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Jogadores de futebol têm 50% mais chances de desenvolver doenças neurodegenerativas

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Homens jogadores de futebol de elite tinham 1,5 vezes mais chances de desenvolver doenças neurodegenerativas – principalmente demência1 – do que controles populacionais, descobriu um estudo com homens que jogaram na primeira divisão da Suécia de 1924 a 2019.

O estudo observacional, publicado no The Lancet Public Health, descobriu que 8,9% dos jogadores (537 de 6.007) e 6,2% (3.485 de 56.168) do grupo de controle receberam o diagnóstico2 de uma doença neurodegenerativa.

A doença de Alzheimer3 e a demência1 foram 62% mais comuns entre os jogadores de futebol do que os controles, de acordo com Peter Ueda, MD, PhD, do Karolinska Institute em Estocolmo, e co-autores.

No entanto, não foi encontrado risco significativamente aumentado de doença do neurônio motor. O risco de doença de Parkinson foi menor entre os jogadores de futebol, e a mortalidade4 geral foi ligeiramente menor entre os jogadores do que no grupo de controle.

Os goleiros não tiveram um risco aumentado de doença neurodegenerativa, mas os jogadores de linha tiveram, sugerindo que golpes repetitivos de cabecear a bola podem ser um fator.

“Ao contrário dos jogadores de linha, os goleiros raramente cabeceiam a bola”, disse Ueda. “Embora outros fatores que diferem de acordo com a posição do jogador de futebol também possam afetar essa diferença, a descoberta dá suporte à hipótese de que cabecear a bola pode aumentar o risco de demência”.

Leia sobre "Doenças degenerativas5", "Demência1" e "Mal de Alzheimer3".

Um estudo anterior na Escócia mostrou que a mortalidade4 por doenças neurodegenerativas entre ex-jogadores profissionais de futebol era cerca de 3,5 vezes maior do que na população em geral.

Mais recentemente, a equipe de pesquisa da Escócia relatou que o risco de doenças neurodegenerativas em ex-jogadores de futebol estava associado à posição no campo e ao tempo de carreira, indicando um risco maior com a exposição cumulativa a posições de linha.

“O fato deste estudo bem conduzido replicar pesquisas anteriores sobre jogadores de futebol na Escócia deve convencer os céticos de que a conexão entre cabeceada e demência1 é real e evitável”, disse Chris Nowinski, PhD, da Concussion Legacy Foundation em Boston, que não estava envolvido com o estudo.

“Precisamos tomar medidas para minimizar o risco, aumentando a idade em que as crianças começam a cabecear e, em seguida, tomar medidas para reduzir a frequência e a magnitude das cabeceadas”, disse Nowinski.

“A Associação de Futebol da Inglaterra está liderando a conversa sobre a idade da primeira exposição, eliminando o cabeceamento antes dos 12 anos”, apontou Nowinski.

“Outros países devem seguir essa política, e prevejo que a idade aumentará à medida que as pessoas começarem a perceber os benefícios de menos concussões em crianças e casos de encefalopatia6 traumática crônica em jogadores de futebol”, acrescentou. “Uma vez que a cabeceada é introduzida, as organizações esportivas precisam estabelecer limites rígidos, especialmente em impactos de maior magnitude”.

No artigo publicado, os pesquisadores contextualizam que os jogadores de futebol podem estar em maior risco de doença neurodegenerativa, o que levou a questões sobre a segurança do esporte e as recentes medidas introduzidas pelas associações de futebol para reduzir o cabeceamento da bola.

O objetivo do estudo foi avaliar o risco de doença neurodegenerativa entre jogadores de futebol masculino na primeira divisão sueca Allsvenskan, em comparação com controles pareados.

Neste estudo de coorte7, identificou-se todos os jogadores de futebol masculino (amadores e profissionais) que jogaram pelo menos uma partida na Allsvenskan de 1º de agosto de 1924 a 31 de dezembro de 2019 e excluiu-se jogadores cujo número de identidade pessoal não pôde ser recuperado ou identificado no Registro da População Total, e aqueles que não nasceram na Suécia e que imigraram para o país após os 15 anos de idade.

Jogadores de futebol foram pareados com até dez controles da população geral de acordo com sexo, idade e região de residência. Usou-se registros nacionais para comparar o risco de doenças neurodegenerativas (diagnósticos registrados em atestados de óbito8, durante internações e consultas ambulatoriais ou uso de medicamentos prescritos para demência1) entre jogadores de futebol versus controles.

Avaliou-se também cada tipo de doença neurodegenerativa (doença de Alzheimer9 e outras demências, doença do neurônio motor e doença de Parkinson10) separadamente e comparou-se o risco de doença neurodegenerativa entre jogadores de linha versus goleiros.

Dos 7.386 jogadores de futebol que jogaram pelo menos uma partida na principal divisão sueca entre 1º de agosto de 1924 e 31 de dezembro de 2019, 182 jogadores foram excluídos por um número de identidade pessoal irrecuperável e 417 foram excluídos porque seu número não foi identificado no Registro da População Total.

Após uma exclusão adicional de 780 jogadores e 11.627 controles nascidos fora da Suécia e que imigraram para o país após os 15 anos de idade, 6.007 jogadores de futebol (510 goleiros) foram incluídos na população do estudo, juntamente com 56.168 controles correspondentes.

Durante o acompanhamento até 31 de dezembro de 2020, 537 (8,9%) de 6.007 jogadores de futebol e 3.485 (6,2%) de 56.168 controles foram diagnosticados com doença neurodegenerativa.

O risco de doença neurodegenerativa foi maior entre os jogadores de futebol do que entre os controles (taxa de risco [HR] 1,46 [IC 95% 1,33-1,60]). A doença de Alzheimer9 e outras demências foram mais comuns entre os jogadores de futebol do que os controles (HR 1,62 [IC 95% 1,47-1,78]); diferenças significativas entre os grupos não foram observadas para a doença do neurônio motor (HR 1,27 [0,73-2,22]); e a doença de Parkinson10 foi menos comum entre os jogadores de futebol (HR 0,68 [0,52-0,89]).

O risco de doença neurodegenerativa foi maior para jogadores de linha do que para os controles (HR 1,50 [IC 95% 1,36-1,65]), mas não para goleiros versus controles (HR 1,07 [0,78-1,47]), e os jogadores de linha tiveram um risco maior de doença neurodegenerativa do que os goleiros (HR 1,43 [1,03-1,99]). A mortalidade4 por todas as causas foi ligeiramente menor entre os jogadores de futebol do que entre os controles (HR 0,95 [IC 95% 0,91-0,99]).

Neste estudo de coorte7, jogadores de futebol do sexo masculino que jogaram na primeira divisão sueca tiveram um risco significativamente aumentado de doença neurodegenerativa em comparação com controles populacionais. O aumento do risco foi observado para a doença de Alzheimer9 e outras demências, mas não para outros tipos de doenças neurodegenerativas, e entre jogadores de linha, mas não entre goleiros.

Esse estudo expande os dados que podem ser usados para avaliar e gerenciar riscos no esporte.

Veja também sobre "Concussão cerebral11", "Encefalopatia6 traumática crônica" e "Traumatismos cranianos".

 

Fontes:
The Lancet Public Health, publicação em 16 de março de 2023.
MedPage Today, notícia publicada em 16 de março de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Jogadores de futebol têm 50% mais chances de desenvolver doenças neurodegenerativas. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1435955/jogadores-de-futebol-tem-50-mais-chances-de-desenvolver-doencas-neurodegenerativas.htm>. Acesso em: 25 jun. 2024.

Complementos

1 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
2 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
3 Alzheimer: Doença degenerativa crônica que produz uma deterioração insidiosa e progressiva das funções intelectuais superiores. É uma das causas mais freqüentes de demência. Geralmente começa a partir dos 50 anos de idade e tem incidência similar entre homens e mulheres.
4 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
5 Degenerativas: Relativas a ou que provocam degeneração.
6 Encefalopatia: Qualquer patologia do encéfalo. O encéfalo é um conjunto que engloba o tronco cerebral, o cerebelo e o cérebro.
7 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
8 Óbito: Morte de pessoa; passamento, falecimento.
9 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
10 Doença de Parkinson: Doença degenerativa que afeta uma região específica do cérebro (gânglios da base), e caracteriza-se por tremores em repouso, rigidez ao realizar movimentos, falta de expressão facial e, em casos avançados, demência. Os sintomas podem ser aliviados por medicamentos adequados, mas ainda não se conhece, até o momento, uma cura definitiva.
11 Concussão cerebral: Perda imediata da consciência no momento de um trauma, mas recuperável em 24 horas ou menos e sem seqüelas. Acompanha-se de amnésia retrógrada e pós-traumática, isto é, o paciente não se recorda do trauma, dos momentos que o antecederam, nem de eventos imediatamente posteriores. Hoje a tendência é considerar a concussão como resultante de um grau leve de lesão axonal difusa.
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