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Risco de demência está associado ao uso cumulativo de remédios para azia, sugere análise

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O uso cumulativo de inibidores da bomba de prótons (IBPs) – medicamentos usados para ajudar a controlar o refluxo gastroesofágico1 e outros distúrbios gastrointestinais – aumentou o risco de demência2, sugeriu uma análise de 5.700 idosos.

Durante um acompanhamento médio de 5,5 anos, as pessoas que usaram IBPs prescritos por mais de 4,4 anos tiveram um risco maior de demência2 do que aquelas relatando nenhum uso de IBP, disseram Kamakshi Lakshminarayan, MD, PhD, da Universidade de Minnesota em Minneapolis, EUA, e co-autores.

As associações não foram significativas para menos anos de uso de IBP, escreveram os pesquisadores no artigo publicado na revista Neurology.

Leia sobre "Doença do Refluxo Gastroesofágico1", "Azia3: como evitar" e "Gastrite4".

O uso prolongado de IBPs foi associado em estudos anteriores a um maior risco de acidente vascular cerebral5, fraturas ósseas e doença renal6 crônica, observaram Lakshminarayan e colegas. No entanto, relatórios ao longo dos anos mostraram dados mistos sobre IBPs e cognição7.

Em 2016, um estudo prospectivo8 na Alemanha descobriu uma relação entre o uso de IBP e a demência2 em adultos com 75 anos ou mais. Mais recentemente, uma análise dos dados do estudo ASPREE, liderada por Andrew Chan, MD, da Harvard Medical School e do Massachusetts General Hospital em Boston, relatou que os IBPs não estavam associados a riscos aumentados de demência2 ou declínio cognitivo9 em pessoas com 65 anos ou mais.

“Eu seria cauteloso quanto às conclusões do estudo de que o uso de IBP está associado ao risco de demência”, disse Chan. “É importante ressaltar que a maioria das análises do estudo não suportam uma ligação. Elas encontram uma associação apenas num pequeno subgrupo de indivíduos, sem uma relação linear clara entre a duração do uso e o risco.”

A descoberta pode ser devida à confusão causada por outros fatores associados ao uso desses medicamentos, disse Chan. “Conjuntamente com as evidências do nosso estudo recente que não encontraram associação em uma coorte10 separada, acho que a maioria dos pacientes pode ter certeza de que o uso de IBP não está associado à demência”.

No artigo descrevendo a nova análise, os pesquisadores relatam que estudos sobre a associação entre o uso de inibidor da bomba de prótons (IBP) e demência2 relatam resultados mistos e não examinam o impacto do uso cumulativo de IBP. Avaliou-se, portanto, as associações entre o uso atual e cumulativo de IBP e o risco de demência2 incidente11 no Estudo de Risco de Aterosclerose12 em Comunidades (ARIC).

Essas análises usaram participantes de uma coorte10 baseada na comunidade (ARIC) desde o momento da inscrição (1987-89) até 2017. O uso de IBP foi avaliado por meio de inventário visual de medicamentos nas visitas clínicas 1 (1987-89) a 5 (2011-13) e reportados anualmente em telefonemas do estudo (2006-2011). O presente estudo utiliza a visita 5 do ARIC como linha de base, uma vez que esta foi a primeira visita em que o uso de IBP foi comum.

O uso de IBP foi examinado de duas maneiras: uso atual na visita 5 e duração do uso antes da Visita 5 (Visita 1 a 2011, categorias de exposição: 0 dias, 1 dia - 2,8 anos, 2,8 - 4,4 anos, >4,4 anos). O desfecho foi demência2 incidente11 após a visita 5. Foram utilizados modelos de risco proporcional de Cox, ajustados para dados demográficos, comorbidades13 e uso de outros medicamentos.

Um total de 5.712 participantes livres de demência2 na visita 5 (idade média 75,4±5,1 anos; 22% raça negra; 58% mulheres) foram incluídos na análise. O acompanhamento médio foi de 5,5 anos.

O uso cumulativo mínimo de IBP foi de 112 dias e o uso máximo foi de 20,3 anos. Houve 585 casos de demência2 incidente11 durante o tempo médio de acompanhamento.

Os participantes que usavam IBPs na visita 5 não apresentaram um risco significativamente maior de desenvolver demência2 durante o acompanhamento subsequente do que aqueles que não usavam IBPs (taxa de risco [HR]: 1,1 [intervalo de confiança de 95%: 0,9-1,3]).

Aqueles que usaram IBPs por >4,4 anos cumulativos antes da visita 5 apresentaram risco 33% maior de desenvolver demência2 durante o acompanhamento (HR: 1,3 [IC 95%: 1,0-1,8]) do que aqueles que relataram não usar. As associações não foram significativas para menores quantidades de uso de IBP.

Os pesquisadores concluíram que estudos futuros são necessários para compreender possíveis caminhos entre o uso cumulativo de IBP e o desenvolvimento de demência2.

Veja também sobre "Distúrbio neurocognitivo" e "Demência2".

 

Fontes:
Neurology, publicação em 09 de agosto de 2023.
MedPage Today, notícia publicada em 09 de agosto de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Risco de demência está associado ao uso cumulativo de remédios para azia, sugere análise. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1443700/risco-de-demencia-esta-associado-ao-uso-cumulativo-de-remedios-para-azia-sugere-analise.htm>. Acesso em: 27 mai. 2024.

Complementos

1 Refluxo gastroesofágico: Presença de conteúdo ácido proveniente do estômago na luz esofágica. Como o dito órgão não está adaptado fisiologicamente para suportar a acidez do suco gástrico, pode ser produzida inflamação de sua mucosa (esofagite).
2 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
3 Azia: Pirose. Sensação de dor epigástrica semelhante a uma queimadura, geralmente acompanhada de regurgitação de suco gástrico para dentro do esôfago.
4 Gastrite: Inflamação aguda ou crônica da mucosa do estômago. Manifesta-se por dor na região superior do abdome, acidez, ardor, náuseas, vômitos, etc. Pode ser produzida por infecções, consumo de medicamentos (aspirina), estresse, etc.
5 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
6 Renal: Relacionado aos rins. Uma doença renal é uma doença dos rins. Insuficiência renal significa que os rins pararam de funcionar.
7 Cognição: É o conjunto dos processos mentais usados no pensamento, percepção, classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas.
8 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
9 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
10 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
11 Incidente: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
12 Aterosclerose: Tipo de arteriosclerose caracterizado pela formação de placas de ateroma sobre a parede das artérias.
13 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
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