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76% dos pacientes que tiveram COVID-19 relataram pelo menos um sintoma 6 meses após as primeiras manifestações da doença

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As consequências da COVID-19 para a saúde1 a longo prazo permanecem pouco claras. O objetivo desta pesquisa, publicada pelo The Lancet, foi descrever as consequências a longo prazo para a saúde1 de pacientes com COVID-19 que receberam alta hospitalar e investigar os fatores de risco associados, em particular a gravidade da doença.

Até onde se sabe, este estudo é o maior estudo de coorte2 (n = 1.733) com a maior duração de acompanhamento para as consequências em pacientes adultos que receberam alta hospitalar em recuperação de COVID-19. Os resultados mostraram que 76% dos pacientes relataram pelo menos um sintoma3 6 meses após o início dos sintomas4, e a proporção foi maior nas mulheres.

O estudo de coorte2 ambidirecional foi realizado com pacientes com COVID-19 confirmada que receberam alta do Hospital Jin Yin-tan (Wuhan, China) entre 7 de janeiro de 2020 e 29 de maio de 2020.

Leia sobre "Coronavírus: como é" e "Inflamassomas estão associados à gravidade da COVID-19".

Pacientes que morreram antes do acompanhamento, pacientes para quem o acompanhamento seria difícil por causa de transtornos psicóticos, demência5 ou readmissão ao hospital, aqueles que foram incapazes de se mover livremente devido a osteoartropatia concomitante ou imóveis antes ou após a alta devido a doenças como acidente vascular cerebral6 ou embolia7 pulmonar, aqueles que recusaram-se a participar, aqueles que não puderam ser contatados e aqueles que viviam fora de Wuhan ou em casas de repouso ou assistência social foram todos excluídos.

Todos os pacientes foram entrevistados com uma série de questionários para avaliação dos sintomas4 e da qualidade de vida relacionada à saúde1 e foram submetidos a exame físico e teste de caminhada de 6 minutos, além de exames de sangue8.

Um procedimento de amostragem estratificada foi usado para amostrar os pacientes de acordo com sua escala de sete categorias mais alta durante sua internação como 3, 4 e 5–6, para receber teste de função pulmonar, tomografia computadorizada9 (TC) de alta resolução do tórax10 e ultrassonografia11.

Os pacientes inscritos que participaram do Ensaio de Lopinavir para Supressão de SARS-CoV-2 na China receberam testes de anticorpos12 contra coronavírus 2 da síndrome13 respiratória aguda grave. Modelos de regressão linear ou logística ajustados multivariados foram usados ​​para avaliar a associação entre a gravidade da doença e as consequências para a saúde1 a longo prazo.

No total, 1.733 de 2.469 pacientes que receberam alta com COVID-19 foram inscritos após 736 serem excluídos. Os pacientes tinham uma idade mediana de 57,0 (IIQ 47,0–65,0) anos e 897 (52%) eram homens. O estudo de acompanhamento foi realizado de 16 de junho a 3 de setembro de 2020, e o tempo médio de acompanhamento após o início dos sintomas4 foi de 186,0 (175,0–199,0) dias.

Fadiga14 ou fraqueza muscular (63%, 1.038 de 1.655) e dificuldades para dormir (26%, 437 de 1.655) foram os sintomas4 mais comuns. Ansiedade ou depressão foi relatada entre 23% (367 de 1.617) dos pacientes.

As proporções da distância média de caminhada de 6 minutos menor que o limite inferior da faixa normal foram de 24% para aqueles na escala de gravidade 3, 22% para a escala de gravidade 4 e 29% para a escala de gravidade 5-6.

As proporções correspondentes de pacientes com comprometimento no processo de difusão (o que significa fluxo reduzido de oxigênio dos pulmões15 para a corrente sanguínea) foram de 22% para a escala de gravidade 3, 29% para a escala 4 e 56% para a escala 5-6, e as pontuações médias da TC foram de 3,0 (IIQ 2,0–5,0) para escala de gravidade 3, 4,0 (3,0–5,0) para a escala 4 e 5,0 (4,0–6,0) para a escala 5–6.

Após o ajuste multivariável, os pacientes apresentaram um odds ratio (OR) 1,61 (IC 95% 0,80–3,25) para a escala 4 versus a escala 3 e 4,60 (1,85–11,48) para a escala 5–6 versus escala 3 para comprometimento da difusão; OR 0,88 (0,66-1,17) para a escala 4 versus escala 3 e OR 1,77 (1,05–2,97) para a escala 5–6 versus escala 3 para ansiedade ou depressão; e OR 0,74 (0,58–0,96) para escala 4 versus escala 3 e 2,69 (1,46–4,96) para escala 5–6 versus escala 3 para fadiga14 ou fraqueza muscular.

De 94 pacientes com anticorpos12 sanguíneos testados no acompanhamento, a soropositividade (96,2% vs 58,5%) e as concentrações médias (19,0 vs 10,0) dos anticorpos12 neutralizantes foram significativamente menores em comparação com na fase aguda.

107 de 822 participantes sem lesão16 renal17 aguda e com taxa de filtração glomerular estimada (eTFG) de 90 mL/min por 1,73 m² ou mais na fase aguda tinham eTFG inferior a 90 mL/min por 1,73 m² no acompanhamento.

O estudo concluiu que aos 6 meses após a infecção18 aguda, os sobreviventes de COVID-19 apresentavam principalmente fadiga14 ou fraqueza muscular, dificuldades para dormir e ansiedade ou depressão. Os pacientes que estavam mais gravemente enfermos durante sua internação hospitalar tiveram comprometimento da capacidade de difusão pulmonar mais grave e manifestações anormais de imagem do tórax10, e são a principal população-alvo para intervenção de recuperação em longo prazo.

O declínio dos anticorpos12 neutralizantes aumenta a preocupação com a reinfecção pelo SARS-CoV-2. O risco de reinfecção deve ser monitorado em pacientes que apresentam novos sintomas4 de COVID-19.

Veja também sobre "Associações bidirecionais entre COVID-19 e transtorno psiquiátrico", "Astenia19" e "Saturação de oxigênio".

 

Fonte: The Lancet, publicação em 08 de janeiro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. 76% dos pacientes que tiveram COVID-19 relataram pelo menos um sintoma 6 meses após as primeiras manifestações da doença. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1386045/76-dos-pacientes-que-tiveram-covid-19-relataram-pelo-menos-um-sintoma-6-meses-apos-as-primeiras-manifestacoes-da-doenca.htm>. Acesso em: 13 jun. 2021.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
3 Sintoma: Qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. O sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
5 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
6 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
7 Embolia: Impactação de uma substância sólida (trombo, colesterol, vegetação, inóculo bacteriano), líquida ou gasosa (embolia gasosa) em uma região do circuito arterial com a conseqüente obstrução do fluxo e isquemia.
8 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
9 Tomografia computadorizada: Exame capaz de obter imagens em tons de cinza de “fatias” de partes do corpo ou de órgãos selecionados, as quais são geradas pelo processamento por um computador de uma sucessão de imagens de raios X de alta resolução em diversos segmentos sucessivos de partes do corpo ou de órgãos.
10 Tórax: Parte superior do tronco entre o PESCOÇO e o ABDOME; contém os principais órgãos dos sistemas circulatório e respiratório. (Tradução livre do original Sinônimos: Peito; Caixa Torácica
11 Ultrassonografia: Ultrassonografia ou ecografia é um exame complementar que usa o eco produzido pelo som para observar em tempo real as reflexões produzidas pelas estruturas internas do organismo (órgãos internos). Os aparelhos de ultrassonografia utilizam uma frequência variada, indo de 2 até 14 MHz, emitindo através de uma fonte de cristal que fica em contato com a pele e recebendo os ecos gerados, os quais são interpretados através de computação gráfica.
12 Anticorpos: Proteínas produzidas pelo organismo para se proteger de substâncias estranhas como bactérias ou vírus. As pessoas que têm diabetes tipo 1 produzem anticorpos que destroem as células beta produtoras de insulina do próprio organismo.
13 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
14 Fadiga: 1. Sensação de enfraquecimento resultante de esforço físico. 2. Trabalho cansativo. 3. Redução gradual da resistência de um material ou da sensibilidade de um equipamento devido ao uso continuado.
15 Pulmões: Órgãos do sistema respiratório situados na cavidade torácica e responsáveis pelas trocas gasosas entre o ambiente e o sangue. São em número de dois, possuem forma piramidal, têm consistência esponjosa e medem cerca de 25 cm de comprimento. Os pulmões humanos são divididos em segmentos denominados lobos. O pulmão esquerdo possui dois lobos e o direito possui três. Os pulmões são compostos de brônquios que se dividem em bronquíolos e alvéolos pulmonares. Nos alvéolos se dão as trocas gasosas ou hematose pulmonar entre o meio ambiente e o corpo, com a entrada de oxigênio na hemoglobina do sangue (formando a oxiemoglobina) e saída do gás carbônico ou dióxido de carbono (que vem da célula como carboemoglobina) dos capilares para o alvéolo.
16 Lesão: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
17 Renal: Relacionado aos rins. Uma doença renal é uma doença dos rins. Insuficiência renal significa que os rins pararam de funcionar.
18 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
19 Astenia: Sensação de fraqueza, sem perda real da capacidade muscular.
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