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Alterações cognitivas afetam a capacidade de andar e falar ao mesmo tempo

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Caminhar é uma tarefa complexa mais comumente realizada durante a execução de outras tarefas, como falar, ler sinais1 ou tomar decisões. Após os 65 anos, no entanto, essa “dupla tarefa” piora o desempenho na caminhada para muitas pessoas e pode até causar instabilidade.

Um novo estudo da Harvard Medical School e do Hebrew SeniorLife, publicado no The Lancet Healthy Longevity, teve como objetivo esclarecer as relações entre idade, marcha em dupla tarefa e função cognitiva2 na meia-idade, definida como 40 a 64 anos de idade.

O estudo descobriu que a capacidade de realizar dupla tarefa ao caminhar começa a diminuir aos 55 anos, até uma década antes da velhice, conforme tradicionalmente definido pelo limite de 65 anos.

Esse declínio na capacidade de andar e falar ao mesmo tempo foi causado por mudanças na cognição3 e na função cerebral subjacente, não por mudanças na função física.

“Nossos resultados sugerem que, na meia-idade, o baixo desempenho na caminhada em dupla tarefa pode ser um indicador de envelhecimento cerebral acelerado ou uma condição neurodegenerativa pré-sintomática”, disse o primeiro autor Junhong Zhou, instrutor de medicina da HMS no Hebrew SeniorLife.

Saiba mais sobre "Distúrbios da marcha", "Distúrbio neurocognitivo" e "Envelhecimento cerebral normal ou patológico".

Para esta pesquisa, 996 adultos residentes na comunidade com idades entre 40 e 64 anos participantes do estudo Barcelona Brain Health Initiative (BBHI) foram recrutados entre 5 de maio de 2018 e 7 de julho de 2020.

Destes, 640 (342 homens e 298 mulheres) completaram avaliações cognitivas e de marcha durante o período do estudo (uma média de 24 dias entre a primeira e a segunda visita) e foram incluídos na análise.

“Avaliamos um grande número de indivíduos com idades entre 40 e 64 anos e observamos que a capacidade de caminhar em condições normais e silenciosas permaneceu relativamente estável nessa faixa etária. No entanto, mesmo nessa coorte4 relativamente saudável, quando pedimos aos participantes que caminhassem e realizassem uma tarefa de aritmética mental ao mesmo tempo, pudemos observar mudanças sutis, porém importantes, na marcha a partir de meados da sexta década de vida”, disse Zhou.

De acordo com os pesquisadores, um teste simples de caminhada em dupla tarefa, que investiga a capacidade do cérebro5 de realizar duas tarefas ao mesmo tempo, pode revelar alterações precoces relacionadas à idade na função cerebral que podem significar um risco aumentado de desenvolver demência6 mais tarde na vida.

“Em comparação com andar silenciosamente, andar sob condições de dupla tarefa adiciona estresse ao sistema de controle motor porque as duas tarefas devem competir por recursos compartilhados no cérebro”, disse Zhou.

“O que acreditamos é que a capacidade de lidar com esse estresse e manter adequadamente o desempenho em ambas as tarefas é uma função cerebral crítica que tende a diminuir com a idade. Nosso estudo é importante porque descobriu que as mudanças nesse tipo de resiliência cerebral ocorrem muito mais cedo do que se acreditava”, disse ele.

Os autores acrescentaram que é importante observar que, embora tenham observado que a caminhada em dupla tarefa tende a diminuir com o avanço da idade em toda a coorte4, nem todos no estudo se encaixam nessa descrição.

“Observamos uma parcela de participantes com mais de 60 anos que realizaram o teste de dupla tarefa tão bem quanto participantes com 50 anos ou até menos. Isso significa que o desempenho na caminhada em dupla tarefa não diminui necessariamente à medida que envelhecemos e que alguns indivíduos parecem mais resistentes aos efeitos do envelhecimento”, disse Zhou.

“Esperamos que nosso estudo estimule pesquisas futuras para descobrir o estilo de vida e outros fatores modificáveis que apoiam a manutenção do desempenho em dupla tarefa na velhice, bem como intervenções que visam esses fatores”, acrescentou.

No artigo, os pesquisadores relatam que o baixo desempenho na marcha em dupla tarefa está associado ao risco de quedas e declínio cognitivo7 em adultos com 65 anos ou mais. Quando e por que o desempenho na marcha de dupla tarefa começa a se deteriorar é desconhecido.

Este estudo teve como objetivo caracterizar as relações entre idade, marcha em dupla tarefa e função cognitiva2 na meia-idade (ou seja, com idade entre 40 e 64 anos).

Foi conduzida uma análise secundária dos dados de adultos residentes na comunidade com idades entre 40 e 64 anos que participaram do estudo Barcelona Brain Health Initiative (BBHI), um estudo de coorte8 longitudinal em andamento em Barcelona, Espanha.

Os participantes eram elegíveis para inclusão se fossem capazes de andar de forma independente sem assistência e tivessem concluído as avaliações de marcha e cognição3 no momento da análise, e eram inelegíveis se não pudessem entender o protocolo do estudo, tivessem quaisquer doenças neurológicas ou psiquiátricas clinicamente diagnosticadas, fossem cognitivamente debilitados ou tivessem dor nas extremidades inferiores, osteoartrite9 ou artrite reumatoide10 que pode causar marcha anormal.

O tempo da passada e a variabilidade do tempo da passada foram medidos em condições de tarefa única (isto é, caminhar apenas) e dupla tarefa (isto é, caminhar durante a realização de subtrações seriais). O custo da dupla da tarefa (CDT; o aumento percentual nos resultados da marcha em condições de tarefa única para dupla tarefa) para cada resultado da marcha foi calculado e usado como a medida principal nas análises.

A função cognitiva2 global e os escores compostos de cinco domínios cognitivos11 foram derivados de testes neuropsicológicos. Usou-se suavização de gráfico de dispersão estimado localmente para caracterizar a relação entre idade e marcha em dupla tarefa, e modelagem de equação estrutural para estabelecer se a função cognitiva2 mediou a associação entre idade biológica observada e dupla tarefa.

996 pessoas foram recrutadas para o estudo BBHI entre 5 de maio de 2018 e 7 de julho de 2020, das quais 640 participantes completaram avaliações cognitivas e de marcha durante esse período (média de 24 dias [DP 34] entre a primeira e a segunda visita) e foram incluídos na análise (342 homens e 298 mulheres).

Associações não lineares foram observadas entre idade e desempenho em dupla tarefa. A partir dos 54 anos, o CDT para o tempo da passada (β = 0,27 [IC 95% 0,11 a 0,36]; p <0,0001) e para a variabilidade do tempo da passada (0,24 [0,08 a 0,32]; p = 0,0006) aumentou com o avanço da idade.

Em indivíduos com 54 anos ou mais, a diminuição da função cognitiva2 global correlacionou-se com o aumento do CDT para o tempo da passada (β = -0,27 [-0,38 a -0,11]; p = 0,0006) e aumento do CDT para a variabilidade do tempo da passada (β = -0,19 [-0,28 a -0,08]; p = 0,0002).

O estudo concluiu que o desempenho na marcha em dupla tarefa começa a se deteriorar na sexta década de vida e, após esse ponto, a variação interindividual na cognição3 explica uma parte substancial do desempenho em dupla tarefa.

Leia sobre "O processo de envelhecimento" e "Como exercitar seu cérebro5 todos os dias".

 

Fontes:
The Lancet Healthy Longevity, Vol. 4, Nº 3, em março de 2023.
Harvard Medical School, notícia publicada em 21 de março de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Alterações cognitivas afetam a capacidade de andar e falar ao mesmo tempo. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1436170/alteracoes-cognitivas-afetam-a-capacidade-de-andar-e-falar-ao-mesmo-tempo.htm>. Acesso em: 30 mai. 2024.

Complementos

1 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
2 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
3 Cognição: É o conjunto dos processos mentais usados no pensamento, percepção, classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas.
4 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
5 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
6 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
7 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
8 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
9 Osteoartrite: Termo geral que se emprega para referir-se ao processo degenerativo da cartilagem articular, manifestado por dor ao movimento, derrame articular, etc. Também denominado artrose.
10 Artrite reumatóide: Doença auto-imune de etiologia desconhecida, caracterizada por poliartrite periférica, simétrica, que leva à deformidade e à destruição das articulações por erosão do osso e cartilagem. Afeta mulheres duas vezes mais do que os homens e sua incidência aumenta com a idade. Em geral, acomete grandes e pequenas articulações em associação com manifestações sistêmicas como rigidez matinal, fadiga e perda de peso. Quando envolve outros órgãos, a morbidade e a gravidade da doença são maiores, podendo diminuir a expectativa de vida em cinco a dez anos.
11 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
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