Terapia genética pode aliviar a dor crônica ao dissociar as experiências sensoriais e emocionais
Os opioides são incomparáveis em sua eficácia no controle da dor. No entanto, seu uso clínico é severamente limitado por graves efeitos colaterais1: os indivíduos podem desenvolver tolerância (exigindo doses cada vez maiores), dependência física, constipação2, transtorno por uso de opioides e depressão respiratória com risco de vida.
Para tratar a dor com mais segurança, esforços substanciais têm sido feitos para modificar as estruturas químicas dos opioides e descobrir alvos farmacológicos. Contudo, o controle da dor apresentou apenas uma leve melhora nas últimas décadas, e grandes desafios persistem para aliviar o sofrimento causado pela dor crônica.
Em um artigo publicado na revista Nature, pesquisadores investigaram caminhos alternativos para aliviar a experiência emocional negativa da dor, mantendo o processamento sensorial intacto.
Eles identificaram os neurônios3 envolvidos no sofrimento emocional associado à dor e desenvolveram uma abordagem genética que pode aliviar o sofrimento sem o uso de opioides.
Lidar com dor crônica pode ser como ouvir um rádio4 com o volume no máximo, e não importa o que você faça, o ruído nunca parece diminuir. Medicamentos opioides, como a morfina, funcionam diminuindo o volume, mas também afetam outras partes do cérebro5, às vezes levando aos efeitos colaterais1 perigosos citados anteriormente.
A nova terapia genética em potencial é semelhante a um botão de volume que diminui apenas o volume da estação da dor, deixando todo o resto intacto, de acordo com a pesquisa realizada por equipes da Perelman School of Medicine e da School of Nursing, ambas da University of Pennsylvania, juntamente com colaboradores da Carnegie Mellon University e da Stanford University.
“O objetivo era reduzir a dor, diminuindo ou eliminando o risco de dependência e efeitos colaterais1 perigosos. Ao direcionar como alvo os circuitos cerebrais específicos nos quais a morfina atua, acreditamos que este é um primeiro passo para oferecer um novo alívio para pessoas cujas vidas são afetadas pela dor crônica”, relatou Gregory Corder, PhD, co-autor sênior6 e professor assistente de Psiquiatria e Neurociência na University of Pennsylvania.
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A morfina é um narcótico derivado do ópio com alto potencial de abuso, pois os pacientes que a utilizam podem desenvolver tolerância, necessitando de doses cada vez maiores para obter o mesmo alívio da dor. Ao registrar por exames de imagem células7 cerebrais que atuam como “rastreadores” da dor, a equipe descobriu novas informações sobre como a morfina alivia o sofrimento.
A partir daí, eles construíram uma plataforma comportamental em modelo de camundongo, impulsionada por inteligência artificial (IA), que rastreia comportamentos naturais, gera um registro dos níveis de dor e ajuda a avaliar a quantidade de tratamento necessária para aliviá-la.
Esse registro, usado como uma espécie de mapa, permitiu à equipe desenvolver uma terapia gênica direcionada que imita os efeitos benéficos da morfina, mas evita seus efeitos viciantes, ao mesmo tempo que fornece um “interruptor de desligamento” específico para a dor sentida no cérebro5. Quando ativado, esse interruptor proporciona alívio duradouro da dor sem afetar a sensação normal ou acionar as vias de recompensa que podem levar ao vício.
“Até onde sabemos, esta é a primeira terapia genética para dor do mundo direcionada ao sistema nervoso central8 e um modelo concreto para um medicamento para dor não viciante e específico para circuitos”, disse Corder.
Veja a seguir o resumo do artigo publicado.
Mimetizando a analgesia opioide em circuitos corticais da dor
O córtex cingulado anterior é uma região cerebral chave envolvida nas dimensões afetivas e motivacionais da dor, mas como os analgésicos9 opioides modulam esse circuito cortical permanece incerto. Descobrir como os opioides alteram a dinâmica neural nociceptiva para produzir alívio da dor é essencial para o desenvolvimento de tratamentos mais seguros e direcionados para a dor crônica.
Neste estudo, mostrou-se que uma população de neurônios3 cingulados codifica comportamentos espontâneos relacionados à dor e é modulada seletivamente pela morfina. Usando análises comportamentais de aprendizado profundo combinadas com registros neurais longitudinais em camundongos, identificou-se uma mudança persistente nos padrões de atividade cortical após lesão10 nervosa, que reflete o surgimento de um estado de dor crônica desagradável e afetiva.
A morfina reverteu essa dinâmica neural neuropática11 e reduziu os comportamentos afetivo-motivacionais sem alterar a detecção sensorial ou as respostas reflexas, espelhando como os opioides aliviam o desconforto da dor em humanos.
Aproveitando essas descobertas, desenvolveu-se uma terapia gênica quimiogenética bioinspirada que tem como alvo neurônios3 sensíveis a opioides no cíngulo, utilizando um promotor sintético do receptor μ-opioide para direcionar a inibição.
Essa terapia gênica quimiogenética mimética de opioides reproduziu os efeitos analgésicos9 da morfina durante a dor neuropática11 crônica, oferecendo assim uma nova estratégia para o manejo preciso da dor que visa um circuito opioide cortical nociceptivo chave com analgesia segura e sob demanda.
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Fonte:
Nature, publicação em 07 de janeiro de 2026.
News Medical, notícia publicada em 07 de janeiro de 2026.










