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Estudo em camundongos sugere que os danos causados por um ataque cardíaco se originam em sinais cerebrais

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Pesquisadores propuseram uma reformulação do papel do cérebro1 em ataques cardíacos, descobrindo que a comunicação cruzada entre o coração2, o cérebro1 e o sistema imunológico3 danifica o coração2 após um infarto do miocárdio4 em camundongos. Os resultados, publicados na revista Cell, sugerem que tais eventos não são apenas doenças do sistema cardiovascular5.

No estudo, os cientistas identificaram um circuito cérebro1-imune que exacerba a patologia6 cardiovascular durante um ataque cardíaco. Eles identificaram neurônios7 no nervo vago que transmitem sinais8 entre o coração2 e o cérebro1, o que, por sua vez, ativa respostas imunológicas e inflamatórias que causam danos generalizados ao coração2. O bloqueio dessa via melhorou os resultados após um ataque cardíaco em camundongos, uma descoberta que pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas terapias.

“O coração2 não existe isoladamente. O sistema nervoso9 se comunica com o coração2, o sistema imunológico3 se comunica com o coração”, afirma o coautor do estudo, Vineet Augustine, neurocientista da Universidade da Califórnia, em San Diego, EUA. O trabalho representa um “passo adiante na integração de todos esses sistemas, e essa abordagem pode ser aplicada a outras doenças também”, acrescenta ele.

“Sabemos há décadas que o cérebro1 e o sistema nervoso9 são componentes essenciais para a patogênese10, o tratamento e o cuidado do ataque cardíaco”, afirma Cameron McAlpine, pesquisador médico especializado em função imunológica nos sistemas cardiovascular e nervoso da Escola de Medicina Icahn em Mount Sinai, na cidade de Nova York, EUA. “Parece que esse eixo desempenha um papel crucial.”

Saiba mais sobre "Infarto do Miocárdio4" e "Doenças cardiovasculares11".

Eixo cérebro1-coração2

Os ataques cardíacos ocorrem quando o fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco12 é bloqueado. Eles danificam os músculos13 do coração2 e desencadeiam alterações celulares e moleculares em seus tecidos.

“O ataque cardíaco é exatamente como um terremoto. Há um epicentro, que é um ponto focal, e então ele se espalha”, explica Augustine. “É nesse momento que uma grande parte do tecido14 morre.”

Pesquisas anteriores mostraram que o nervo vago, uma via fundamental que conecta o cérebro1 a muitos outros órgãos, envia sinais8 ao cérebro1 após um ataque cardíaco.

“Todas as funções regulares do coração2 são controladas pelo sistema nervoso”, afirma Kalyanam Shivkumar, cardiologista15 da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, EUA.

Os ataques cardíacos também desencadeiam a ativação do sistema nervoso9 simpático16, a resposta de “luta ou fuga” do corpo, explica ele. O aumento da resposta simpática causa inflamação17 nos tecidos cardíacos e prejudica a função cardíaca, o que pode levar à insuficiência cardíaca18.

“A causa principal do problema são os sinais8 que vão do coração2 para o cérebro”, diz Shivkumar. Mas as células19-chave e as vias moleculares subjacentes a esses processos não eram claras.

Para investigar isso, Augustine e seus colegas induziram ataques cardíacos em camundongos experimentalmente, bloqueando permanentemente uma artéria20 em seus corações.

Primeiro, eles buscaram rastrear como as conexões nervosas entre o coração2 e o nervo vago se alteram após um ataque cardíaco. Eles descobriram que um grupo de neurônios7 sensoriais no nervo vago, que detectam estímulos nocivos, desenvolveu novas projeções ao redor da parte lesionada do coração2.

O bloqueio desses neurônios7 reduziu os danos e a inflamação17 nos tecidos do coração2 e estabilizou seu ritmo e frequência cardíaca. “Esses neurônios7 se comunicam diretamente com a área do coração2 onde ocorreu a lesão”, diz Augustine. Ao silenciá-los, “é possível impedir rapidamente que a lesão21 se expanda. Assim, a lesão21 se torna extremamente pequena.”

Inflamação17 cardíaca

Os pesquisadores então mapearam como os sinais8 do grupo de neurônios7 vagais sensoriais viajam até o cérebro1 e retornam ao coração2.

Eles identificaram uma área do cérebro1 no hipotálamo22, conhecida como núcleo paraventricular (NPV), que é ativada após um ataque cardíaco. O NPV regula os nervos simpáticos que inervam os órgãos do corpo e ativa a resposta de luta ou fuga.

Augustine e seus colegas estudaram um subconjunto de nervos simpáticos que se conectam ao coração2. Eles descobriram que, após um ataque cardíaco, esses nervos aumentavam suas projeções para o coração2 e transportavam níveis elevados de moléculas liberadas por células19 imunológicas, incluindo proteínas23 inflamatórias.

O bloqueio do NPV ou de uma dessas proteínas23 inflamatórias expressas pelo feixe de nervos simpáticos que se conecta ao coração2 produziu resultados semelhantes ao bloqueio dos neurônios7 sensoriais e levou a uma recuperação cardíaca mais rápida.

As descobertas “são promissoras” para novas terapias cardiovasculares, afirma McAlpine, mas “será necessário trabalho de acompanhamento para ampliar e verificar esses achados mecanísticos”, bem como para identificar quais outras regiões cerebrais podem estar envolvidas e compreender seu papel.

A pesquisa sobre “conexões cérebro1-corpo está entrando em um novo capítulo”, diz Shivkumar. O trabalho atual “prepara o terreno para a próxima série de estudos”, acrescenta.

Leia sobre "Sistema imunológico3" e "Como é feito o eletrocardiograma24".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Um circuito neuroimune coração2-cérebro1 de três nós subjacente ao infarto do miocárdio4

Destaques

  • A ablação25 de neurônios7 sensoriais vagais que expressam TRPV1 (nó 1) melhora a função cardíaca após o infarto do miocárdio4 (IM).
  • A ablação25 de neurônios7 sensoriais vagais TRPV1 fortalece a zona limítrofe contra lesão21 após o IM.
  • A inibição de neurônios7 AT1aR no núcleo paraventricular (nó 2) melhora a função cardíaca após o IM.
  • O bloqueio imune de IL-1β nos gânglios26 cervicais superiores (nó 3) melhora a função cardíaca após o IM.

Resumo

O infarto do miocárdio4 (IM) desencadeia eventos cardíacos adversos, respostas imunes e ativação do sistema nervoso9, mas os mecanismos neurais e neuroimunes permanecem pouco estudados.

Usando sequenciamento de RNA de célula27 única (scRNA-seq) e clarificação de tecidos, identificou-se neurônios7 sensoriais vagais (NSVs) que expressam o receptor de potencial transitório vaniloide-1 (TRPV1) e aumentam a inervação ventricular pós-IM.

A ablação25 desses NSVs mitigou a patologia6 do IM, reduzindo o tamanho do infarto28, as alterações eletrocardiográficas anormais, a disfunção cardíaca, a inervação simpática e a citocina29 pró-inflamatória interleucina 1β (IL-1β).

O sequenciamento de RNA de núcleos únicos (snRNA-seq) e a transcriptômica espacial revelaram redução da expansão da zona limítrofe em corações com IM após a ablação25 dos NSVs.

Ao rastrear os efeitos até o cérebro1, descobriu-se que o IM ativou neurônios7 que expressam o receptor de angiotensina II tipo 1 (AT1aR) no núcleo paraventricular (NPV), cuja inibição refletiu os benefícios da ablação25 dos NSVs TRPV1.

Além disso, os gânglios26 cervicais superiores (GCSs) exibiram intensificação da inervação simpática pós-IM e da sinalização de IL-1β. O bloqueio da IL-1β nos GCSs reduziu significativamente as complicações pós-IM.

Este estudo revela um circuito coração2-cérebro1 de três nós subjacente ao IM e potenciais alvos terapêuticos.

 

Fontes:
Cell, Vol. 189, Nº 3, em 05 de fevereiro de 2026.
Nature, notícia publicada em 28 de janeiro de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Estudo em camundongos sugere que os danos causados por um ataque cardíaco se originam em sinais cerebrais. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1500210/estudo-em-camundongos-sugere-que-os-danos-causados-por-um-ataque-cardiaco-se-originam-em-sinais-cerebrais.htm>. Acesso em: 27 fev. 2026.

Complementos

1 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
2 Coração: Órgão muscular, oco, que mantém a circulação sangüínea.
3 Sistema imunológico: Sistema de defesa do organismo contra infecções e outros ataques de micro-organismos que enfraquecem o nosso corpo.
4 Infarto do miocárdio: Interrupção do suprimento sangüíneo para o coração por estreitamento dos vasos ou bloqueio do fluxo. Também conhecido por ataque cardíaco.
5 Sistema cardiovascular: O sistema cardiovascular ou sistema circulatório sanguíneo é formado por um circuito fechado de tubos (artérias, veias e capilares) dentro dos quais circula o sangue e por um órgão central, o coração, que atua como bomba. Ele move o sangue através dos vasos sanguíneos e distribui substâncias por todo o organismo.
6 Patologia: 1. Especialidade médica que estuda as doenças e as alterações que estas provocam no organismo. 2. Qualquer desvio anatômico e/ou fisiológico, em relação à normalidade, que constitua uma doença ou caracterize determinada doença. 3. Por extensão de sentido, é o desvio em relação ao que é próprio ou adequado ou em relação ao que é considerado como o estado normal de uma coisa inanimada ou imaterial.
7 Neurônios: Unidades celulares básicas do tecido nervoso. Cada neurônio é formado por corpo, axônio e dendritos. Sua função é receber, conduzir e transmitir impulsos no SISTEMA NERVOSO. Sinônimos: Células Nervosas
8 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
9 Sistema nervoso: O sistema nervoso é dividido em sistema nervoso central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP). O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinhal e a porção periférica está constituída pelos nervos cranianos e espinhais, pelos gânglios e pelas terminações nervosas.
10 Patogênese: Modo de origem ou de evolução de qualquer processo mórbido; nosogenia, patogênese, patogenesia.
11 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
12 Músculo Cardíaco: Tecido muscular do CORAÇÃO. Composto de células musculares estriadas e involuntárias (MIÓCITOS CARDÍACOS) conectadas, que formam a bomba contrátil geradora do fluxo sangüíneo.
13 Músculos: Tecidos contráteis que produzem movimentos nos animais.
14 Tecido: Conjunto de células de características semelhantes, organizadas em estruturas complexas para cumprir uma determinada função. Exemplo de tecido: o tecido ósseo encontra-se formado por osteócitos dispostos em uma matriz mineral para cumprir funções de sustentação.
15 Cardiologista: Médico especializado em tratar pessoas com problemas cardíacos.
16 Simpático: 1. Relativo à simpatia. 2. Que agrada aos sentidos; aprazível, atraente. 3. Em fisiologia, diz-se da parte do sistema nervoso vegetativo que põe o corpo em estado de alerta e o prepara para a ação.
17 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
18 Insuficiência Cardíaca: É uma condição na qual a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto (débito cardíaco) é insuficiente para suprir as demandas normais de oxigênio e de nutrientes do organismo. Refere-se à diminuição da capacidade do coração suportar a carga de trabalho.
19 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
20 Artéria: Vaso sangüíneo de grande calibre que leva sangue oxigenado do coração a todas as partes do corpo.
21 Lesão: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
22 Hipotálamo: Parte ventral do diencéfalo extendendo-se da região do quiasma óptico à borda caudal dos corpos mamilares, formando as paredes lateral e inferior do terceiro ventrículo.
23 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
24 Eletrocardiograma: Registro da atividade elétrica produzida pelo coração através da captação e amplificação dos pequenos potenciais gerados por este durante o ciclo cardíaco.
25 Ablação: Extirpação de qualquer órgão do corpo.
26 Gânglios: 1. Na anatomia geral, são corpos arredondados de tamanho e estrutura variáveis; nodos, nódulos. 2. Em patologia, são pequenos tumores císticos localizados em uma bainha tendinosa ou em uma cápsula articular, especialmente nas mãos, punhos e pés.
27 Célula: Unidade funcional básica de todo tecido, capaz de se duplicar (porém algumas células muito especializadas, como os neurônios, não conseguem se duplicar), trocar substâncias com o meio externo à célula, etc. Possui subestruturas (organelas) distintas como núcleo, parede celular, membrana celular, mitocôndrias, etc. que são as responsáveis pela sobrevivência da mesma.
28 Infarto: Morte de um tecido por irrigação sangüínea insuficiente. O exemplo mais conhecido é o infarto do miocárdio, no qual se produz a obstrução das artérias coronárias com conseqüente lesão irreversível do músculo cardíaco.
29 Citocina: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
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