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Os bebês podem começar a aprender a linguagem antes de nascerem

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Experiências mostraram que os bebês1 recém-nascidos respondem de forma diferente à sua língua2 materna, sugerindo que a exposição à linguagem no útero3 pode fornecer as bases para a aprendizagem. Os achados são de um estudo publicado na revista Science Advances.

“Já sabemos há algum tempo que os fetos ouvem no final da gestação”, diz Judit Gervain, da Universidade de Pádua, na Itália. “Os bebês1 recém-nascidos podem reconhecer a voz da mãe e preferi-la a outras vozes femininas, e podem até reconhecer a língua2 que a mãe falou durante a gravidez4.”

Leia sobre "Como evolui a linguagem da criança" e "Desenvolvimento infantil".

Para investigar mais, Gervain e seus colegas estudaram a atividade cerebral de 49 bebês1, com idades entre um e cinco dias de vida, de mães cuja língua2 nativa era o francês.

Cada recém-nascido vestiu uma pequena touca que continha 10 eletrodos colocados próximos a regiões do cérebro5 ligadas à percepção da fala.

A equipe então reproduziu gravações que começaram com 3 minutos de silêncio, depois trechos de 7 minutos da história Cachinhos Dourados e os Três Ursos em inglês, francês e espanhol em ordens diferentes, seguidos de outro período de silêncio.

Quando os bebês1 ouviram o áudio em francês, a equipe observou um aumento num tipo de sinal6 cerebral denominado correlações temporais de longo alcance, que está ligado à percepção e ao processamento da fala. Esses sinais7 foram reduzidos quando os bebês1 ouviram outras línguas.

No grupo de 17 bebês1 que ouviram francês por último na sequência, a equipe descobriu que este aumento na atividade neural foi sustentado durante o silêncio que se seguiu.

Estas descobertas implicam que os bebês1 já podem reconhecer a língua2 nativa da mãe como aquela que é mais importante, diz Gervain. “É essencialmente um incentivo para aprender a língua2 nativa”, diz ela.

A equipe espera agora realizar experiências envolvendo bebês1 com mães que falam línguas diferentes, especialmente asiáticas ou africanas, para ver até que ponto os resultados são generalizáveis. Eles pretendem também explorar como o desenvolvimento da percepção da fala no útero3 pode variar em bebês1 com experiências pré-natais menos típicas, como os bebês1 prematuros.

“Claro, é bom conversar com a barriga”, diz Gervain. “Mas mostramos que mesmo as atividades naturais do dia a dia, como fazer compras ou conversar com o vizinho, já são discurso suficiente para funcionar como um andaime para o aprendizado do bebê.”

No artigo publicado, os pesquisadores relatam como a experiência pré-natal com a linguagem molda o cérebro5.

Eles contextualizam que os bebês1 humanos adquirem a linguagem com notável facilidade em comparação com os adultos, mas a base neural da sua notável plasticidade cerebral para a linguagem permanece pouco compreendida.

Aplicando uma análise de escala de oscilações neurais para responder a esta questão, mostrou-se que a atividade eletrofisiológica dos recém-nascidos exibe correlações temporais de longo alcance aumentadas após a estimulação com a fala, particularmente na linguagem ouvida no pré-natal, indicando o surgimento precoce da especialização cerebral para a língua2 nativa.

Os resultados do estudo fornecem a evidência mais convincente até hoje de que a experiência da linguagem já molda a organização funcional do cérebro5 infantil, mesmo antes do nascimento. A exposição à fala leva a mudanças rápidas, mas duradouras na dinâmica neural, melhorando as correlações temporais de longo alcance e aumentando assim a sensibilidade dos bebês1 a estímulos previamente ouvidos. Este efeito facilitador está presente especificamente para a linguagem e a banda de frequência vivenciada no pré-natal.

Estes resultados convergem com observações de aumento do poder na ativação eletrofisiológica do cérebro5 do recém-nascido após estimulação linguística e sugerem que o período pré-natal estabelece as bases para um maior desenvolvimento da linguagem, embora seja importante notar que o seu impacto não é determinístico, pois as crianças, se expostas jovens, permanecem capazes de adquirir uma língua2 mesmo na ausência de experiência pré-natal com ela, por exemplo, no caso de bebês1 prematuros, filhos imigrantes ou adotados internacionais, ou após implantação coclear.

Veja também sobre "Gestação semana a semana", "Neuroplasticidade cerebral" e "Quando uma criança começa a falar".

 

Fontes:
Science Advances, Vol. 9, Nº 47, em 22 de novembro de 2023.
New Scientist, notícia publicada em 22 de novembro de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Os bebês podem começar a aprender a linguagem antes de nascerem. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1462342/os-bebes-podem-comecar-a-aprender-a-linguagem-antes-de-nascerem.htm>. Acesso em: 28 fev. 2024.

Complementos

1 Bebês: Lactentes. Inclui o período neonatal e se estende até 1 ano de idade (12 meses).
2 Língua:
3 Útero: Orgão muscular oco (de paredes espessas), na pelve feminina. Constituído pelo fundo (corpo), local de IMPLANTAÇÃO DO EMBRIÃO e DESENVOLVIMENTO FETAL. Além do istmo (na extremidade perineal do fundo), encontra-se o COLO DO ÚTERO (pescoço), que se abre para a VAGINA. Além dos istmos (na extremidade abdominal superior do fundo), encontram-se as TUBAS UTERINAS.
4 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
5 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
6 Sinal: 1. É uma alteração percebida ou medida por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida. 2. Som ou gesto que indica algo, indício. 3. Dinheiro que se dá para garantir um contrato.
7 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
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