O que há de novo em oncologia: confira os principais avanços divulgados nos últimos meses
O 2º semestre de 2025 vem consolidando avanços transformadores na oncologia, com destaque para estudos apresentados nas principais conferências internacionais, American Society of Clinical Oncology (ASCO) Annual Meeting 2025 (maio-junho) e European Society for Medical Oncology (ESMO) Congress 2025 (outubro), e seus respectivos artigos publicados.
Estes ensaios clínicos1 trazem novas perspectivas para o tratamento de diferentes tipos de câncer2, com ênfase em imunoterapia combinada, monitoramento por DNA tumoral circulante (ctDNA), terapias dirigidas por mutações e melhor sobrevida3 livre de progressão. Confira os principais destaques!
- Câncer2 de mama4: precisão molecular e novas perspectivas para o tratamento
- Câncer2 colorretal: imunoterapia, terapia-alvo5 e terapia de exercício
- Câncer2 gástrico: imunoterapia perioperatória e terapia com células6 CAR-T
- Câncer2 de pulmão7: anticorpo8 biespecífico melhora a sobrevida3
- Novo tratamento para glioma
Câncer2 de mama4: precisão molecular e novas perspectivas para o tratamento
SERENA-6: camizestrant guiado por ctDNA
O ensaio SERENA-6, cujos resultados foram publicados no NEJM[1], representou um marco na oncologia de precisão ao validar o monitoramento de DNA tumoral circulante (ctDNA) para orientar decisões terapêuticas em tempo real. Este estudo global de fase 3 inscreveu pacientes com câncer2 de mama4 avançado ER-positivo/HER2-negativo que estavam em tratamento de primeira linha com inibidor de aromatase combinado com inibidor de CDK4/6.
Entre 3.256 pacientes sob vigilância de ctDNA, 315 pacientes com mutações ESR1 recém-detectadas e sem progressão radiográfica foram randomizadas para trocar para camizestrant (um degradador seletivo do receptor de estrogênio de próxima geração) ou continuar com o inibidor de aromatase original.
O benefício foi notável: razão de risco (HR) de 0,44 (IC 95%: 0,31-0,60; p <0,0001), representando uma redução de 56% no risco de progressão ou morte. A sobrevida3 livre de progressão mediana foi de 16,0 meses no grupo camizestrant versus 9,2 meses no grupo controle. Ainda mais impressionante, a taxa de sobrevida3 livre de progressão de 24 meses foi de 29,7% versus 5,4.
O SERENA-6 foi o primeiro ensaio clínico de fase 3 a validar o ctDNA como ferramenta de tomada de decisão clínica no câncer2 de mama4, estabelecendo um novo paradigma de intervenção molecular antes da progressão radiográfica visível.
DESTINY-Breast09: trastuzumabe deruxtecana + pertuzumabe
O estudo DESTINY-Breast09, também publicado no NEJM[2], sugere um novo padrão de primeira linha para câncer2 de mama4 HER2-positivo avançado ou metastático. Este foi o primeiro ensaio em mais de uma década a demonstrar eficácia superior em uma população ampla de pacientes com câncer2 de mama4 HER2-positivo.
Na análise interina pré-especificada, a sobrevida3 livre de progressão mediana foi de 40,7 meses com trastuzumabe deruxtecana (T-DXd) + pertuzumabe versus 26,9 meses com o regime padrão THP (taxano, trastuzumabe e pertuzumabe), representando uma redução de 44% no risco de progressão ou morte (HR 0,56; IC 95%: 0,44-0,71; p <0,00001). A incidência9 de resposta confirmada foi de 85,1% com T-DXd + pertuzumabe e de 78,6% com THP (respostas completas em 15,1% e 8,5%, respectivamente), com duração mediana da resposta de 39,2 meses e 26,4 meses.
Embora alguns casos de inflamação10 pulmonar tenham sido relatados, o perfil de segurança geral permaneceu favorável, e os benefícios clínicos significativos justificam esta terapia como uma nova opção importante de tratamento de primeira linha.
neoCARHP: descalonamento de quimioterapia11 no câncer2 de mama4 HER2-positivo
O ensaio neocARHP, com publicação no Journal of Clinical Oncology[3], investigou se um regime de quimioterapia11 menos intensivo poderia manter eficácia no câncer2 de mama4 HER2-positivo em estágio inicial. O estudo comparou taxano + trastuzumabe + pertuzumabe (THP) sem carboplatina versus o regime tradicional com carboplatina (TCbHP).
Os resultados demonstraram que THP foi não-inferior a TCbHP em termos de taxa de resposta patológica completa (pCR12): 64,1% versus 65,9%, respectivamente. Mais importante, THP apresentou um perfil de toxicidade13 significativamente melhor, com menos eventos hematológicos, náuseas14 e problemas renais. Este estudo valida uma abordagem mais gentil para pacientes15 com estágio I–II, mantendo excelentes taxas de resposta.
Leia sobre "Como evitar o câncer2", "Câncer2 in situ16 e câncer2 invasivo", "Imunoterapia" e "Quimioterapia11".
Câncer2 colorretal: imunoterapia, terapia-alvo5 e terapia de exercício
ATOMIC: atezolizumabe + mFOLFOX6 no câncer2 colorretal dMMR
O ensaio ATOMIC, com publicação no Journal of Clinical Oncology[4] abordou o tratamento adjuvante do câncer2 colorretal em estágio III com deficiência no sistema mismatch repair (dMMR). Este estudo internacional de fase 3 randomizou 712 pacientes para receber mFOLFOX6 (quimioterapia11 padrão) com ou sem atezolizumabe, um anticorpo8 anti-PD-L1.
Os resultados foram significativos: sobrevida3 livre de doença de 3 anos de 86,4% com atezolizumabe versus 76,6% com quimioterapia11 isolada (HR 0,50; p <0,0001). Isto representou uma redução de 50% no risco de recorrência17 ou morte. O benefício foi consistente entre subgrupos, incluindo adultos com mais de 70 anos.
Os eventos adversos grau ≥3 foram de 71,7% no braço de combinação versus 62,1% no braço de quimioterapia11 isolada, com um perfil de toxicidade13 considerado gerenciável. O ATOMIC sugere que atezolizumabe + mFOLFOX6 deve ser considerado como um novo padrão de cuidado adjuvante para pacientes15 com câncer2 colorretal estágio III dMMR.
BREAKWATER: encorafenibe + cetuximabe + mFOLFOX6 no câncer2 colorretal com mutação18 BRAF V600E
O ensaio BREAKWATER, publicado no NEJM[5], investigou o tratamento de primeira linha para o câncer2 colorretal metastático com mutação18 BRAF V600E, um subgrupo com prognóstico19 particularmente ruim. Este estudo incluiu 637 pacientes que foram randomizados para receber encorafenibe + cetuximabe com ou sem quimioterapia11 mFOLFOX6.
Os resultados foram notáveis: encorafenibe + cetuximabe + mFOLFOX6 forneceu uma taxa de resposta significativamente melhorada em comparação ao tratamento padrão, com uma separação clara já aos 6 meses. A sobrevida3 geral mediana foi de 30,3 meses com o regime triplo, vs. 15,1 meses com o tratamento padrão.
Isto representa um avanço importante para esta população de pacientes que historicamente tem mau prognóstico19.
CHALLENGE: exercício pós-adjuvante no câncer2 de cólon20
Um avanço notável veio do ensaio de fase 3 CHALLENGE, cujos resultados foram apresentados na 2025 ASCO Annual Meeting[6], que demonstrou que um programa de exercício estruturado de 3 anos após cirurgia de ressecção e quimioterapia11 adjuvante melhorou significativamente a sobrevida3 livre de doença e sobrevida3 geral em pacientes com câncer2 de cólon20 estágio III e estágio II de alto risco.
Entre 889 participantes, aqueles no programa de exercício estruturado tiveram uma melhoria de 28% na sobrevida3 livre de doença em 5 anos (HR 0,72; IC 95%: 0,55-0,94). A sobrevida3 geral durante 8 anos de acompanhamento foi de 90% no grupo de exercício versus 83% no grupo de cuidado usual.
Os pacientes trabalharam com consultor de atividade física duas vezes por mês para sessões de coaching e exercício supervisionado durante 6 meses, depois mensalmente. Este achado representa um benefício sem precedentes de uma simples intervenção comportamental, que pode ser implementada amplamente.
Câncer2 gástrico: imunoterapia perioperatória e terapia com células6 CAR-T
MATTERHORN: durvalumabe + FLOT no câncer2 gástrico ressecável
O ensaio MATTERHORN, cujos resultados também foram apresentados na 2025 ASCO Annual Meeting[7], foi o primeiro ensaio clínico randomizado21 global de fase 3 a demonstrar benefício da imunoterapia nos cânceres gástricos e da junção gastroesofágica22 ressecáveis.
Este estudo incluiu 948 pacientes com adenocarcinoma23 gástrico/da junção gastroesofágica22 não tratado, histologicamente confirmado e ressecável (estágio II–IVa), que receberam quimioterapia11 FLOT (fluorouracila, leucovorina, oxaliplatina e docetaxel) perioperatória com ou sem durvalumabe (anti-PD-L1).
Os resultados mostraram uma melhora estatisticamente significativa na sobrevida3 livre de eventos no braço tratado com durvalumabe e FLOT em comparação com o braço tratado com placebo24 e FLOT. Os pacientes no braço tratado com durvalumabe e FLOT apresentaram uma sobrevida3 livre de eventos 29% melhor do que aqueles no braço tratado com placebo24 e FLOT (razão de risco [RR] = 0,71; intervalo de confiança [IC] de 95% = 0,58-0,86; P <0,001). A mediana de sobrevida3 livre de eventos no braço tratado com placebo24 e FLOT foi de 32,8 meses.
No braço tratado com durvalumabe e FLOT, a mediana de sobrevida3 livre de eventos ainda não havia sido atingida no momento da publicação do relatório, o que significa que mais da metade dos participantes nesse braço não apresentaram recorrência17, progressão ou complicações do câncer2 relacionadas ao tratamento.
O benefício foi consistente em subgrupos pré-especificados, e não houve atrasos na cirurgia ou tratamento adjuvante no braço de durvalumabe. O MATTERHORN estabelece durvalumabe + FLOT como potencial novo padrão global de cuidado em câncer2 gástrico e gastroesofágico ressecável.
Terapia CAR-T direcionada à claudina 18.2 no câncer2 gástrico
Um marco histórico foi atingido no câncer2 gástrico metastático avançado com o uso de terapia CAR-T direcionada à claudina 18.2 (uma proteína comumente expressa em cânceres gástricos e da junção gastroesofágica22). Este foi o primeiro ensaio clínico randomizado21 controlado a demonstrar benefício de sobrevida3 da terapia CAR-T em tumores sólidos. Os resultados foram publicados no The Lancet[8].
Em pacientes que já haviam esgotado outras opções de tratamento, essa nova terapia com células6 CAR-T prolongou a sobrevida3 global em aproximadamente 40% em comparação com o tratamento padrão, com um perfil de segurança gerenciável.
Câncer2 de pulmão7: anticorpo8 biespecífico melhora a sobrevida3
HARMONi-6: ivonescimabe + quimioterapia11 no CPCNP escamoso25
O ensaio HARMONi-6, apresentado no ESMO Congress 2025 e publicado no The Lancet[9], avaliou ivonescimabe (anticorpo8 bispecífico anti-PD-1/VEGF) mais quimioterapia11 versus tislelizumabe mais quimioterapia11 em pacientes com câncer2 de pulmão7 de células6 não pequenas (CPCNP) escamoso25 avançado ou metastático.
O estudo atingiu seu desfecho primário, mostrando melhora significativa e clinicamente importante na sobrevida3 livre de progressão (SLP) com ivonescimabe. A mediana de SLP foi de 11,1 meses com ivonescimabe + quimioterapia11 versus 6,9 meses com tislelizumab + quimioterapia11 (HR 0,60; IC 95%: 0,46-0,78; p <0,0001). Isto representou uma redução de 40% no risco de progressão ou morte.
O perfil de segurança permaneceu gerenciável e comparável entre os grupos, com eventos adversos graves relacionados ao tratamento de 32,3% com ivonescimabe versus 30,2% com tislelizumabe.
Novo tratamento para glioma
Dordaviprone para glioma difuso com mutação18 H3 K27M
A FDA aprovou o dordaviprone (Modeyso)[10] em agosto de 2025 para o tratamento de pacientes com 1 ano de idade ou mais com glioma difuso de linha média progressivo/recorrente portador de mutação18 H3 K27M. Este é o primeiro tratamento sistêmico26 aprovado especificamente direcionado a esta mutação18.
O dordaviprone funciona através de dois mecanismos distintos: hiperativação da enzima27 mitocondrial ClpP, que cliva proteínas28 e pode causar a morte celular, e inibição do receptor de dopamina29 D2/3, que pode promover o crescimento de células6 cancerígenas. A aprovação foi baseada em dados de cinco ensaios clínicos1 não-randomizados envolvendo 50 pacientes com glioma difuso de linha média recorrente com mutação18 H3 K27M.
A taxa de resposta objetiva foi de 22% com mediana de duração de resposta de 10,3 meses. 73% dos pacientes alcançaram duração de resposta de 6 meses ou mais, e 27% alcançaram duração de resposta de 12 meses ou mais. Esta aprovação acelerada representa esperança significativa para famílias navegando os desafios do glioma difuso de linha média recorrente.
Veja também: "Câncer2 - das primeiras cirurgias aos avanços que estão mudando o prognóstico19".
Referências
[1] First-Line Camizestrant for Emerging ESR1-Mutated Advanced Breast Cancer2, disponível em The New England Journal of Medicine (NEJM).
[2] Trastuzumab Deruxtecan plus Pertuzumab for HER2-Positive Metastatic Breast Cancer2, disponível em The New England Journal of Medicine (NEJM).
[3] De-escalated neoadjuvant taxane plus trastuzumab and pertuzumab with or without carboplatin in HER2-positive early breast cancer2 (neoCARHP): A multicentre, open-label, randomised, phase 3 trial, disponível em Journal of Clinical Oncology.
[4] Randomized trial of standard chemotherapy alone or combined with atezolizumab as adjuvant therapy for patients with stage III deficient DNA mismatch repair (dMMR) colon20 cancer2 (Alliance A021502; ATOMIC), disponível em Journal of Clinical Oncology.
[5] Encorafenib, Cetuximab, and mFOLFOX6 in BRAF-Mutated Colorectal Cancer2, disponível em The New England Journal of Medicine (NEJM).
[6] A randomized phase III trial of the impact of a structured exercise program on disease-free survival (DFS) in stage 3 or high-risk stage 2 colon20 cancer2: Canadian Cancer2 Trials Group (CCTG) CO.21 (CHALLENGE), disponível em 2025 ASCO Annual Meeting.
[7] Event-free survival (EFS) in MATTERHORN: A randomized, phase 3 study of durvalumab plus 5-fluorouracil, leucovorin, oxaliplatin and docetaxel chemotherapy (FLOT) in resectable gastric/gastroesophageal junction cancer2 (GC/GEJC), disponível em 2025 ASCO Annual Meeting.
[8] Claudin-18 isoform 2-specific CAR T-cell therapy (satri-cel) versus treatment of physician's choice for previously treated advanced gastric or gastro-oesophageal junction cancer2 (CT041-ST-01): a randomised, open-label, phase 2 trial, disponível em The Lancet.
[9] Ivonescimab plus chemotherapy versus tislelizumab plus chemotherapy as first-line treatment for advanced squamous non-small-cell lung cancer2 (HARMONi-6): a randomised, double-blind, phase 3 trial, disponível em The Lancet.
[10] FDA grants accelerated approval to dordaviprone for diffuse midline glioma, disponível em Food and Drug Administration (FDA).










