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Nova perspectiva científica propõe teoria da “metainflamação” para explicar origem e evolução da obesidade

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025
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Nova perspectiva científica propõe teoria da “metainflamação” para explicar origem e evolução da obesidade

A obesidade é uma condição multifatorial e altamente prevalente, cuja origem tem sido amplamente estudada sob diferentes perspectivas. Modelos como a hipótese do genótipo econômico, a hipótese Drifty e a capacidade termogênica fornecem explicações evolutivas para a predisposição genética à obesidade. No entanto, um estudo recente publicado na revista Endocrine Reviews propõe um novo paradigma: a teoria da metainflamação.

Desenvolvida pelo médico e pesquisador Dr. Mario Saad, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com o biólogo Andrey Santos, essa hipótese integra conceitos da evolução darwiniana com os avanços da biologia molecular e da microbiota para explicar o aumento da obesidade na sociedade contemporânea.

Seleção natural e obesidade: a herança das epidemias

A teoria da metainflamação sugere que genes selecionados ao longo da evolução, especialmente aqueles relacionados à resposta imune robusta durante epidemias, poderiam, hoje, predispor os indivíduos à obesidade. Em períodos de grande mortalidade por doenças infecciosas, os indivíduos com maior capacidade de montar uma resposta inflamatória eficaz tiveram maior sobrevivência e transmitiram essa característica genética às gerações seguintes.

Entretanto, esse mesmo mecanismo, vantajoso no passado, pode ser um fator de risco na sociedade atual. O ambiente obesogênico moderno, caracterizado por dieta hipercalórica, sedentarismo e disfunções na microbiota intestinal, favorece a ativação desses genes, levando ao acúmulo de gordura e à inflamação crônica subclínica.

A conexão entre sistema imune e metabolismo energético é um dos pilares dessa teoria. Estudos experimentais indicam que processos inflamatórios em tecidos como o hipotálamo e o tecido adiposo marrom podem favorecer a ingestão excessiva de calorias e a redução da termogênese, facilitando o acúmulo de peso.

Leia sobre "Genética - conceitos básicos", "Microbioma intestinal" e "Conhecendo o sistema imunológico".

O papel da microbiota e o genótipo estendido

Além do componente genético humano, a hipótese da metainflamação também enfatiza o papel da microbiota intestinal na obesidade. Pesquisas mostram que genes bacterianos presentes no intestino influenciam a homeostase energética, a inflamação sistêmica e até mesmo a regulação da glicemia. A obesidade, portanto, não seria apenas um fenômeno poligênico humano, mas uma interação complexa entre genes do hospedeiro e genes microbianos, formando um genótipo estendido.

Esse conceito amplia nossa compreensão sobre a obesidade, demonstrando que a genética da microbiota pode ser um fator crítico na predisposição ao acúmulo de gordura e nas respostas metabólicas individuais à dieta e ao ambiente.

Implicações clínicas e novos caminhos terapêuticos

Compreender a obesidade sob a ótica da metainflamação pode trazer implicações diretas para a prática médica. Se o processo inflamatório for confirmado como um fator relevante para o surgimento da obesidade e suas complicações, isso pode abrir caminho para novas abordagens terapêuticas. O próprio Dr. Mario Saad menciona que medicamentos com efeito anti-inflamatório têm demonstrado impacto significativo no tratamento da obesidade.

O reconhecimento da obesidade como uma condição complexa e não exclusivamente relacionada ao comportamento individual reforça a necessidade de abordagens médicas integradas e baseadas em ciência de precisão.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

A microbiota e a evolução da obesidade

Pontos essenciais

  • Várias hipóteses foram sugeridas para as origens evolutivas da obesidade.
  • A metainflamação sugere que genes de defesa de patógenos podem levar à obesidade moderna.
  • Genes imunes podem influenciar a obesidade por meio de interações do sistema imunológico e de armazenamento de energia.
  • A genética da microbiota intestinal aumenta a complexidade poligênica da obesidade.
  • As origens da obesidade exigem considerar a história, a genética e a microbiota intestinal.

Resumo

A obesidade é uma grande preocupação global e geralmente é atribuída a uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Várias hipóteses foram propostas para explicar as origens evolutivas da epidemia de obesidade, incluindo genótipos econômicos e desviados e mudanças na termogênese.

Neste estudo, apresentou-se a hipótese da metainflamação, que propõe que, devido às intensas pressões de seleção exercidas por patógenos ambientais, genes específicos que ajudam a desenvolver um mecanismo de defesa robusto contra doenças infecciosas tiveram vantagens evolutivas e que isso pode contribuir para a obesidade nos tempos modernos devido às conexões entre os sistemas imunológico e de armazenamento de energia.

De fato, incorporar as variações genéticas da microbiota intestinal na complexa estrutura genética da obesidade a torna mais poligênica do que se acreditava anteriormente.

Assim, descobrir as origens evolutivas da obesidade requer uma abordagem multifacetada que considere a complexidade da história humana, a composição genética única de diferentes populações e a influência do microbioma intestinal na genética do hospedeiro.

Veja também sobre "O que é inflamação" e "Metabolismo: como influencia na perda e ganho de peso".

 

Fontes:
Endocrine Reviews, publicação em 13 de dezembro de 2024.
Medscape, notícia publicada em 30 de janeiro de 2025.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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