visível. Os cientistas esperam que os resultados encorajem a pesquisa de marcadores sanguíneos indicando a presença de câncer2 de pâncreas7, o que poderia orientar as decisões para realizar um exame de confirmação", concluiu Koechlin.

O câncer2 de pâncreas7 é um dos tumores mais letais, em parte porque é difícil de detectar numa fase precoce, mas também porque existem poucos tratamentos eficazes para ele. Menos de um por cento das pessoas vivem dez ou mais anos após o diagnóstico4. Na Europa, cerca de 104.000 novos casos foram diagnosticados em 2012 e aproximadamente o mesmo número de pessoas morreram a partir dele. Em todo o mundo, havia cerca de 338.000 casos de câncer2 de pâncreas7 diagnosticados em 2012 e 330.000 pessoas morreram por causa disso.

Veja também sobre "Pancreatite17", "Gastrinoma18", "Hemoglobina glicosilada19" e "Glicemia13 média estimada".

 

Fonte: European CanCer2 Organisation (ECCO 2017) - 2017 European Cancer2 Congress

NEWS.MED.BR, 2017. Aparecimento de diabetes ou sua rápida piora pode ser um sinal de alerta para o câncer de pâncreas, segundo estudo apresentado no 2017 European Cancer Congress. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1286613/aparecimento-de-diabetes-ou-sua-rapida-piora-pode-ser-um-sinal-de-alerta-para-o-cancer-de-pancreas-segundo-estudo-apresentado-no-2017-european-cancer-congress.htm>. Acesso em: 19 set. 2019.

Complementos

1 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
2 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
3 Tumor: Termo que literalmente significa massa ou formação de tecido. É utilizado em geral para referir-se a uma formação neoplásica.
4 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
5 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
6 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
7 Pâncreas: Órgão nodular (no ABDOME) que abriga GLÂNDULAS ENDÓCRINAS e GLÂNDULAS EXÓCRINAS. A pequena porção endócrina é composta pelas ILHOTAS DE LANGERHANS, que secretam vários hormônios na corrente sangüínea. A grande porção exócrina (PÂNCREAS EXÓCRINO) é uma glândula acinar composta, que secreta várias enzimas digestivas no sistema de ductos pancreáticos (que desemboca no DUODENO).
8 Antidiabéticos orais: Quaisquer medicamentos que, administrados por via oral, contribuem para manter a glicose sangüínea dentro dos limites normais. Eles podem ser um hipoglicemiante, se forem capazes de diminuir níveis de glicose previamente elevados, ou um anti-hiperglicemiante, se agirem impedindo a elevação da glicemia após uma refeição.
9 Insulina: Hormônio que ajuda o organismo a usar glicose como energia. As células-beta do pâncreas produzem insulina. Quando o organismo não pode produzir insulna em quantidade suficiente, ela é usada por injeções ou bomba de insulina.
10 Glicose: Uma das formas mais simples de açúcar.
11 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
12 Hiperglicemia: Excesso de glicose no sangue. Hiperglicemia de jejum é o nível de glicose acima dos níveis considerados normais após jejum de 8 horas. Hiperglicemia pós-prandial acima de níveis considerados normais após 1 ou 2 horas após alimentação.
13 Glicemia: Valor de concentração da glicose do sangue. Seus valores normais oscilam entre 70 e 110 miligramas por decilitro de sangue (mg/dl).
14 Sintomático: 1. Relativo a ou que constitui sintoma. 2. Que é efeito de alguma doença. 3. Por extensão de sentido, é o que indica um particular estado de coisas, de espírito; revelador, significativo.
15 Sinal: 1. É uma alteração percebida ou medida por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida. 2. Som ou gesto que indica algo, indício. 3. Dinheiro que se dá para garantir um contrato.
16 Sintoma: Qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. O sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
17 Pancreatite: Inflamação do pâncreas. A pancreatite aguda pode ser produzida por cálculos biliares, alcoolismo, drogas, etc. Pode ser uma doença grave e fatal. Os primeiros sintomas consistem em dor abdominal, vômitos e distensão abdominal.
18 Gastrinoma: Tumor produtor de gastrina.
19 Hemoglobina glicosilada: Hemoglobina glicada, hemoglobina glicosilada, glico-hemoglobina ou HbA1C e, mais recentemente, apenas como A1C é uma ferramenta de diagnóstico na avaliação do controle glicêmico em pacientes diabéticos. Atualmente, a manutenção do nível de A1C abaixo de 7% é considerada um dos principais objetivos do controle glicêmico de pacientes diabéticos. Algumas sociedades médicas adotam metas terapêuticas mais rígidas de 6,5% para os valores de A1C.
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