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Uso de anticoncepcionais orais não está vinculado ao excesso de doenças cardiovasculares e mortalidade

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De forma tranquilizadora, um histórico de uso de anticoncepcionais orais não teve efeitos deletérios sobre doenças cardiovasculares1 (DCV) e sobrevida2 no acompanhamento de longo prazo, mostrou um estudo do U.K. Biobank, publicado no Journal of the American Heart Association.

Em uma comparação entre mulheres que usaram a pílula e as que nunca utilizaram, os contraceptivos orais foram até associados a reduções aparentes nos eventos de DCV e na mortalidade3 por todas as causas ao longo de uma mediana de 11,8 anos:

A prevenção desses eventos foi maior em pessoas com mais anos de uso de contraceptivos orais. Por outro lado, não houve associações significativas com morte por DCV, infarto do miocárdio7 ou acidente vascular cerebral8 após ajuste para fatores de risco tradicionais, relataram Huijie Zhang, MD, PhD, do Nanfang Hospital, Southern Medical University, em Guangdong, China, e colegas.

Saiba mais sobre "Pílulas anticoncepcionais" e "Anticoncepção — métodos reversíveis e métodos irreversíveis".

“Essas descobertas fornecem insights significativos de saúde9 pública e podem facilitar uma mudança na percepção pública porque o uso de contraceptivos orais é comum em mulheres em idade reprodutiva, e existe publicidade anteriormente negativa sobre a segurança do uso de contraceptivos orais”, escreveu o grupo de Zhang.

Os autores destacaram a necessidade de uma investigação mais aprofundada sobre as associações dose-resposta entre contraceptivos orais e resultados de DCV, e os efeitos de formulações específicas – ambos os quais não foram possíveis com o seu conjunto de dados limitado. Estudos anteriores que avaliaram a ligação entre contraceptivos orais e eventos cardiovasculares produziram resultados conflitantes, que podem estar relacionados às formulações específicas.

C. Noel Bairey Merz, MD, do Cedars-Sinai Medical Center em Los Angeles, EUA, comentou que as mulheres no estudo provavelmente usavam contraceptivos orais de terceira e quarta geração – este último considerado “não tão ‘seguro’ durante o uso ativo em relação à trombose10.”

Notavelmente, a equipe de Zhang não avaliou eventos tromboembólicos venosos, que têm sido associados de forma mais consistente a contraceptivos orais à base de estrogênio, especialmente entre mulheres que também fumam.

“É importante observar que nem todos os tipos de pílulas anticoncepcionais são criados iguais e, dependendo da dose de estrogênio e do tipo de progesterona, podem apresentar um risco ligeiramente maior de coágulos em comparação com formulações mais antigas. Além disso, o risco cardiovascular ao considerar pílulas anticoncepcionais orais permanece individualizado com base em fatores de risco e estilo de vida, e preferência de opções contraceptivas”, disse Chrisandra Shufelt, MD, da Mayo Clinic em Jacksonville, Flórida, EUA, que não esteve envolvida no estudo.

No entanto, segundo Shufelt, os resultados do presente estudo são tranquilizadores em relação à segurança cardiovascular das pílulas anticoncepcionais.

“Acho que isso é realmente reconfortante e que as mulheres que desejam usar contraceptivos orais, seja para evitar a concepção11 ou por outros problemas de saúde9, como síndrome12 dos ovários13 policísticos/endometriose14, podem ficar tranquilas sobre a falta de sinal15 de dano (e até mesmo sinal15 de benefício)”, concordou Erin Michos, MD, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Michos sublinhou que a gravidez16 é em si uma condição de alto risco, e “se a gravidez16 não for desejada, as mulheres em idade reprodutiva devem ter acesso a uma gama completa de opções para evitar a gravidez16 e os dados de segurança para os contraceptivos orais contemporâneos expandem as suas indicações a mais mulheres.”

No artigo publicado, os pesquisadores relatam que as associações do uso de anticoncepcionais orais (ACO) com doenças cardiovasculares1 (DCV) e morte por todas as causas permanecem obscuras. O objetivo, portanto, foi determinar as associações do uso de contraceptivos orais com DCV incidentes17 e morte por todas as causas.

Este estudo de coorte18 incluiu 161.017 mulheres que não tinham DCV no início do estudo e relataram uso de anticoncepcionais orais. Dividiu-se o uso de ACO em ‘já fez uso’ e ‘nunca usou’. Modelos de risco proporcional de Cox foram usados para calcular taxas de risco e ICs 95% para desfechos cardiovasculares e morte.

No geral, 131.131 (81,4%) de 161.017 participantes relataram uso de ACO no início do estudo. As taxas de risco ajustadas multivariavelmente para mulheres que já usaram versus nunca usaram ACO foram 0,92 (IC 95%, 0,86-0,99) para mortalidade3 por todas as causas, 0,91 (IC 95%, 0,87-0,96) para eventos de DCV incidente4, 0,88 (IC 95%, 0,81-0,95) para doença coronariana5, 0,87 (IC 95%, 0,76-0,99) para insuficiência cardíaca6 e 0,92 (IC 95%, 0,84-0,99) para fibrilação atrial.

No entanto, não foram observadas associações significativas do uso de ACO com morte por DCV, infarto do miocárdio7 ou acidente vascular cerebral8. Além disso, as associações do uso de contraceptivos orais com eventos cardiovasculares foram mais fortes entre as participantes com períodos de uso mais longos (P para tendência <0,001).

O estudo concluiu que o uso de contraceptivos orais não foi associado a um risco aumentado de eventos cardiovasculares e de morte por todas as causas em mulheres e pode até produzir um benefício líquido aparente. Além disso, os efeitos benéficos pareceram ser mais evidentes nas participantes com períodos de utilização mais longos.

Leia sobre "Doenças cardiovasculares1" e "A gravidez16 desejada e a não desejada".

 

Fontes:
Journal of the American Heart Association, Vol. 12, Nº 16, em agosto de 2023.
MedPage Today, notícia publicada em 11 de agosto de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Uso de anticoncepcionais orais não está vinculado ao excesso de doenças cardiovasculares e mortalidade. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1443770/uso-de-anticoncepcionais-orais-nao-esta-vinculado-ao-excesso-de-doencas-cardiovasculares-e-mortalidade.htm>. Acesso em: 18 jul. 2024.

Complementos

1 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
2 Sobrevida: Prolongamento da vida além de certo limite; prolongamento da existência além da morte, vida futura.
3 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
4 Incidente: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
5 Doença coronariana: Doença do coração causada por estreitamento das artérias que fornecem sangue ao coração. Se o fluxo é cortado, o resultado é um ataque cardíaco.
6 Insuficiência Cardíaca: É uma condição na qual a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto (débito cardíaco) é insuficiente para suprir as demandas normais de oxigênio e de nutrientes do organismo. Refere-se à diminuição da capacidade do coração suportar a carga de trabalho.
7 Infarto do miocárdio: Interrupção do suprimento sangüíneo para o coração por estreitamento dos vasos ou bloqueio do fluxo. Também conhecido por ataque cardíaco.
8 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
9 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
10 Trombose: Formação de trombos no interior de um vaso sanguíneo. Pode ser venosa ou arterial e produz diferentes sintomas segundo os territórios afetados. A trombose de uma artéria coronariana pode produzir um infarto do miocárdio.
11 Concepção: O início da gravidez.
12 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
13 Ovários: São órgãos pares com aproximadamente 3cm de comprimento, 2cm de largura e 1,5cm de espessura cada um. Eles estão presos ao útero e à cavidade pelvina por meio de ligamentos. Na puberdade, os ovários começam a secretar os hormônios sexuais, estrógeno e progesterona. As células dos folículos maduros secretam estrógeno, enquanto o corpo lúteo produz grandes quantidades de progesterona e pouco estrógeno.
14 Endometriose: Doença que acomete as mulheres em idade reprodutiva e consiste na presença de endométrio em locais fora do útero. Endométrio é a camada interna do útero que é renovada mensalmente pela menstruação. Os locais mais comuns da endometriose são: Fundo de Saco de Douglas (atrás do útero), septo reto-vaginal (tecido entre a vagina e o reto ), trompas, ovários, superfície do reto, ligamentos do útero, bexiga e parede da pélvis.
15 Sinal: 1. É uma alteração percebida ou medida por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida. 2. Som ou gesto que indica algo, indício. 3. Dinheiro que se dá para garantir um contrato.
16 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
17 Incidentes: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
18 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
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