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A menopausa afeta a estrutura do cérebro humano, a conectividade, o metabolismo energético e a deposição de beta-amiloide

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Novo estudo explorou como a menopausa1 muda o cérebro2 das mulheres. Essa compreensão pode acabar sendo uma janela crucial para tentar prevenir o mal de Alzheimer3 e outras doenças crônicas que geralmente acompanham a idade avançada.

Durante a menopausa1, que marca o fim dos ciclos menstruais da mulher, seus ovários4 param de produzir os hormônios estrogênio e progesterona, encerrando seus anos naturais de procriação. Mas esses hormônios também regulam o funcionamento do cérebro2, e o cérebro2 rege sua liberação – o que significa que a menopausa1 também é um processo neurológico.

“Muitos dos sintomas5 da menopausa1 não podem ser produzidos diretamente pelos ovários4, se você pensar nas ondas de calor, nos suores noturnos, na ansiedade, na depressão, na insônia, na névoa cerebral”, diz Lisa Mosconi, professora associada de neurologia na Weill Cornell Medicine e diretora da Women's Brain Initiative. “Esses são sintomas5 cerebrais, e devemos olhar para o cérebro2 como algo que é afetado pela menopausa1 pelo menos tanto quanto os ovários4.”

Leia sobre "Menopausa1", "Climatério6 e menopausa1: como são" e "Mal de Alzheimer3 - como ele é".

Em junho, Mosconi e seus colegas publicaram na revista Scientific Reports um dos poucos estudos a observar em detalhes o que acontece com o cérebro2 durante a transição da menopausa1, não apenas antes e depois.

Usando várias técnicas de neuroimagem, eles escanearam os cérebros de mais de 160 mulheres com idades entre 40 e 65 anos que estavam em diferentes estágios da transição para examinar a estrutura do órgão, fluxo sanguíneo, metabolismo7 e função; eles fizeram muitas das mesmas varreduras dois anos depois. Eles também fizeram imagens de cérebros de homens na mesma faixa etária.

“O que descobrimos nas mulheres e não nos homens é que o cérebro2 muda bastante”, diz Mosconi. “A transição da menopausa1 realmente leva a uma remodelação completa.”

Todas as mulheres passam pela transição da menopausa1 (TM), um processo neuroendócrino que impacta as trajetórias de envelhecimento de vários sistemas orgânicos, incluindo o cérebro2.

A TM ocorre ao longo do tempo e é caracterizada por estágios clinicamente definidos com sintomas5 neurológicos específicos. No entanto, pouco se sabe sobre como esse processo afeta o cérebro2 humano.

Neste contexto, este estudo de neuroimagem multimodal indica diferenças substanciais na estrutura do cérebro2, conectividade e metabolismo7 energético em todos os estágios de TM (pré-menopausa1, peri-menopausa1 e pós-menopausa1).

Esses efeitos envolviam regiões cerebrais que atendiam a processos cognitivos8 de ordem superior e eram específicos para o envelhecimento endócrino9 da menopausa1, e não para o envelhecimento cronológico, conforme determinado por comparação com homens da mesma idade.

Os biomarcadores cerebrais se estabilizaram amplamente na pós-menopausa1 e o volume da substância cinzenta (VSC) foi recuperado em regiões cerebrais essenciais para o envelhecimento cognitivo10. Notavelmente, a recuperação do VSC e a produção de ATP11 da mitocôndria12 cerebral in vivo se correlacionaram com a preservação do desempenho cognitivo13 pós-menopausa1, sugerindo processos compensatórios adaptativos.

Em paralelo ao processo adaptativo, a deposição de β-amiloide foi mais pronunciada em mulheres na peri-menopausa1 e na pós-menopausa1 portadoras do genótipo14 da apolipoproteína E-4 (APOE-4), o principal fator de risco15 genético para a doença de Alzheimer16 de início tardio, em relação aos homens de genótipo14 compatível.

Esses dados mostram que a menopausa1 humana é uma transição neurológica dinâmica que impacta significativamente a estrutura do cérebro2, a conectividade e o perfil metabólico durante o envelhecimento endócrino9 do cérebro2 feminino na meia-idade.

Veja também sobre "Envelhecimento saudável", "O processo de envelhecimento" e "Envelhecimento cerebral normal ou patológico".

 

Fontes:
Scientific Reports, publicação em 09 de junho de 2021.
The New York Times, notícia publicada em 21 de julho de 2021.

 

 

NEWS.MED.BR, 2021. A menopausa afeta a estrutura do cérebro humano, a conectividade, o metabolismo energético e a deposição de beta-amiloide. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1399225/a-menopausa-afeta-a-estrutura-do-cerebro-humano-a-conectividade-o-metabolismo-energetico-e-a-deposicao-de-beta-amiloide.htm>. Acesso em: 18 out. 2021.

Complementos

1 Menopausa: Estado fisiológico caracterizado pela interrupção dos ciclos menstruais normais, acompanhada de alterações hormonais em mulheres após os 45 anos.
2 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
3 Alzheimer: Doença degenerativa crônica que produz uma deterioração insidiosa e progressiva das funções intelectuais superiores. É uma das causas mais freqüentes de demência. Geralmente começa a partir dos 50 anos de idade e tem incidência similar entre homens e mulheres.
4 Ovários: São órgãos pares com aproximadamente 3cm de comprimento, 2cm de largura e 1,5cm de espessura cada um. Eles estão presos ao útero e à cavidade pelvina por meio de ligamentos. Na puberdade, os ovários começam a secretar os hormônios sexuais, estrógeno e progesterona. As células dos folículos maduros secretam estrógeno, enquanto o corpo lúteo produz grandes quantidades de progesterona e pouco estrógeno.
5 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
6 Climatério: Conjunto de mudanças adaptativas que são produzidas na mulher como conseqüência do declínio da função ovariana na menopausa. Consiste em aumento de peso, “calores” freqüentes, alterações da distribuição dos pêlos corporais, dispareunia.
7 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
8 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
9 Endócrino: Relativo a ou próprio de glândula, especialmente de secreção interna; endocrínico.
10 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
11 ATP: Adenosina Trifosfato (ATP) é nucleotídeo responsável pelo armazenamento de energia. Ela é composta pela adenina (base azotada), uma ribose (açúcar com cinco carbonos) e três grupos de fosfato conectados em cadeia. A energia é armazenada nas ligações entre os fosfatos. O ATP armazena energia proveniente da respiração celular e da fotossíntese, para consumo imediato, não podendo ser estocada. A energia pode ser utilizada em diversos processos biológicos, tais como o transporte ativo de moléculas, síntese e secreção de substâncias, locomoção e divisão celular, dentre outros.
12 Mitocôndria: Organelas semi-autônomas que se auto-reproduzem, encontradas na maioria do citoplasma de todas as células, mas não de todos os eucariotos. Cada mitocôndria é envolvida por uma membrana dupla limitante. A membrana interna é altamente invaginada e suas projeções são denominadas cristas. As mitocôndrias são os locais das reações de fosforilação oxidativa, que resultam na formação de ATP. Elas contêm RIBOSSOMOS característicos, RNA DE TRANSFERÊNCIA, AMINOACIL-T RNA SINTASES e fatores de alongação e terminação. A mitocôndria depende dos genes contidos no núcleo das células no qual se encontram muitos RNAs mensageiros essenciais (RNA MENSAGEIRO). Acredita-se que a mitocôndria tenha se originado a partir de bactérias aeróbicas que estabeleceram uma relação simbiótica com os protoeucariotos primitivos.
13 Desempenho cognitivo: Desempenho dos processos de aprendizagem e de aquisição de conhecimento através da percepção.
14 Genótipo: Composição genética de um indivíduo, ou seja, os genes que ele tem.
15 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
16 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
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