Gostou do artigo? Compartilhe!

Tratamento com lítio foi associado a um menor risco de desenvolver Alzheimer e demência vascular

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

O tratamento com lítio pode ser protetor contra a demência1 e seus subtipos, indicou um estudo de coorte2 retrospectivo3.

Entre os pacientes que receberam cuidados de saúde4 mental, aqueles expostos ao lítio em dosagens clínicas padrão tiveram um risco 44% menor de receber um diagnóstico5 de demência1 versus aqueles não expostos em um acompanhamento médio de 4,8 anos, relataram Shanquan Chen, PhD, da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e colegas no estudo publicado na revista PLoS Medicine.

O uso de lítio foi associado a um risco significativamente reduzido para ambos os subtipos de demência1 considerados:

Os pesquisadores não mediram o risco para outros subtipos de demência1, como a demência1 por Corpos de Lewy ou a demência1 da doença de Parkinson8.

É importante notar que o uso de lítio foi protetor tanto com 1 ano ou menos de uso quanto com uso a longo prazo de 5 ou mais anos. No entanto, exposições de médio prazo – entre 1 e 5 anos de tratamento – não foram significativamente protetoras, embora o grupo de Chen tenha dito que isso provavelmente era apenas um efeito de ser estatisticamente fraco.

“O número de pessoas com demência1 continua a crescer, o que coloca uma enorme pressão nos sistemas de saúde”, explicou Chen em comunicado. “Estima-se que retardar o início da demência1 em apenas cinco anos poderia reduzir sua prevalência9 e impacto econômico em até 40%”.

Não surpreendentemente, 73% dos pacientes no grupo tratado com lítio apresentavam mania ou transtornos afetivos bipolares – uma das indicações mais comuns para o lítio. Por causa disso, os pesquisadores ajustaram para essa comorbidade10 comum, assim como depressão, idade, sexo, estado civil, etnia, tabagismo, transtornos alcoólicos, uso de antipsicóticos, hipertensão11, doença vascular7 central, diabetes mellitus12 e hiperlipidemia13.

“O transtorno bipolar e a depressão são considerados como fatores de risco aumentado de demência1, então tivemos que nos certificar de que isso fosse levado em conta em nossa análise”, observou Chen.

Saiba mais sobre "Transtorno bipolar do humor", "Doença de Alzheimer6" e "Demência1 vascular7".

No artigo publicado, os pesquisadores contextualizam como a demência1 é a principal causa de morte em populações ocidentais idosas. Intervenções preventivas que poderiam retardar o início da demência1, ainda que modestamente, teriam um grande impacto na saúde4 pública.

Não existem tratamentos modificadores da doença atualmente disponíveis. Mas o lítio foi proposto como um tratamento potencial. Assim, avaliaou-se a associação entre o uso de lítio e a incidência14 de demência1 e seus subtipos.

Foi realizado um estudo de coorte2 retrospectivo3 comparando pacientes tratados entre 1º de janeiro de 2005 e 31 de dezembro de 2019, usando dados de registros clínicos eletrônicos de serviços de saúde4 mental de atenção secundária do Cambridgeshire and Peterborough NHS Foundation Trust (CPFT), do Reino Unido (captação da população da área aproximadamente 0,86 milhões).

Os pacientes elegíveis foram aqueles com idade igual ou superior a 50 anos no início do estudo e que tiveram pelo menos 1 ano de acompanhamento, excluindo pacientes com diagnóstico5 de comprometimento cognitivo15 leve (CCL) ou demência1 antes ou menos de 1 ano após a data de início.

A intervenção foi o uso de lítio. Os principais desfechos foram demência1 e seus subtipos, diagnosticados e classificados de acordo com a Classificação Internacional de Doenças – 10ª Revisão (CID-10).

Nesta coorte16, 29.618 pacientes (dos quais 548 foram expostos ao lítio) foram incluídos. A média de idade foi de 73,9 anos. Um total de 40,2% eram do sexo masculino, 33,3% eram casados ou em união estável e 71,0% eram de etnia branca.

Os pacientes expostos ao lítio eram mais propensos a serem casados, coabitantes ou em união estável, serem fumantes/ex-fumantes, terem usado antipsicóticos e terem depressão comórbida, mania/transtorno afetivo bipolar (TABP), hipertensão11, doença vascular7 central, diabetes mellitus12 ou hiperlipidemias.

Nenhuma diferença significativa entre os 2 grupos foi observada para outras características, incluindo idade, sexo e transtornos relacionados ao álcool.

Na coorte16 exposta, 53 (9,7%) pacientes foram diagnosticados com demência1, incluindo 36 (6,8%) com doença de Alzheimer6 (DA) e 13 (2,6%) com demência1 vascular7 (DV). Na coorte16 não exposta, os números correspondentes foram os seguintes: demência1 3.244 (11,2%), DA 2.276 (8,1%) e DV 698 (2,6%).

Após o controle de fatores sociodemográficos, tabagismo, outros medicamentos, outras comorbidades17 mentais e comorbidades17 físicas, o uso de lítio foi associado a um menor risco de demência1 (razão de risco [HR] 0,56, intervalo de confiança [IC] de 95% 0,40 a 0,78), incluindo DA (HR 0,55, IC 95% 0,37 a 0,82) e DV (HR 0,36, IC 95% 0,19 a 0,69).

O lítio pareceu protetor em usuários de lítio de curto prazo (≤1 ano) e de longo prazo (>5 anos de exposição); a falta de diferença para durações intermediárias foi provavelmente devido à falta de potência, mas havia alguma evidência de benefício adicional com durações de exposição mais longas.

A principal limitação foi o manuseio do TABP, o motivo mais comum para prescrição de lítio, mas também um fator de risco18 para demência1. Esse potencial confundidor provavelmente causaria um aumento da demência1 no grupo exposto, enquanto encontrou-se o oposto, e a análise de sensibilidade confirmou os resultados primários. No entanto, a natureza específica do grupo de pacientes expostos ao lítio significa que é necessário cautela ao estender esses achados à população em geral.

Outra limitação é que o tamanho da amostra de pacientes em uso de lítio foi pequeno, refletido nos amplos ICs para resultados relacionados a algumas durações de exposição ao lítio, embora novamente as análises de sensibilidade tenham permanecido consistentes com os achados primários.

Observou-se, assim, uma associação entre o uso de lítio e a diminuição do risco de desenvolver demência1. Isso dá mais suporte à ideia de que o lítio pode ser um tratamento modificador da doença para a demência1 e que este é um tratamento promissor para levar adiante em ensaios clínicos19 randomizados maiores para essa indicação.

Leia sobre "Distúrbio neurocognitivo", "Transtornos afetivos", "Depressão maior" e "Saúde4 mental".

 

Fontes:
PLoS Medicine, publicação em 17 de março de 2022.
MedPage Today, notícia publicada em 17 de março de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Tratamento com lítio foi associado a um menor risco de desenvolver Alzheimer e demência vascular. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1414020/tratamento-com-litio-foi-associado-a-um-menor-risco-de-desenvolver-alzheimer-e-demencia-vascular.htm>. Acesso em: 2 jul. 2022.

Complementos

1 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
2 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
3 Retrospectivo: Relativo a fatos passados, que se volta para o passado.
4 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
5 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
6 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
7 Vascular: Relativo aos vasos sanguíneos do organismo.
8 Doença de Parkinson: Doença degenerativa que afeta uma região específica do cérebro (gânglios da base), e caracteriza-se por tremores em repouso, rigidez ao realizar movimentos, falta de expressão facial e, em casos avançados, demência. Os sintomas podem ser aliviados por medicamentos adequados, mas ainda não se conhece, até o momento, uma cura definitiva.
9 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
10 Comorbidade: Coexistência de transtornos ou doenças.
11 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
12 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
13 Hiperlipidemia: Condição em que os níveis de gorduras e colesterol estão mais altos que o normal.
14 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
15 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
16 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
17 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
18 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
19 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
Gostou do artigo? Compartilhe!