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Mutações raras em embriões podem aumentar o risco de desenvolver esquizofrenia

quarta-feira, 2 de agosto de 2023
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Mutações raras em embriões podem aumentar o risco de desenvolver esquizofrenia

Sabe-se que os fatores genéticos desempenham o maior papel no risco de desenvolver esquizofrenia, mas poucos dos genes envolvidos foram identificados. Agora, pesquisadores descobriram mutações relevantes que ocorrem em embriões.

De acordo com o estudo, publicado na revista Cell Genomics, mutações genéticas raras que ocorrem durante os primeiros dias de desenvolvimento do embrião podem aumentar o risco de desenvolver esquizofrenia mais tarde na vida. As descobertas podem ajudar a revelar novos tratamentos.

Cerca de 1 em cada 300 pessoas tem esquizofrenia, com sintomas que incluem alucinações, fala confusa e perda de interesse nas atividades cotidianas. É amplamente aceito que os fatores genéticos desempenham o maior papel no desenvolvimento da doença, com fatores ambientais, como baixo peso ao nascer ou uso de drogas psicoativas, tendo apenas uma influência menor. Apesar disso, pesquisadores identificaram apenas cerca de uma dúzia das variantes genéticas envolvidas.

Agora, Christopher Walsh, do Hospital Infantil de Boston, em Massachusetts, EUA, e seus colegas encontraram evidências de que mutações não hereditárias ou somáticas – aquelas que ocorrem por acaso durante o desenvolvimento do embrião – podem contribuir para o risco de esquizofrenia mais tarde na vida. Todas as mutações anteriores ligadas à condição são transmitidas pelos pais.

Os pesquisadores analisaram dados genéticos previamente extraídos de amostras de sangue de mais de 12.800 adultos com esquizofrenia e mais de 11.600 pessoas sem a doença.

Eles descobriram que parte de um gene chamado NRXN1 foi deletada em seis pessoas com esquizofrenia, mas não em pessoas sem a doença. Como a mutação estava presente em 14 a 43% das células sanguíneas desses seis indivíduos, ela deve ter ocorrido em uma célula durante os primeiros dias de desenvolvimento do embrião antes de se propagar pelos descendentes dessa célula, diz Walsh. Em contraste, as mutações herdadas geralmente estão presentes em todas as células do corpo.

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“Com base em trabalhos anteriores, sabemos que mutações como essa detectadas no sangue provavelmente afetam uma proporção semelhante de outros tipos de células do corpo, incluindo o cérebro, onde a esquizofrenia se instala”, diz Walsh. O NRXN1 é importante para o aprendizado porque codifica uma proteína que regula o número e a densidade das conexões entre as células nervosas, ou neurônios, no cérebro, diz ele.

Em um conjunto diferente de seis participantes com esquizofrenia que não responderam a um medicamento para esquizofrenia chamado clozapina, a equipe encontrou mutações em um gene chamado ABCB11 em 18 a 27% de suas células sanguíneas. Este gene codifica uma proteína envolvida no transporte de sais digestivos no fígado, mas não foi previamente associada à esquizofrenia e seu papel no cérebro não é claro, diz Walsh. Um pequeno número de pessoas sem esquizofrenia tinha essas mutações, mas é possível que desenvolvam a doença no futuro, diz ele.

Ao analisar dados genéticos previamente coletados do cérebro das pessoas, a equipe descobriu que o ABCB11 estava ativo em neurônios que produzem o hormônio “da felicidade” dopamina, e essas células são alvo de “quase todos os nossos medicamentos conhecidos para esquizofrenia”, diz Walsh.

Isso sugere que ter o gene ABCB11 pode ser necessário para colocar esses medicamentos nos neurônios produtores de dopamina, e as mutações interrompem isso, diz Walsh. “Direcionar o ABCB11 pode ser importante para ajudar alguns desses pacientes resistentes a medicamentos a se tornarem mais tratáveis com os medicamentos atuais que temos”. Mas isso precisa ser testado, diz ele.

Uma limitação do estudo é que a equipe carece de informações detalhadas sobre fatores de estilo de vida – como o uso de drogas psicoativas – que podem diferir entre pessoas com e sem esquizofrenia e, portanto, afetar os resultados, diz Atsushi Takata do RIKEN Center for Brain Science no Japão.

No entanto, as descobertas “podem fornecer novos insights sobre o processo biológico e os mecanismos associados a essa condição, que, por sua vez, podem informar o desenvolvimento de tratamento”, diz Elliott Rees, da Cardiff University, no Reino Unido.

Variantes de número de cópias somáticas associadas à esquizofrenia de 12.834 casos revelam interrupções recorrentes de NRXN1 e ABCB11

Destaques

  • Variantes do número de cópias somáticas são mais comuns em casos de esquizofrenia do que em controles.
  • Deleções somáticas recorrentes dos éxons 1-5 de NRXN1 em casos de esquizofrenia.
  • Deleções intragênicas recorrentes de ABCB11 em casos de esquizofrenia.
  • ABCB11 é especificamente enriquecido em um subconjunto de neurônios dopaminérgicos no cérebro humano.

Resumo

Embora as variantes do número de cópias (VNCs) germinativas contribuam para o risco de esquizofrenia (SQZ), a contribuição das VNCs somáticas (VNCss) - presentes em algumas, mas não em todas as células - permanece desconhecida.

Identificou-se VNCss usando matrizes de genótipos derivados do sangue de 12.834 casos de SQZ e 11.648 controles, filtrando VNCss em loci com mutação recorrente em distúrbios clonais do sangue.

VNCss provavelmente do desenvolvimento precoce foram mais comuns nos casos (0,91%) do que nos controles (0,51%, p = 2,68e-4), com deleções somáticas recorrentes dos éxons 1-5 do gene NRXN1 em cinco casos de SQZ.

Mapas Hi-C revelaram loops ectópicos específicos de alelos se formando entre um potencial promotor críptico e elementos cis-reguladores não codificantes após deleções 5' no NRXN1.

Também observou-se deleções intragênicas recorrentes do ABCB11, que codifica um transportador implicado na resposta antipsicótica, em cinco casos de SQZ resistentes ao tratamento e mostrou-se que o ABCB11 é especificamente enriquecido em neurônios formando projeções dopaminérgicas mesocorticais e mesolímbicas.

Esses resultados indicam papéis potenciais de variantes do número de cópias somáticas no risco esquizofrenia.

Leia sobre "Genética - conceitos básicos" e "O que saber sobre os antipsicóticos".

 

Fontes:
Cell Genomics, publicação em 06 de julho de 2023.
New Scientist, notícia publicada em 06 de julho de 2023.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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