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Exposição pré-natal a produtos químicos desreguladores endócrinos aumenta o risco de lesão hepática em crianças

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Exposições pré-natais a produtos químicos desreguladores endócrinos (PQDEs) podem aumentar o risco de lesão1 hepática2 em crianças; no entanto, as evidências em humanos são escassas e estudos anteriores não consideraram os efeitos potenciais da mistura de PQDEs. Além disso, a associação entre exposição pré-natal a PQDE e apoptose3 hepatocelular em crianças não foi estudada anteriormente.

Nesse contexto, o objetivo deste estudo, publicado no JAMA Network Open, foi investigar associações de exposição pré-natal a misturas de PQDEs com risco de lesão1 hepática2 e apoptose3 hepatocelular na infância.

Saiba mais sobre "Disruptores endócrinos" e "Esteatose hepática4 na infância".

Este estudo de coorte5 prospectivo6 usou dados coletados de 1º de abril de 2003 a 26 de fevereiro de 2016, de pares mãe-filho do projeto Human Early-Life Exposome, uma rede colaborativa de 6 estudos prospectivos, baseados na população, de coorte7 de nascimentos de 6 países europeus (França, Grécia, Lituânia, Noruega, Espanha e Reino Unido). Os dados foram analisados de 1º de abril de 2021 a 31 de janeiro de 2022.

As exposições do estudo foram: 3 pesticidas organoclorados, 5 bifenilos policlorados, 2 éteres difenílicos polibromados (PBDEs), 3 fenóis, 4 parabenos, 10 ftalatos, 4 pesticidas organofosforados, 5 substâncias perfluoroalquil e 9 metais.

Níveis séricos infantis de alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), gama-glutamiltransferase (GGT) e CK-18 foram medidos entre 6 e 11 anos de idade. O risco de lesão1 hepática2 foi definido como níveis de ALT, AST e/ou GGT acima do percentil 90.

As associações de lesão1 hepática2 ou níveis de citoqueratina 18 (CK-18) com cada grupo químico entre os 45 PQDEs medidos em amostras de sangue8 ou urina9 materna coletadas na gravidez10 foram estimadas usando dois métodos complementares de mistura de exposição: soma quantílica ponderada bayesiana (BWQS) e regressão de máquina de kernel bayesiana.

O estudo incluiu 1.108 mães (média [DP] idade ao nascimento, 31,0 [4,7] anos) e seus filhos únicos (média [DP] idade na avaliação do fígado11, 8,2 [1,6] anos; 598 [54,0%] meninos).

Os resultados do método de BWQS indicaram maiores chances de lesão1 hepática2 por aumento de quartil de mistura de exposição para:

  • pesticidas organoclorados (razão de chances [OR], 1,44 [intervalo de credibilidade {ICr} de 95%, 1,21-1,71]);
  • PBDEs (OR, 1,57 [ICr 95 %, 1,34-1,84]);
  • substâncias perfluoroalquil (OR, 1,73 [ICr 95%, 1,45-2,09]);
  • e metais (OR, 2,21 [ICr 95%, 1,65-3,02]).

Menores chances de lesão1 hepática2 foram associadas a:

  • ftalatos de alto peso molecular (OR, 0,74 [ICr 95%, 0,60-0,91]);
  • e fenóis (OR, 0,66 [ICr 95%, 0,54-0,78]).

Níveis mais altos de CK-18 foram associados a um aumento de 1 quartil em:

  • bifenilos policlorados (β, 5,84 [ICr 95%, 1,69-10,08] UI/L);
  • e PBDEs (β, 6,46 [ICr 95%, 3,09-9,92] UI/L).

A regressão de máquina de kernel bayesiana mostrou associações em uma direção semelhante ao BWQS para todos os PQDEs e uma associação não linear entre fenóis e níveis de CK-18.

Com uma combinação de 2 abordagens de mistura de exposição de última geração, evidências consistentes sugerem que exposições pré-natais a produtos químicos disruptores endócrinos estão associadas a maior risco de lesão1 hepática2 e níveis de CK-18 e constituem um fator de risco12 potencial para doença hepática2 gordurosa não alcoólica pediátrica.

Leia sobre "Exames do fígado11 ou provas de função hepática2" e "Esteatose13 metabólica".

 

Fonte: JAMA Network Open, publicação em 06 de julho de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Exposição pré-natal a produtos químicos desreguladores endócrinos aumenta o risco de lesão hepática em crianças. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1420275/exposicao-pre-natal-a-produtos-quimicos-desreguladores-endocrinos-aumenta-o-risco-de-lesao-hepatica-em-criancas.htm>. Acesso em: 5 out. 2022.

Complementos

1 Lesão: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
2 Hepática: Relativa a ou que forma, constitui ou faz parte do fígado.
3 Apoptose: Morte celular não seguida de autólise, também conhecida como “morte celular programada“.
4 Esteatose hepática: Esteatose hepática ou “fígado gorduroso“ é o acúmulo de gorduras nas células do fígado.
5 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
6 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
7 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
8 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
9 Urina: Resíduo líquido produzido pela filtração renal no organismo, estocado na bexiga e expelido pelo ato de urinar.
10 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
11 Fígado: Órgão que transforma alimento em energia, remove álcool e toxinas do sangue e fabrica bile. A bile, produzida pelo fígado, é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.
12 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
13 Esteatose: Degenerescência gordurosa de um tecido.
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