Gostou do artigo? Compartilhe!

Os antidepressivos em sua maioria não podem tratar a dor crônica, apesar do amplo uso

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

A dor contínua, como dor crônica nas costas1 ou no pescoço2, é difícil de tratar, então alguns médicos prescrevem antidepressivos. Agora, uma revisão das evidências, publicada no The British Medical Journal, diz que esses medicamentos geralmente não funcionam como tratamento.

As pessoas com dor prolongada geralmente recebem antidepressivos quando outros tratamentos falharam, mas essa nova revisão de ensaios clínicos3 encontrou poucas evidências para apoiar o uso da maioria desses medicamentos dessa maneira.

Estima-se que cerca de 1 em cada 5 pessoas tenha dor contínua, com uma variedade de causas, incluindo artrite4 ou danos nos nervos, e localizações, inclusive nas costas1 ou no pescoço2.

Mas as opções de tratamento são limitadas. Embora os medicamentos à base de opioides sejam eficazes para a dor de início recente, eles podem causar dependência quando usados a longo prazo. Outros medicamentos, como a pregabalina, também podem causar dependência, enquanto os anti-inflamatórios podem tratar a dor, mas podem causar danos ao estômago5, rins6 e coração7 com o uso prolongado.

Pode ser por isso que alguns médicos oferecem antidepressivos como tratamento para dores de longo prazo – mesmo que geralmente não sejam licenciados para tal uso e devam ser prescritos “off-label”.

Algumas pessoas com dor crônica também estão deprimidas ou ansiosas, então os médicos podem ver os medicamentos como principalmente ajudando nessas condições, mas acredita-se que os antidepressivos também tenham um efeito analgésico8 separado. O mecanismo é desconhecido, mas uma ideia é que o efeito ocorra por conta dos antidepressivos diminuírem a inflamação9, pelo menos em testes com animais.

Saiba mais sobre "Dor crônica", "Antidepressivos" e "A dor como relatada pelos pacientes".

É difícil quantificar o uso de antidepressivos para dor, já que os números oficiais de medicamentos geralmente não registram a condição médica para a qual foram prescritos, o que significa que o tratamento para dor é confundido com o tratamento para depressão e ansiedade.

Mas vários estudos dão uma indicação. Por exemplo, um artigo sugere que 1 em cada 10 prescrições de antidepressivos no Canadá eram para dor, enquanto números recentes do Reino Unido e dos EUA sugerem que entre pessoas com mais de 65 anos, a dor crônica foi o motivo mais comum para tomar um antidepressivo. “Eles são usados para dor há algum tempo”, diz Giovanni Ferreira, da Universidade de Sydney.

Ferreira e seus colegas agora realizaram uma análise detalhada das evidências de apoio, analisando os resultados de 156 estudos randomizados envolvendo mais de 25.000 participantes. Eles analisaram a eficácia de oito tipos de antidepressivos no tratamento de 22 condições de dor, como dor nas costas1, dor pós-operatória e fibromialgia10, em que as pessoas têm dores musculares generalizadas.

A equipe descobriu que não havia boas evidências para a eficácia da maioria dos medicamentos, incluindo uma classe chamada antidepressivos tricíclicos, que é o tipo mais comum usado para tratar a dor no Reino Unido, e os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs), que são o tipo mais comum usado nos EUA.

A única classe que apresentou evidências de eficácia foi um tipo chamado inibidores seletivos da recaptação de serotonina e norepinefrina, ou ISRSNs. Mas mesmo esses reduziram a dor por um valor modesto: menos de 10 pontos em uma escala de 0 a 100. “Parece uma pequena diferença”, diz Ferreira. Pedir às pessoas que classifiquem subjetivamente sua dor em uma escala numérica é a única maneira de avaliar sua extensão, o que torna o diagnóstico11 e o tratamento da dor ainda mais difíceis.

A análise chega a conclusões diferentes de uma revisão de 2021 do Instituto Nacional de Saúde12 e Excelência em Cuidados (NICE), o órgão de diretrizes médicas da Inglaterra e do País de Gales, que disse que os antidepressivos eram a única classe de medicamentos que os médicos deveriam considerar para a dor crônica, embora isso só deve acontecer depois de discutir os possíveis benefícios e danos. A diferença nas conclusões pode ser porque a análise mais recente incluiu mais ensaios e considerou cada condição de dor separadamente, diz Ferreira.

Cathy Stannard, do NHS Gloucestershire Integrated Care Board em Gloucester, Reino Unido, que aconselhou sobre as diretrizes do NICE, diz que a nova revisão não significa que os médicos devam descartar os antidepressivos. “Algumas pessoas obterão um benefício útil e não há como prever quem será”, diz ela.

Mas é improvável que haja qualquer “bala mágica” farmacológica para a dor crônica, diz Stannard. Médicos e pessoas com dor devem considerar explorar outras opções, como aulas de ginástica em grupo especializadas ou tentar enfrentar outras dificuldades em suas vidas, como estresse no trabalho ou isolamento social, que podem ampliar o impacto de condições dolorosas de longo prazo, diz ela.

No artigo, os pesquisadores relatam que o objetivo do estudo foi fornecer uma visão13 abrangente da eficácia, segurança e tolerabilidade dos antidepressivos para a dor de acordo com a condição.

Foi então realizado um resumo de revisões sistemáticas, utilizando como fontes de dados PubMed, Embase, PsycINFO e Cochrane Central Register of Controlled Trials desde o início até 20 de junho de 2022.

Foram selecionadas revisões sistemáticas comparando qualquer antidepressivo com placebo14 para qualquer condição de dor em adultos.

Dois revisores extraíram os dados independentemente. A principal medida de desfecho foi a dor; para dores de cabeça15 foi a frequência de dores de cabeça15. Os desfechos de dor contínua foram convertidos em uma escala de 0 (sem dor) a 100 (pior dor) e foram apresentados como diferenças médias (intervalos de confiança de 95%). Desfechos dicotômicos foram apresentados como razões de risco (intervalos de confiança de 95%).

Os dados foram extraídos do ponto de tempo mais próximo ao final do tratamento. Quando o final do tratamento era muito variável entre os ensaios em uma revisão, os dados eram extraídos do resultado ou ponto de tempo com o maior número de ensaios e participantes.

Os desfechos secundários foram segurança e tolerabilidade (retiradas por causa de eventos adversos). Os resultados foram classificados a partir de cada comparação como eficazes, não eficazes ou inconclusivos. A certeza da evidência foi avaliada com o sistema GRADE – Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation.

26 revisões (156 estudos únicos e >25.000 participantes) foram incluídas. Essas revisões relataram a eficácia de oito classes de antidepressivos cobrindo 22 condições de dor (42 comparações distintas).

Nenhuma revisão forneceu evidências de alta certeza sobre a eficácia dos antidepressivos para dor em qualquer condição.

11 comparações (nove condições) foram encontradas nas quais os antidepressivos foram eficazes, quatro com evidência de certeza moderada: inibidores seletivos da recaptação de serotonina e norepinefrina (ISRSNs) para dor nas costas1 (diferença média -5,3, intervalo de confiança de 95% -7,3 a -3,3), dor pós-operatória (-7,3, -12,9 a -1,7), dor neuropática16 (-6,8, -8,7 a -4,8) e fibromialgia10 (razão de risco 1,4, intervalo de confiança de 95% 1,3 a 1,6).

Para as outras 31 comparações, os antidepressivos não foram eficazes (cinco comparações) ou a evidência foi inconclusiva (26 comparações).

A evidência da eficácia dos antidepressivos foi encontrada em 11 das 42 comparações incluídas neste resumo de revisões sistemáticas – sete das 11 comparações investigaram a eficácia dos ISRSNs. Para as outras 31 comparações, os antidepressivos foram ineficazes ou as evidências de eficácia foram inconclusivas.

Os resultados sugerem que uma abordagem mais sutil é necessária ao prescrever antidepressivos para condições de dor.

Leia sobre "O que é dor e como a sentimos", "Uso excessivo de antidepressivos" e "Dores crônicas - quais as causas e como aliviar a dor".

 

Fontes:
The BMJ, publicação em 01 de fevereiro de 2023.
New Scientist, notícia publicada em 01 de fevereiro de 2023.

 

NEWS.MED.BR, 2023. Os antidepressivos em sua maioria não podem tratar a dor crônica, apesar do amplo uso. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1434270/os-antidepressivos-em-sua-maioria-nao-podem-tratar-a-dor-cronica-apesar-do-amplo-uso.htm>. Acesso em: 14 abr. 2024.

Complementos

1 Costas:
2 Pescoço:
3 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
4 Artrite: Inflamação de uma articulação, caracterizada por dor, aumento da temperatura, dificuldade de movimentação, inchaço e vermelhidão da área afetada.
5 Estômago: Órgão da digestão, localizado no quadrante superior esquerdo do abdome, entre o final do ESÔFAGO e o início do DUODENO.
6 Rins: Órgãos em forma de feijão que filtram o sangue e formam a urina. Os rins são localizados na região posterior do abdômen, um de cada lado da coluna vertebral.
7 Coração: Órgão muscular, oco, que mantém a circulação sangüínea.
8 Analgésico: Medicamento usado para aliviar a dor. As drogas analgésicas incluem os antiinflamatórios não-esteróides (AINE), tais como os salicilatos, drogas narcóticas como a morfina e drogas sintéticas com propriedades narcóticas, como o tramadol.
9 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
10 Fibromialgia:
11 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
12 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
13 Visão: 1. Ato ou efeito de ver. 2. Percepção do mundo exterior pelos órgãos da vista; sentido da vista. 3. Algo visto, percebido. 4. Imagem ou representação que aparece aos olhos ou ao espírito, causada por delírio, ilusão, sonho; fantasma, visagem. 5. No sentido figurado, concepção ou representação, em espírito, de situações, questões etc.; interpretação, ponto de vista. 6. Percepção de fatos futuros ou distantes, como profecia ou advertência divina.
14 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
15 Cabeça:
16 Neuropática: Referente à neuropatia, que é doença do sistema nervoso.
Gostou do artigo? Compartilhe!