O que há de novo em endocrinologia e metabologia: confira os principais avanços divulgados nos últimos meses
Os últimos meses consolidaram uma fase especialmente dinâmica na endocrinologia e metabologia, com resultados de ensaios clínicos1 de grande porte e mudanças relevantes em recomendações clínicas. Em paralelo à evolução acelerada da farmacoterapia para obesidade2 e diabetes3 (incluindo novas opções orais e combinações), ganham força abordagens que ampliam o cuidado cardiometabólico para além da glicemia4, com foco em risco cardiovascular, doença hepática5 metabólica e desfechos centrados no paciente.
Também se destacam avanços em tecnologia para diabetes3 (com dados randomizados de sistemas automatizados em diabetes tipo 26), além de marcos regulatórios e clínicos em prevenção de progressão do diabetes tipo 17 e atualizações de diretrizes em áreas clássicas da especialidade, como câncer8 diferenciado de tireoide9.
Confira a seguir os principais destaques em endocrinologia e metabologia dos últimos meses.
- Atualização das diretrizes Standards of Care in Diabetes3 – 2026 da ADA
- Administração automatizada de insulina10 no diabetes tipo 26
- EMA recomenda teplizumabe para retardar o início do diabetes tipo 17
- Estudo OASIS: semaglutida oral 25 mg para obesidade2 e a “era das opções orais”
- Estudo SOUL: semaglutida oral e desfechos cardiovasculares no diabetes tipo 26
- Orforglipron e a nova geração de agonistas orais de GLP-1
- Tirzepatida versus semaglutida: comparações diretas e o refinamento da estratégia antiobesidade
- Semaglutida na esteato hepatite11 associada à disfunção metabólica (MASH)
- Insulinas semanais: evidência clínica avança com efsitora alfa
- Diretrizes ATA 2025 para câncer8 diferenciado de tireoide9
Atualização das diretrizes Standards of Care in Diabetes3 – 2026 da ADA
A American Diabetes3 Association (ADA) publicou a atualização anual dos “Standards of Care in Diabetes3 – 2026”[1] (padrões de atendimento em diabetes3 para 2026), reforçando uma abordagem cada vez mais integrada do risco cardiometabólico, do manejo do peso e da estratificação terapêutica12 por perfis clínicos e comorbidades13.
Na prática, a diretriz consolida tendências observadas nos últimos anos: maior ênfase em metas individualizadas, uso mais amplo de tecnologias (como monitores contínuos de glicose14 e sistemas automatizados em populações selecionadas), orientações sobre padrões alimentares com evidências de prevenção do diabetes tipo 26 e incorporação de evidências recentes de fármacos com benefício além do controle glicêmico.
Administração automatizada de insulina10 no diabetes tipo 26
Um ensaio clínico multicêntrico, randomizado15 e controlado (de 13 semanas), publicado no NEJM[2], avaliou sistemas de administração automatizada de insulina10, ou automated insulin delivery (AID) em adultos com diabetes tipo 26 em uso de insulina10, apontando que a automatização foi associada a uma maior redução nos níveis de hemoglobina glicada16.
Os participantes foram alocados (2:1) para AID versus manutenção do método prévio de administração de insulina10 (controle), com ambos os grupos utilizando monitorização contínua da glicose14. O desfecho primário (HbA1c17 na semana 13) favoreceu AID: a HbA1c17 reduziu de 8,2±1,4% para 7,3±0,9% no grupo AID versus de 8,1±1,2% para 7,7±1,1% no controle, com diferença ajustada média de -0,6 ponto percentual (IC 95% -0,8 a -0,4; p <0,001). O tempo na faixa alvo de glicose14 (70-180 mg/dL18) aumentou 14 pontos percentuais, com baixa ocorrência de hipoglicemia19 em ambos os grupos.
Leia sobre "Avanços recentes no tratamento do diabetes3" e "O alarmante avanço do diabetes tipo 26 no Brasil".
EMA recomenda teplizumabe para retardar o início do diabetes tipo 17
Em novembro de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA)[3] recomendou conceder autorização de comercialização para teplizumabe (Teizeild) com a indicação de retardar o início do diabetes tipo 17 de estágio 3 em adultos e crianças a partir de 8 anos de idade com diabetes tipo 17 de estágio 2.
A recomendação se baseou em ensaio randomizado15, duplo-cego e controlado por placebo20 (76 pacientes), no qual o tempo mediano para progressão ao estágio 3 foi de 50 meses no grupo teplizumabe versus 25 meses no grupo placebo20. Durante seguimento mediano de 51 meses, 45% (20/44) dos pacientes evoluíram para estágio 3 no grupo tratado versus 72% (23/32) no grupo placebo20. Trata-se de um marco relevante por representar uma estratégia modificadora do curso da doença em uma fase pré-sintomática21.
Estudo OASIS: semaglutida oral 25 mg para obesidade2 e a “era das opções orais”
A expansão de opções orais para manejo crônico22 do peso em pessoas com obesidade2 ganhou tração com estudos clínicos recentes avaliando semaglutida oral 25 mg para perda ponderal23 clinicamente significativa em adultos com obesidade2. Um estudo publicado no NEJM[4] aponta que a semaglutida na dose de 25 mg pode ser uma opção de tratamento alternativa à semaglutida injetável (2,4 mg) e à semaglutida oral em doses mais elevadas (50 mg) para pessoas com sobrepeso24 ou obesidade2, tendo demonstrado uma redução média maior no peso corporal em comparação com o placebo20 (-13,6% vs. -2,2%, respectivamente).
Esse movimento é particularmente relevante para adesão e escalabilidade do tratamento, sobretudo em pacientes com barreiras ao uso de terapias injetáveis e naqueles em que os efeitos adversos mais proeminentes das altas doses levam à desistência do tratamento.
Com base no estudo, a FDA[5] aprovou em dezembro o comprimido Wegovy (semaglutida) de 25 mg da Novo Nordisk, o primeiro e, até então, único GLP-1 oral para perda de peso em adultos, reforçando a transição do campo para um portfólio mais amplo de alternativas orais de alta eficácia.
Estudo SOUL: semaglutida oral e desfechos cardiovasculares no diabetes tipo 26
Além do foco tradicional na redução de HbA1c17, os últimos meses trouxeram destaque para evidências de desfechos cardiovasculares com semaglutida oral em pacientes com diabetes tipo 26 e alto risco cardiovascular. O estudo SOUL, com resultados publicados no NEJM[6], demonstrou que em indivíduos com diabetes tipo 26 e doença cardiovascular aterosclerótica, doença renal25 crônica ou ambas, o uso de semaglutida oral foi associado a um risco significativamente menor de eventos cardiovasculares adversos maiores em comparação com o placebo20, sem aumento na incidência26 de eventos adversos graves.
O estudo amplia o repertório terapêutico para pacientes27 de alto risco e fortalece a mudança de paradigma na diabetologia: tratar não apenas números, mas riscos e comorbidades13, e fazê-lo com uma formulação oral que pode tornar o cuidado mais simples e sustentável para uma parcela ampla de pacientes.
Orforglipron e a nova geração de agonistas orais de GLP-1
Outro destaque no eixo obesidade–diabetes é o avanço de moléculas orais não peptídicas, como orforglipron, com dados clínicos recentes em adultos com obesidade2. No estudo publicado no NEJM[7], na semana 72 o orforglipron em múltiplas doses provou ser superior ao placebo20 quando adicionado a um regime de dieta e exercícios, com perda de peso superior a 11% na dose mais alta.
A relevância aqui é estratégica: agonistas do receptor GLP-1 orais de pequena molécula podem atenuar as limitações das terapias com peptídeos GLP-1, mantendo suas propriedades biológicas. Esses agentes podem ser passíveis de armazenamento, distribuição e administração mais fáceis. Além de ampliar o acesso potencial por via oral, essa classe pode redefinir o “padrão de entrada” do tratamento farmacológico da obesidade2 e, possivelmente, sua integração com objetivos cardiometabólicos mais amplos.
Veja também sobre "Como os agonistas GLP-1 estão redefinindo o tratamento da obesidade2" e "Repercussões cardíacas da obesidade2".
Tirzepatida versus semaglutida: comparações diretas e o refinamento da estratégia antiobesidade
Um estudo comparativo entre tirzepatida e semaglutida na obesidade2 (sem diabetes tipo 26), publicado no NEJM[8], apontou que o tratamento com tirzepatida foi superior ao tratamento com semaglutida em relação à redução de peso e da circunferência da cintura. Esses dados ajudam a calibrar expectativas de eficácia e a discussão de metas de perda ponderal23, mas a escolha do esquema ainda deve ser individualizada, considerando resposta clínica, tolerabilidade, perfil de risco, comorbidades13 e objetivos terapêuticos.
Em paralelo, combinações como cagrilintida-semaglutida, descrita em um estudo também publicado no NEJM[9], reforçam a tendência de “terapias multi-alvo” para potencializar perda ponderal23 e benefícios metabólicos em populações com diabetes tipo 26 e obesidade2. Neste ensaio, a administração de cagrilintida-semaglutida uma vez por semana (na dose de 2,4 mg cada) resultou em maior redução percentual do peso corporal em comparação com o placebo20 (-13,7% vs. -3,4%, respectivamente).
Semaglutida na esteato hepatite11 associada à disfunção metabólica (MASH)
A esteato hepatite11 associada à disfunção metabólica (MASH) vem se consolidando como comorbidade28 frequente e clinicamente relevante no cuidado cardiometabólico. Resultados recentes com semaglutida em MASH destacam o potencial de intervenções que atuam simultaneamente em peso, inflamação29/metabolismo30 e risco cardiometabólico global.
No estudo publicado no NEJM[10], em pacientes com MASH e fibrose31 hepática5 moderada ou avançada, a administração de semaglutida uma vez por semana, na dose de 2,4 mg, melhorou os resultados histológicos32 do fígado33. Para a prática clínica, isso tende a acelerar a integração entre endocrinologia, hepatologia e medicina do estilo de vida, com maior vigilância e tratamento estruturado de MASH, especialmente em grupos de maior risco e prevalência34, como pessoas com obesidade2 e diabetes tipo 26.
Insulinas semanais: evidência clínica avança com efsitora alfa
A busca por regimes que reduzam a carga do tratamento do diabetes3 inclui insulinas de aplicação semanal. Um estudo clínico recente com insulina10 efsitora alfa em diabetes tipo 26 reforça essa agenda, com resultados que sustentam a discussão sobre simplificação do esquema enquanto mantendo a eficácia, com potencial impacto na adesão e continuidade do tratamento.
Os resultados publicados no NEJM[11] apontaram que, em adultos com diabetes tipo 26 que não haviam recebido insulina10 anteriormente, a efsitora administrada uma vez por semana, em um regime de dose fixa, mostrou-se não inferior à glargina administrada uma vez ao dia na redução dos níveis de hemoglobina glicada16.
Diretrizes ATA 2025 para câncer8 diferenciado de tireoide9
A American Thyroid Association (ATA)[12] publicou em 2025 uma atualização abrangente das diretrizes para manejo do carcinoma35 diferenciado de tireoide9 em adultos. O documento destaca uma construção metodológica apoiada em revisões sistemáticas, com busca final em 1º de julho de 2024, e enfatiza recomendações ao longo da jornada do paciente, desde diagnóstico36 até seguimento.
Para o endocrinologista37, é uma atualização de referência para padronização de decisões sobre estratificação de risco, extensão de tratamento e acompanhamento.
Referências
[1] Standards of Care in Diabetes—2026, disponível em Diabetes3 Care.
[2] A Randomized Trial of Automated Insulin Delivery in Type 2 Diabetes3, disponível em NEJM.
[3] First-in-class treatment to delay onset of type 1 diabetes3, disponível em European Medicines Agency.
[4] Oral Semaglutide at a Dose of 25 mg in Adults with Overweight or Obesity, disponível em NEJM.
[5] FDA approves Novo Nordisk's Wegovy® pill, the first and only oral GLP-1 for weight loss in adults , disponível em Novo Nordisk.
[6] Oral Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in High-Risk Type 2 Diabetes3, disponível em NEJM.
[7] Orforglipron, an Oral Small-Molecule GLP-1 Receptor Agonist for Obesity Treatment, disponível em NEJM.
[8] Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity, disponível em NEJM.
[9] Cagrilintide–Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity and Type 2 Diabetes3, disponível em NEJM.
[10] Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction–Associated Steatohepatitis, disponível em NEJM.
[11] Weekly Fixed-Dose Insulin Efsitora in Type 2 Diabetes3 without Previous Insulin Therapy, disponível em NEJM.
[12] 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer8, disponível em Thyroid.










