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Pacientes em remissão de depressão mostram melhorias na memória e na motivação com o uso do medicamento modafinil

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Modafinil, um medicamento usado para tratar a narcolepsia - sonolência diurna excessiva - pode melhorar a memória em pacientes que estão se recuperando de depressão, de acordo com uma nova pesquisa da Universidade de Cambridge. Os resultados, publicados na revista Biological Psychiatry: CNNI, são de um estudo randomizado1, duplo-cego, controlado por placebo2 e oferecem esperança de tratamento para alguns dos sintomas3 cognitivos4 associados à depressão.

Saiba mais sobre "Depressões" e "Narcolepsia".

Clínicos gerais e psiquiatras muitas vezes ouvem queixas sobre falta de concentração ou dificuldade de memória de pacientes com depressão, mas não conseguem bons resultados com o tratamento destes sintomas3.

A depressão é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Sintomas3 como dificuldade de concentração ou indecisão contribuem para esta incapacidade associada à depressão. Quase todos os pacientes com depressão apresentam problemas de concentração, memória e atenção. Pelo menos metade de todos os pacientes com depressão apresenta déficits cognitivos4 que podem ser medidos objetivamente. Estes déficits tendem a persistir na fase de recuperação. Pacientes com problemas cognitivos4 persistentes têm piores resultados, como dificuldades no trabalho e aumento do risco de recaídas.

A depressão está associada tanto a afastamentos do trabalho, como ao “Presenteeism” ou presentismo5, no qual os funcionários podem não ser capazes de trabalhar tão bem como de costume. Após uma depressão, certas pessoas se sentem angustiadas quando têm dificuldades em atingir o seu nível anterior de desempenho no trabalho quando retornam às suas atividades. No entanto, os tratamentos atualmente disponíveis não abordam especificamente os déficits cognitivos4 da depressão. Relatórios recentes têm destacado a importância de definir a cognição6 como um alvo para o tratamento na depressão.

Em um estudo financiado pelo Medical Research Council (MRC) e Wellcome, pesquisadores do Department of Psychiatry and the Behavioural and Clinical Neuroscience Institute, da Universidade de Cambridge, investigaram o potencial do modafinil para tratar a disfunção cognitiva7 na depressão. O modafinil já mostrou em outros estudos ter efeitos benéficos sobre a função cognitiva7 em distúrbios psiquiátricos, tais como a esquizofrenia8.

Leia sobre "Depressão maior" e "Esquizofrenia8".

Sessenta pacientes, com idade entre 18 e 65 anos, com depressão em remissão, completaram tarefas de memória, atenção e planejamento em computador após receber modafinil ou placebo2. Os resultados mostraram que os doentes que receberam uma dose de modafinil apresentaram melhorias nas funções de memória, em comparação com os doentes tratados com placebo2. Especificamente, os pacientes tiveram benefícios em dois tipos de memória - memória episódica e memória de trabalho9, que são importantes em nossas atividades do dia-a-dia.

A memória episódica é usada quando estamos lembrando onde deixamos as chaves de casa ou onde estacionamos o carro, já a memória de trabalho9 é a habilidade que usamos quando estamos “guardando na cabeça” um novo número de telefone enquanto tentamos encontrar uma caneta e um papel para anotá-lo, por exemplo.

O estudo demonstrou que os pacientes que receberam modafinil erraram menos do que aqueles que receberam um placebo2. Por exemplo, em uma das tarefas que envolveu lembrar a localização entre um número crescente de caixas de um padrão particular, os pacientes que receberam modafinil tiveram menos da metade do número de erros do que os que receberam o placebo2, no nível mais difícil.

Este estudo mostra que o modafinil pode ser uma opção viável para lidar com persistentes problemas cognitivos4 na depressão. Os pesquisadores afirmam que não ficou claro a partir do estudo se os mesmos efeitos seriam vistos a longo prazo, o que exige que novos trabalhos sejam realizados para ver se a medicação que melhora a cognição6 e a motivação pode facilitar o retorno ao trabalho com sucesso após a depressão.

Veja também:

 

Fonte: University of Cambridge, de 17 de janeiro de 2017

 

NEWS.MED.BR, 2017. Pacientes em remissão de depressão mostram melhorias na memória e na motivação com o uso do medicamento modafinil. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1287088/pacientes-em-remissao-de-depressao-mostram-melhorias-na-memoria-e-na-motivacao-com-o-uso-do-medicamento-modafinil.htm>. Acesso em: 17 set. 2019.

Complementos

1 Estudo randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle - o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
2 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
5 Presentismo: É permanecer trabalhando enquanto doente, o que pode causar perda de produtividade, danos à saúde, exaustão e epidemias no local de trabalho.
6 Cognição: É o conjunto dos processos mentais usados no pensamento, percepção, classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas.
7 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
8 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
9 Memória de trabalho: Atua no momento em que a informação está sendo adquirida, retendo a informação por alguns segundos e, então, a destinando a ser guardada por períodos mais longos ou a ser descartada. A memória de trabalho pode, ainda, armazenar dados por via inconsciente. Difere da memória de curto prazo pois esta trabalha com as informações por algumas horas até que sejam gravadas de forma definitiva.
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