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The Lancet - Os pacientes com hipertensão e diabetes mellitus estão em maior risco de infecção por COVID-19?

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As comorbidades1 mais distintas de 32 não sobreviventes de um grupo de 52 pacientes de unidade de terapia intensiva2 com a nova doença por coronavírus 2019 (COVID-19) no estudo de Xiaobo Yang e colegas foram doenças cerebrovasculares (22%) e diabetes3 (22%).

Outro estudo incluiu 1.099 pacientes com COVID-19 confirmado, dos quais 173 tinham doença grave com comorbidades1 de hipertensão arterial4 (23,7%), diabetes mellitus5 (16,2%), doenças coronárias (5,8%) e doença cerebrovascular6 (2,3%).

Em um terceiro estudo, de 140 pacientes que foram admitidos em um hospital com COVID-19, 30% tinham hipertensão7 e 12% tinham diabetes3.

Saiba mais sobre "Nova cepa8 do coronavírus (SARS-CoV-2)".

Notavelmente, as comorbidades1 mais frequentes relatadas nesses três estudos de pacientes com COVID-19 são frequentemente tratadas com inibidores da enzima9 de conversão da angiotensina (ECA); no entanto, o tratamento não foi avaliado em nenhum dos estudos.

Os coronavírus patogênicos humanos (coronavírus da síndrome10 respiratória aguda grave [SARS-CoV] e SARS-CoV-2) se ligam às células11-alvo através da enzima9 conversora de angiotensina 2 (ECA2), que é expressa pelas células11 epiteliais do pulmão12, intestino, rim13 e vasos sanguíneos14.

A expressão da ECA2 é substancialmente aumentada em pacientes com diabetes tipo 115 ou tipo 2, que são tratados com inibidores da ECA e bloqueadores dos receptores da angiotensina II tipo I (BRA). A hipertensão7 também é tratada com inibidores da ECA e BRA, o que resulta em uma regulação positiva da ECA2. A ECA2 também pode ser aumentada por tiazolidinedionas e ibuprofeno.

Esses dados sugerem que a expressão da ECA2 é aumentada no diabetes3 e o tratamento com inibidores da ECA e BRA aumentam a expressão da ECA2. Consequentemente, o aumento da expressão da ECA2 facilitaria a infecção16 por COVID-19.

Portanto, supõe-se que o tratamento do diabetes3 e da hipertensão7 com medicamentos estimulantes da ECA2 aumente o risco de desenvolver COVID-19 grave e fatal.

Se essa hipótese fosse confirmada, poderia levar a um conflito em relação ao tratamento, pois a ECA2 reduz a inflamação17 e tem sido sugerida como uma nova terapia potencial para doenças inflamatórias pulmonares, câncer18, diabetes3 e hipertensão7. Outro aspecto que deve ser investigado é a predisposição genética para um risco aumentado de infecção16 por SARS-CoV-2, que pode ser devido a polimorfismos da ECA2 que foram associados a diabetes mellitus5, acidente vascular cerebral19 e hipertensão7, especificamente em populações asiáticas.

Resumindo essas informações, a sensibilidade de um indivíduo pode resultar de uma combinação de terapia e polimorfismo da ECA2.

Sugere-se que pacientes com doenças cardíacas, hipertensão7 ou diabetes3, que são tratados com medicamentos que aumentam a ECA2, têm maior risco de infecção16 grave por COVID-19 e, portanto, devem ser monitorados quanto a medicamentos moduladores da ECA2, como inibidores da ECA ou BRAs.

Com base em uma pesquisa do PubMed em 28 de fevereiro de 2020, não foi encontrada nenhuma evidência que sugira que os bloqueadores anti-hipertensivos dos canais de cálcio aumentem a expressão ou atividade da ECA2; portanto, esses podem ser um tratamento alternativo adequado nesses pacientes.

Leia sobre "Diabetes3", "Hipertensão arterial4", "Doenças cardiovasculares20" e "Cuidados de prevenção da COVID-19".

 

Fonte: The Lancet, publicação em 11 de março de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. The Lancet - Os pacientes com hipertensão e diabetes mellitus estão em maior risco de infecção por COVID-19?. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/saude/1363338/the-lancet-os-pacientes-com-hipertensao-e-diabetes-mellitus-estao-em-maior-risco-de-infeccao-por-covid-19.htm>. Acesso em: 10 abr. 2020.

Complementos

1 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
2 Terapia intensiva: Tratamento para diabetes no qual os níveis de glicose são mantidos o mais próximo do normal possível através de injeções freqüentes ou uso de bomba de insulina, planejamento das refeições, ajuste em medicamentos hipoglicemiantes e exercícios baseados nos resultados de testes de glicose além de contatos freqüentes entre o diabético e o profissional de saúde.
3 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
4 Hipertensão arterial: Aumento dos valores de pressão arterial acima dos valores considerados normais, que no adulto são de 140 milímetros de mercúrio de pressão sistólica e 85 milímetros de pressão diastólica.
5 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
6 Doença cerebrovascular: É um dano aos vasos sangüíneos do cérebro que resulta em derrame (acidente vascular cerebral). Os vasos tornam-se obstruídos por depósitos de gordura (aterosclerose) ou tornam-se espessados ou duros bloqueando o fluxo sangüíneo para o cérebro. Quando o fluxo é interrompido, as células nervosas sofrem dano ou morrem, resultando no derrame. Pacientes com diabetes descompensado têm maiores riscos de AVC.
7 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
8 Cepa: Cepa ou estirpe é um termo da biologia e da genética que se refere a um grupo de descendentes com um ancestral comum que compartilham semelhanças morfológicas e/ou fisiológicas.
9 Enzima: Proteína produzida pelo organismo que gera uma reação química. Por exemplo, as enzimas produzidas pelo intestino que ajudam no processo digestivo.
10 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
11 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
12 Pulmão: Cada um dos órgãos pareados que ocupam a cavidade torácica que tem como função a oxigenação do sangue.
13 Rim: Os rins são órgãos em forma de feijão que filtram o sangue e formam a urina. Os rins são localizados na região posterior do abdômen, um de cada lado da coluna vertebral.
14 Vasos Sanguíneos: Qualquer vaso tubular que transporta o sangue (artérias, arteríolas, capilares, vênulas e veias).
15 Diabetes tipo 1: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada por deficiência na produção de insulina. Ocorre quando o próprio sistema imune do organismo produz anticorpos contra as células-beta produtoras de insulina, destruindo-as. O diabetes tipo 1 se desenvolve principalmente em crianças e jovens, mas pode ocorrer em adultos. Há tendência em apresentar cetoacidose diabética.
16 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
17 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
18 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
19 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
20 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
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