Gostou do artigo? Compartilhe!

Medicação para o vício em bebida reduziu em 63% o risco de doença hepática relacionada ao álcool

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

Indivíduos que tomam medicação para transtorno por uso de álcool (TUA) eram menos propensos a desenvolver ou apresentar progressão de doença hepática1 relacionada ao álcool, segundo um estudo retrospectivo2 publicado no JAMA Network Open.

Entre mais de 9.500 pacientes com TUA, a análise multivariada mostrou que aqueles em terapia médica para dependência tinham uma probabilidade 63% menor de diagnóstico3 de doença hepática1 relacionada ao álcool, de acordo com Jay Luther, MD, do Massachusetts General Hospital, em Boston, e colegas.

E os pacientes com TUA e com cirrose4 em medicação para dependência tiveram uma chance 65% menor de descompensação hepática1, uma associação que “persistiu” mesmo que a terapia fosse iniciada após o diagnóstico3 de cirrose4.

Leia sobre "Alcoolismo", "Esteatose5 alcoólica" e "Transtornos devidos ao abuso de drogas".

“A mensagem passada por este estudo pode parecer óbvia, mas sua importância clínica e de saúde6 pública não pode ser subestimada”, escreveram Lorenzo Leggio, MD, PhD, e M. Katherine Jung, PhD, ambos do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo em Bethesda, Maryland, em um editorial que acompanhou a publicação do estudo.

Três medicamentos para TUA foram aprovados pela Food and Drug Administration (acamprosato, dissulfiram e naltrexona), mas o uso não aprovado de outros medicamentos é comum.

“Um dos aspectos mais desafiadores no tratamento de pacientes com TUA é que muitos pacientes não recebem tratamentos baseados em evidências, apesar da disponibilidade de tais tratamentos”, continuaram Leggio e Jung. “Esta falta de tratamento é alarmante e é uma razão pela qual os resultados deste estudo são importantes, agora mais do que nunca.”

No artigo publicado, os pesquisadores relatam como a doença hepática1 relacionada ao álcool (DHA) é uma das complicações mais devastadoras do transtorno por uso de álcool (TUA), uma condição cada vez mais prevalente. A terapia médica para dependência para o TUA pode desempenhar um papel na proteção contra o desenvolvimento e progressão da DHA.

O objetivo deste estudo, portanto, foi verificar se a terapia médica para dependência foi associada a um risco alterado de desenvolver DHA em pacientes com TUA.

Este estudo de coorte7 retrospectivo2 usou o Mass General Brigham Biobank, uma iniciativa de pesquisa em andamento que recrutou 127.480 pacientes entre seu início em 2010 e 17 de agosto de 2021, quando os dados do presente estudo foram recuperados.

A duração média de acompanhamento do diagnóstico3 de TUA foi de 9,2 anos. Códigos de diagnóstico3 da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde6, Décima Revisão, foram usados para identificar os diagnósticos de DHA e TUA.

A terapia médica para dependência foi definida como o uso documentado de dissulfiram, acamprosato, naltrexona, gabapentina, topiramato ou baclofeno. Os pacientes foram considerados tratados se iniciaram a terapia médica para dependência antes do desfecho relevante.

Odds ratios ajustados (aORs) para o desenvolvimento de DHA e descompensação hepática1 foram calculados e ajustados para múltiplos fatores de risco.

A coorte8 foi composta por 9.635 pacientes com TUA, dos quais 5.821 eram do sexo masculino (60,4%), e a idade média (DP) foi de 54,8 (16,5) anos. Um total de 1.135 pacientes (11,8%) teve DHA e 3.906 pacientes (40,5%) foram tratados com terapia médica para dependência.

Em análises multivariáveis, a terapia médica para dependência para o TUA foi associada à diminuição da incidência9 de DHA (aOR, 0,37; IC 95%, 0,31-0,43; P <0,001).

Esta associação foi evidente para naltrexona (aOR, 0,67; IC 95%, 0,46-0,95; P = 0,03), gabapentina (aOR, 0,36; IC 95%, 0,30-0,43; P <0,001), topiramato (aOR, 0,47; IC 95%, 0,32-0,66; P <0,001) e baclofeno (aOR, 0,57; IC 95%, 0,36-0,88; P = 0,01).

Além disso, a farmacoterapia para TUA foi associada a menor incidência9 de descompensação hepática1 em pacientes com cirrose4 (aOR, 0,35; IC 95%, 0,23-0,53, P <0,001), incluindo naltrexona (aOR, 0,27; IC 95%, 0,10-0,64; P = 0,005) e gabapentina (aOR, 0,36; IC 95%, 0,23-0,56; P <0,001).

Essa associação persistiu mesmo quando a terapia médica para dependência foi iniciada somente após o diagnóstico3 de cirrose4 (aOR, 0,41; IC 95%, 0,23-0,71; P = 0,002).

Os resultados deste estudo mostraram que o recebimento de terapia médica para dependência para o transtorno por uso de álcool foi associado à redução da incidência9 e progressão da doença hepática1 relacionada ao álcool. As associações da farmacoterapia individual com os resultados da doença hepática1 relacionada ao álcool e descompensação hepática1 variaram amplamente.

Veja também sobre "Hepatite10 alcoólica", "Cirrose4 hepática1" e "como manter mais baixo o risco do consumo de bebidas alcoólicas".

 

Fontes:
JAMA Network Open, publicação em 20 de maio de 2022.
MedPage Today, notícia publicada em 20 de maio de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Medicação para o vício em bebida reduziu em 63% o risco de doença hepática relacionada ao álcool. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1418015/medicacao-para-o-vicio-em-bebida-reduziu-em-63-o-risco-de-doenca-hepatica-relacionada-ao-alcool.htm>. Acesso em: 15 ago. 2022.

Complementos

1 Hepática: Relativa a ou que forma, constitui ou faz parte do fígado.
2 Retrospectivo: Relativo a fatos passados, que se volta para o passado.
3 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
4 Cirrose: Substituição do tecido normal de um órgão (freqüentemente do fígado) por um tecido cicatricial fibroso. Deve-se a uma agressão persistente, infecciosa, tóxica ou metabólica, que produz perda progressiva das células funcionalmente ativas. Leva progressivamente à perda funcional do órgão.
5 Esteatose: Degenerescência gordurosa de um tecido.
6 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
7 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
8 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
9 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
10 Hepatite: Inflamação do fígado, caracterizada por coloração amarela da pele e mucosas (icterícia), dor na região superior direita do abdome, cansaço generalizado, aumento do tamanho do fígado, etc. Pode ser produzida por múltiplas causas como infecções virais, toxicidade por drogas, doenças imunológicas, etc.
Gostou do artigo? Compartilhe!