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Children's Hospital of Philadelphia: benefícios de uma dieta anti-inflamatória para crianças

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Em entrevista concedida ao Medscape Pediatrics, a Dra. Diane Barsky, do Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), diz que a inflamação1 é uma maneira natural do corpo reagir para nos proteger, mas a inflamação1 crônica não funciona bem. Os ciclos de citocinas2 e mediadores anti-inflamatórios podem continuar a aumentar e, por sua vez, a resposta imune do corpo produz mediadores que permitem que a inflamação1 ocorra de maneira contínua e fora de controle. Esta inflamação1 crônica pode aumentar o risco de obesidade3, diabetes4 tipo 2, doenças cardíacas e algumas formas de câncer5, bem como outras doenças autoimunes6.

O objetivo é manter a saúde7, prevenindo, se possível, o ciclo inflamatório crônico8, utilizando uma dieta anti-inflamatória. No entanto, precisamos lembrar que a comida não é um substituto para a medicina, mas uma parte da medicina para prevenção de doenças.

O que é uma dieta anti-inflamatória?

É uma dieta baseada em dois antigos padrões saudáveis de alimentação: a dieta asiática e a dieta mediterrânea9. Acredita-se que a combinação dos dois seja uma das maneiras mais saudáveis de comer.

A dieta mediterrânea9 tem sido estudada nos últimos 30 anos. A dieta anti-inflamatória estimula a ingestão de alimentos frescos e evita alimentos processados10, sabores artificiais, xarope de milho rico em frutose11 e gordura trans12. Em vez disso, ela incorpora gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas saudáveis, que têm uma maior proporção de ácidos graxos ômega-3 a ômega-6. Ela inclui uma variedade de fontes de proteínas13 vegetais que são ricas em fibras e com baixo índice glicêmico, como feijão e outras leguminosas. É pobre em gordura14 animal saturada e, portanto, inclui gorduras saudáveis. A ênfase é em frutas e legumes que têm antioxidantes importantes, bem como ervas, nozes, sementes e chá verde.

Os fitoquímicos nesta dieta têm propriedades-chave anticarcinogênicas e anti-doenças cardiovasculares15, promovem importantes antioxidantes (por exemplo, polifenois, flavonoides), são ricos em ácido oleico e ácidos graxos poli-insaturados e pobres em ácidos graxos monoinsaturados; tudo isso impulsiona a via anti-inflamatória e antitrombótica das prostaglandinas16.

Porque esta dieta é rica em fibras e tem um baixo índice glicêmico, há uma diminuição do risco de diabetes4. O maior teor de magnésio reduz a inflamação1 e melhora a capacidade cognitiva17. Especiarias ricas em fitoquímicos, como gengibre, alho, pimenta-caiena, pimenta preta, alecrim e cúrcuma estão associadas à manutenção de um microbioma18 favorável. Outros fitoquímicos nessas dietas (por exemplo, ácido alfa-linolênico, betacaroteno, curcumina) oferecem importantes mediadores anti-inflamatórios.

A dieta asiática é relativamente menos estudada que a dieta mediterrânea9. No entanto, o Projeto China, da Universidade Cornell, que está em andamento, avaliando aproximadamente 6.500 pessoas, demonstrou uma associação entre o consumo da dieta asiática na China rural na proteção contra muitos dos cânceres que vemos na civilização ocidental. Houve também uma diminuição na incidência19 de doenças cardiovasculares15 e uma longevidade significativamente maior. No entanto, assim que os chineses rurais se mudaram para as cidades e adquiriram a dieta ocidental, uma incidência19 muito maior de diabetes4, câncer5 de mama20, câncer5 de cólon21 e doença cardiovascular foi relatada.

Leia mais sobre "Dieta Mediterrânea9", "Esteatose hepática22 na infância" e "Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)".

Os benefícios da dieta anti-inflamatória em crianças

A dieta mediterrânica anti-inflamatória foi estudada em pediatria nos últimos 20 anos. Nesse tempo, tem sido associada não apenas à redução na gravidade da asma23 e alergias em crianças, mas também à redução da recorrência24 da asma23 e na prevenção da asma23 crônica. Um estudo em uma população italiana descobriu que quanto mais cedo na vida os indivíduos aderiram a essa dieta, mais ela reduziu o risco de esteato-hepatite25 não alcoólica (NASH) e obesidade3 em crianças. O efeito também foi observado em crianças que já tinham NASH, que, no entanto, tiveram uma redução na gravidade e até mesmo uma regressão, quanto mais aderiram à dieta.

Um estudo recente publicado na revista Pediatrics ligou o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) à dieta mediterrânea9. Não está claro se aqueles com TDAH são mais propensos a consumir uma dieta não saudável, rica em fast food e alimentos processados10, ou se aqueles que seguem a dieta mediterrânea9 têm menos risco de TDAH. Essa associação deve ser monitorada em estudos futuros.

As dietas tradicionais do Mediterrâneo e da Ásia têm muitas semelhanças:

  • São ricas em vegetais, com foco principal em legumes, frutas e alimentos frescos.
  • São moderadamente ricas em peixes e ácidos graxos ômega-3 associados.
  • Incluem algumas carnes magras e ovos, mas evitam alimentos processados10, aromatizantes artificiais, xarope de milho rico em frutose11, gordura saturada26 e gordura trans12.
  • São ricas em antioxidantes que protegem o corpo de muitas doenças crônicas.
  • Há também um componente social nessas dietas, com foco em comer mais devagar e junto com a família. É uma abordagem cheia de alimentos integrais, com processamento comercial mínimo e uso de práticas mais orgânicas que minimizam herbicidas, inseticidas e resíduos tóxicos, enfatizando a interconexão entre a comida, o povo e a terra. Os adeptos sabem de onde vem a sua comida, seja através da sua própria agricultura, de suas aldeias e vizinhos locais.

A dieta mediterrânea9 é composta de gorduras saudáveis com gorduras monoinsaturadas, como azeitonas e azeite, nozes e sementes. Inclui especiarias, ovos e carne, mas com foco na carne branca e proteínas13 da soja. Também aconselha o consumo regular de água.

A dieta tradicional asiática se concentra em peixes oleosos, sopa de missô e alimentos fermentados como kimchi, picles e natto (soja fermentada) que estimulam um microbioma18 favorável. Isso está associado a uma menor incidência19 de doença do intestino irritável. Os cogumelos consumidos na dieta asiática (shiitake, enoki e shimeji-preto ou cogumelo ostra) atualmente estão sendo estudados em centros de câncer5 nos Estados Unidos, porque eles têm sido associados à diminuição do risco de câncer5 e de sua recorrência24. A inclusão de ervas, guarnições medicinais, especiarias, açafrão, fenol e algas verdes, só para citar alguns aspectos desta dieta, oferecem antioxidantes importantes.

Concluiu-se com estas informações que a dieta anti-inflamatória é uma combinação de dietas mediterrânicas e asiáticas. Incorpora vegetais (4-6/dia) e enfatiza o consumo de frutas, peixes e proteínas13 vegetais. Inclui gorduras mais saudáveis (por exemplo, óleo de canola, azeite, sementes, nozes, abacate) que fornecem ômega-3, que promovem uma via de prostaglandina27 diferente que não é pró-inflamatória. Esta dieta destaca a ingestão de alimentos ricos em antioxidantes, bem como bebidas como o chá verde. Lembre-se, não se trata apenas de nutrição28, mas de um estilo de vida mais saudável. Segundo a Dra. Diane Barsky, com essas dietas promove-se uma atitude duradoura de alimentação saudável, união familiar e atividade física, muito importante na prevenção de doenças crônicas e no gerenciamento de doenças inflamatórias em pediatria.

Para aqueles que procuram um recurso informativo, o Children's Hospital of Philadelphia (CHOP) oferece uma pirâmide de dieta anti-inflamatória pediátrica em seu site, que pode ser vista no link:

Pediatric Anti-Inflammatory Diet Pyramid

 

Fonte: Medscape Pediatrics, em 3 de abril de 2018

 

NEWS.MED.BR, 2018. Children's Hospital of Philadelphia: benefícios de uma dieta anti-inflamatória para crianças. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/saude/1316388/children-s-hospital-of-philadelphia-beneficios-de-uma-dieta-anti-inflamatoria-para-criancas.htm>. Acesso em: 21 ago. 2018.

Complementos

1 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
2 Citocinas: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
3 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
4 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
5 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
6 Autoimunes: 1. Relativo à autoimunidade (estado patológico de um organismo atingido por suas próprias defesas imunitárias). 2. Produzido por autoimunidade. 3. Autoalergia.
7 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
8 Crônico: Descreve algo que existe por longo período de tempo. O oposto de agudo.
9 Dieta Mediterrânea: Alimentação rica em carboidratos, fibras, elevado consumo de verduras, legumes e frutas (frescas e secas) e pobre em ácidos graxos saturados. É recomendada uma ingestão maior de gordura monoinsaturada em decorrência da grande utilização do azeite de oliva. Além de vinho.
10 Alimentos processados: São aqueles que passam por processamento industrial (larga escala) ou doméstico, contendo elementos químicos. Este processo de transformação, mesmo que caseiro, é percebido como menos saudável que o natural. Geralmente estes produtos sofrem junção com outro tipo de produto, como conservantes, ou alterações em sua temperatura. Exemplo: qualquer produto enlatado, engarrafado ou embutidos.
11 Frutose: Açúcar encontrado naturalmente em frutas e mel. A frutose encontrada em alimentos processados é derivada do milho. Contém quatro calorias por grama.
12 Gordura trans: Tipo específico de gordura formada por um processo de hidrogenação natural (ocorrido no rúmen de animais) ou industrial. Esta hidrogenação industrial transforma óleos vegetais líquidos em gordura sólida à temperatura ambiente e são utilizadas para melhorar a consistência dos alimentos e também aumentar a vida de prateleira de alguns produtos. Mas o consumo excessivo de alimentos ricos em gorduras trans pode causar aumento do colesterol total e do colesterol ruim (LDL-colesterol) e também redução dos níveis de colesterol bom (HDL-colesterol). Encontrada em margarinas, biscoitos, batatas fritas, sorvete e salgadinhos industrializados. Aumenta o colesterol ruim e, ao mesmo tempo, reduz o bom colesterol.
13 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
14 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
15 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
16 Prostaglandinas: É qualquer uma das várias moléculas estruturalmente relacionadas, lipossolúveis, derivadas do ácido araquidônico. Ela tem função reguladora de diversas vias metabólicas.
17 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
18 Microbioma: Comunidade ecológica de microrganismos comensais, simbióticos e patogênicos que compartilham nosso espaço corporal. Microbioma humano é o conjunto de microrganismos que reside no corpo do Homo sapiens, mantendo uma relação simbiótica com o hospedeiro. O conceito vai além do termo microbiota, incluindo também a relação entre as células microbianas e as células e sistemas humanos, por meio de seus genomas, transcriptomas, proteomas e metabolomas.
19 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
20 Mama: Em humanos, uma das regiões pareadas na porção anterior do TÓRAX. As mamas consistem das GLÂNDULAS MAMÁRIAS, PELE, MÚSCULOS, TECIDO ADIPOSO e os TECIDOS CONJUNTIVOS.
21 Cólon:
22 Esteatose hepática: Esteatose hepática ou “fígado gorduroso“ é o acúmulo de gorduras nas células do fígado.
23 Asma: Doença das vias aéreas inferiores (brônquios), caracterizada por uma diminuição aguda do calibre bronquial em resposta a um estímulo ambiental. Isto produz obstrução e dificuldade respiratória que pode ser revertida de forma espontânea ou com tratamento médico.
24 Recorrência: 1. Retorno, repetição. 2. Em medicina, é o reaparecimento dos sintomas característicos de uma doença, após a sua completa remissão. 3. Em informática, é a repetição continuada da mesma operação ou grupo de operações. 4. Em psicologia, é a volta à memória.
25 Hepatite: Inflamação do fígado, caracterizada por coloração amarela da pele e mucosas (icterícia), dor na região superior direita do abdome, cansaço generalizado, aumento do tamanho do fígado, etc. Pode ser produzida por múltiplas causas como infecções virais, toxicidade por drogas, doenças imunológicas, etc.
26 Gordura saturada: Ela é encontrada principalmente em produtos de origem animal. Em temperatura ambiente, apresenta-se em estado sólido. Está nas carnes vermelhas e brancas (principalmente gordura da carne e pele das aves e peixes), leite e seus derivados integrais (manteiga, creme de leite, iogurte, nata) e azeite de dendê.
27 Prostaglandina: É qualquer uma das várias moléculas estruturalmente relacionadas, lipossolúveis, derivadas do ácido araquidônico. Ela tem função reguladora de diversas vias metabólicas.
28 Nutrição: Incorporação de vitaminas, minerais, proteínas, lipídios, carboidratos, oligoelementos, etc. indispensáveis para o desenvolvimento e manutenção de um indivíduo normal.
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