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Tempo de tela e depressão na adolescência: avaliação de um estudo publicado pelo JAMA Pediatrics

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O uso de mídia social e televisão por adolescentes pode aumentar os sintomas1 de depressão e, portanto, deve ser levado em consideração ao se desenvolver métodos preventivos. Estas são as conclusões de um estudo de coorte2 realizado por pesquisadores do Departmento de Psiquiatria da Universdade de Montreal, no Canadá, do CHU Sainte-Justine Research Center, também em Montreal e da University of New South Wales Sydney, em Sydney, na Austrália.

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Os aumentos no tempo de tela foram associados ao aumento dos sintomas1 depressivos. No entanto, faltam estudos longitudinais para abordar melhor o tema.

Neste estudo, o objetivo foi medir repetidamente a associação entre tempo de tela e sinomas de depressão para testar três hipóteses explicativas: deslocamento, comparação social ascendente e espirais de reforço.

Esta análise secundária utilizou dados de um ensaio clínico randomizado3 avaliando a eficácia de 4 anos de uma intervenção de prevenção direcionada à personalidade e ao uso de álcool. Este estudo avaliou o tempo de tela e depressão ao longo de 4 anos, usando uma pesquisa anual em uma amostra de adolescentes que entraram na sétima série em 31 escolas na área da Grande Montreal. Os dados foram coletados de setembro de 2012 a setembro de 2018. A análise começou e terminou em dezembro de 2018.

As variáveis independentes foram uso de mídias sociais, televisão, videogames e computadores. O resultado foi os sintomas1 de depressão, medidos usando o inventário Brief Symptoms Inventory. O exercício físico e a autoestima foram avaliados para testar a hipótese de deslocamento e comparação social ascendente.

Um total de 3.826 adolescentes (1.798 meninas [47%]; idade média [SD], 12,7 [0,5] anos) foram incluídos. Em geral, os sintomas1 de depressão aumentam anualmente (média do ano 1 [SD], 4,29 [5,10] pontos; média do ano 4 [SD], 5,45 [5,93] pontos). Modelos multiníveis, que incluíam interceptações aleatórias no nível escolar e individual, estimaram associações entre pessoas e intrapessoais entre tempo de tela e depressão.

Associações significativas entre pessoas mostraram que, para cada hora a mais gasta com mídias sociais, os adolescentes apresentaram um aumento de 0,64 unidades nos sintomas1 depressivos (IC 95%, 0,32-0,51). Associações similares entre níveis foram relatadas para uso de computador (0,69; IC 95%, 0,47-0,91).

Associações intrapessoais significantes revelaram que um aumento adicional de 1 hora no uso de mídias sociais em um dado ano foi associado a um aumento adicional de 0,41 em sintomas1 depressivos no mesmo ano. Uma associação semelhante intrapessoal foi encontrada para a televisão (0,18; IC 95%, 0,09-0,27).

Associações significativas entre pessoas e intrapessoais entre tempo de tela e exercício físico e autoestima apoiaram a comparação social ascendente e não a hipótese de deslocamento. Além disso, uma interação significativa entre as associações entre pessoas e intrapessoais, no que diz respeito às mídias sociais e à autoestima, apoiou a hipótese de espirais de reforço.

Concluiu-se que há associações variáveis no tempo entre mídias sociais, televisão e depressão, que pareciam ser mais explicadas pela comparação social ascendente e pelas hipóteses de reforço de espirais do que pela hipótese de deslocamento.

Ambos os modos de tempo de tela devem ser levados em consideração ao desenvolver medidas preventivas e no aconselhamento aos pais.

Leia também sobre "Depressão bipolar e unipolar", "Diferenças entre as depressões típica e atípica", "Crises da adolescência" e "Crianças e adolescentes e as mídias digitais".

 

Fonte: JAMA Pediatrics, publicação online em 15 de julho de 2019

 

NEWS.MED.BR, 2019. Tempo de tela e depressão na adolescência: avaliação de um estudo publicado pelo JAMA Pediatrics. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1341858/tempo-de-tela-e-depressao-na-adolescencia-avaliacao-de-um-estudo-publicado-pelo-jama-pediatrics.htm>. Acesso em: 18 out. 2019.

Complementos

1 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
2 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
3 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
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