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Pacientes com câncer correm alto risco de depressão e suicídio, segundo estudos

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Dois novos estudos com milhões de pessoas em todo o mundo quantificam o fardo psicológico do câncer1 em detalhes e sugerem que os médicos deveriam pensar mais sobre a saúde2 mental dos pacientes com câncer1, disseram especialistas.

“Provavelmente, podemos prevenir o suicídio se falarmos sobre isso e se realmente começarmos tão cedo”, disse Seliger-Behme, neurologista3 da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Em um dos novos estudos, publicado na revista Nature Medicine, ela e vários colegas revisaram 28 estudos que incluíram mais de 22 milhões de pacientes com câncer1 em todo o mundo. Sua análise mostrou que a taxa de suicídio foi 85% maior para pessoas com câncer1 do que na população em geral. Previsivelmente, os cânceres com os melhores prognósticos – incluindo próstata4, melanoma5 não metastático e câncer1 testicular – tiveram as menores taxas de suicídio, enquanto aqueles com os piores prognósticos, como câncer1 de estômago6 e pâncreas7, tiveram as maiores taxas de suicídio, cerca de 3,5 vezes maior em comparação com a população em geral.

No segundo novo estudo, também publicado na Nature Medicine, Alvina Lai, que estuda informática na University College London, e um colega criaram um grande banco de dados, coletado dos registros de saúde2 de cerca de 460.000 pessoas com 26 tipos de câncer1 diferentes diagnosticadas entre 1998 e 2020 na Grã-Bretanha.

Cinco por cento dos pacientes foram diagnosticados com depressão após o diagnóstico8 de câncer1, e o mesmo aconteceu com a ansiedade. Cerca de um por cento do grupo se automutilou após o diagnóstico8. Pacientes com tumores cerebrais, câncer1 de próstata4, linfoma9 de Hodgkin, câncer1 testicular e melanoma5 eram mais propensos a se machucar.

Cerca de um quarto dos pacientes com câncer1 tinham transtorno de abuso de substâncias, segundo o estudo. E problemas psiquiátricos, incluindo abuso de substâncias, tendem a aumentar ao longo do tempo, mesmo anos após o diagnóstico8.

A análise mostrou que o maior fator de risco10 para o desenvolvimento de uma condição de saúde2 mental foi o tratamento envolvendo cirurgia, radioterapia11 e quimioterapia12. A duração, a intensidade e os efeitos colaterais13 cumulativos dessa abordagem de tripla ameaça para o tratamento do câncer1 podem explicar por que ela desencadeia depressão, ansiedade e até transtornos de personalidade em muitas pessoas.

Leia sobre "Câncer1 - informações importantes", "Saúde2 mental - o que é" e "Prevenção ao suicídio".

Risco de suicídio e mortalidade14 em pacientes com câncer1

No primeiro estudo, os pesquisadores contextualizam que, apesar do progresso substancial na terapia do câncer1 nas últimas décadas, os pacientes com câncer1 permanecem em alto risco de suicídio. Os dados de estudos individuais não foram quantificados de forma abrangente e os fatores de risco específicos são mal definidos. Nesse contexto, eles avaliaram o risco de mortalidade14 por suicídio de acordo com o prognóstico15 do câncer1, estágio, tempo de diagnóstico8, sexo, etnia, estado civil, ano de recrutamento e região geográfica.

Foram pesquisados artigos relevantes até fevereiro de 2021 nas bases de dados EMBASE, MEDLINE, PsycINFO, Web of Science, CINAHL e Google Scholar. Usou-se um modelo de efeitos aleatórios, realizou-se metanálise de meta-regressão e avaliou-se heterogeneidade e viés de publicação usando I², gráficos de funil e Testes de Egger e Begg.

Foi realizada uma revisão sistemática incluindo 62 estudos e 46.952.813 pacientes. Para evitar a sobreposição da amostra de pacientes, a metanálise foi realizada em 28 estudos, envolvendo 22.407.690 pacientes com câncer1.

A mortalidade14 por suicídio aumentou significativamente em comparação com a população geral (razão de mortalidade14 padronizada = 1,85, intervalo de confiança de 95% = 1,55-2,20). O risco foi fortemente relacionado ao prognóstico15 do câncer1, estágio do câncer1, tempo de diagnóstico8 e região geográfica.

O estudo concluiu que pacientes com câncer1, particularmente aqueles com fatores de risco específicos, devem ser monitorados de perto para suicídio e precisam de cuidados especializados para reduzir os riscos de suicídio a curto e longo prazo.

Fardo cumulativo de transtornos psiquiátricos e automutilação em 26 cânceres adultos

No segundo estudo, os pesquisadores abordam como o câncer1 é um evento que altera a vida, causando considerável sofrimento psicológico. No entanto, as informações sobre o fardo total de transtornos psiquiátricos em todos os cânceres comuns em adultos e exposições terapêuticas permanecem escassas.

Neste estudo, estimou-se o risco de automutilação após diagnóstico8 de transtorno psiquiátrico incidente16 em pacientes com câncer1 e o risco de mortes não naturais após automutilação em 459.542 indivíduos.

A depressão foi o transtorno psiquiátrico mais comum em pacientes com câncer1. Os pacientes que receberam quimioterapia12, radioterapia11 e cirurgia tiveram o maior fardo cumulativo de transtornos psiquiátricos. Pacientes tratados com agentes quimioterápicos alquilantes tiveram o maior fardo de transtornos psiquiátricos, enquanto aqueles tratados com inibidores de quinase tiveram o menor fardo.

Todas as doenças mentais foram associadas a um risco aumentado de automutilação subsequente, onde o maior risco foi observado dentro de 12 meses após o diagnóstico8 da doença mental.

Os pacientes que se machucaram tiveram 6,8 vezes mais chances de morrer de causas não naturais de morte em comparação com os controles dentro de 12 meses de automutilação (razão de risco (HR), 6,8; intervalo de confiança (IC) de 95%, 4,3-10,7). O risco de morte não natural após 12 meses foi marcadamente menor (HR, 2,0; IC 95%, 1,5-2,7).

O estudo fornece uma extensa base de conhecimento para ajudar a informar iniciativas colaborativas de cuidados psiquiátricos de câncer1, priorizando os pacientes que estão em maior risco.

Veja também sobre "Principais transtornos mentais", "Automutilação", "Quimioterapia12" e "Radioterapia11".

 

Fontes:
Nature Medicine, publicação em 28 de março de 2022.
Nature Medicine, publicação em 28 de março de 2022.
The New York Times, notícia publicada em 28 de março de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Pacientes com câncer correm alto risco de depressão e suicídio, segundo estudos. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1413515/pacientes-com-cancer-correm-alto-risco-de-depressao-e-suicidio-segundo-estudos.htm>. Acesso em: 2 jul. 2022.

Complementos

1 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
2 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
3 Neurologista: Médico especializado em problemas do sistema nervoso.
4 Próstata: Glândula que (nos machos) circunda o colo da BEXIGA e da URETRA. Secreta uma substância que liquefaz o sêmem coagulado. Está situada na cavidade pélvica (atrás da parte inferior da SÍNFISE PÚBICA, acima da camada profunda do ligamento triangular) e está assentada sobre o RETO.
5 Melanoma: Neoplasia maligna que deriva dos melanócitos (as células responsáveis pela produção do principal pigmento cutâneo). Mais freqüente em pessoas de pele clara e exposta ao sol.Podem derivar de manchas prévias que mudam de cor ou sangram por traumatismos mínimos, ou instalar-se em pele previamente sã.
6 Estômago: Órgão da digestão, localizado no quadrante superior esquerdo do abdome, entre o final do ESÔFAGO e o início do DUODENO.
7 Pâncreas: Órgão nodular (no ABDOME) que abriga GLÂNDULAS ENDÓCRINAS e GLÂNDULAS EXÓCRINAS. A pequena porção endócrina é composta pelas ILHOTAS DE LANGERHANS, que secretam vários hormônios na corrente sangüínea. A grande porção exócrina (PÂNCREAS EXÓCRINO) é uma glândula acinar composta, que secreta várias enzimas digestivas no sistema de ductos pancreáticos (que desemboca no DUODENO).
8 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
9 Linfoma: Doença maligna que se caracteriza pela proliferação descontrolada de linfócitos ou seus precursores. A pessoa com linfoma pode apresentar um aumento de tamanho dos gânglios linfáticos, do baço, do fígado e desenvolver febre, perda de peso e debilidade geral.
10 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
11 Radioterapia: Método que utiliza diversos tipos de radiação ionizante para tratamento de doenças oncológicas.
12 Quimioterapia: Método que utiliza compostos químicos, chamados quimioterápicos, no tratamento de doenças causadas por agentes biológicos. Quando aplicada ao câncer, a quimioterapia é chamada de quimioterapia antineoplásica ou quimioterapia antiblástica.
13 Efeitos colaterais: 1. Ação não esperada de um medicamento. Ou seja, significa a ação sobre alguma parte do organismo diferente daquela que precisa ser tratada pelo medicamento. 2. Possível reação que pode ocorrer durante o uso do medicamento, podendo ser benéfica ou maléfica.
14 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
15 Prognóstico: 1. Juízo médico, baseado no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, em relação à duração, à evolução e ao termo de uma doença. Em medicina, predição do curso ou do resultado provável de uma doença; prognose. 2. Predição, presságio, profecia relativos a qualquer assunto. 3. Relativo a prognose. 4. Que traça o provável desenvolvimento futuro ou o resultado de um processo. 5. Que pode indicar acontecimentos futuros (diz-se de sinal, sintoma, indício, etc.). 6. No uso pejorativo, pernóstico, doutoral, professoral; prognóstico.
16 Incidente: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
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