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Engravidar três meses após aborto espontâneo ou induzido não aumenta os riscos, revela estudo

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Uma pesquisa da Noruega envolvendo quase 75.000 nascimentos indica que conceber dentro de três meses após um aborto espontâneo ou aborto induzido não aumenta os riscos de resultados adversos.

A descoberta vai contra a recomendação atual da Organização Mundial da Saúde1 de esperar pelo menos seis meses após o aborto espontâneo ou induzido antes de engravidar novamente, para evitar complicações para a mãe e o bebê.

Os autores do estudo, publicado na PLoS Medicine, questionaram a orientação da OMS, dizendo que as evidências subjacentes à recomendação eram “escassas”.

A OMS disse que sua orientação, publicado em 2007 e após uma consulta em 2005, foi baseada em evidências mostrando que um intervalo de seis meses ou menos entre um nascimento e a próxima gravidez2 estava associado a um risco elevado de mortalidade3 materna. A OMS também alertou que os intervalos entre o nascimento e a gravidez2 de cerca de 18 meses ou menos estavam associados a um risco elevado de mortalidade infantil4, neonatal e perinatal, baixo peso ao nascer e outros resultados adversos.

O principal autor do estudo, Dr. Gizachew Tessema, da Curtin School of Population Health, disse que as descobertas do estudo não apoiam as recomendações internacionais atuais.

Leia sobre "Aborto: o que deve ser feito quando ocorre", "Perda gestacional recorrente" e "Gravidez2 de risco: quando pode ocorrer".

“Atualmente, a Organização Mundial da Saúde1 recomenda que as mulheres esperem pelo menos seis meses após um aborto espontâneo ou induzido antes de engravidar novamente devido ao risco aumentado de complicações de saúde1 na próxima gravidez”, disse Tessema.

“Nosso estudo, usando dados de nascimentos após abortos espontâneos ou induzidos na mesma população, foi capaz de mostrar que as mulheres não apresentavam maior risco de complicações na gravidez2 prematura se concebessem dentro de três meses ou seis meses após um aborto. Também não encontramos evidências que sugiram maiores riscos para mulheres que conceberam mais de 12 meses após um aborto espontâneo ou induzido.

“Em vez disso, descobrimos que as mulheres tinham menor risco de complicações na gravidez2, como baixo peso ao nascer e diabetes gestacional5, se concebessem dentro de três meses após um aborto espontâneo. Uma possível explicação para isso é que as mulheres que optaram por engravidar logo após um aborto espontâneo tinham mais probabilidade de ter a intenção de engravidar e, portanto, podem ter procurado apoio médico para evitar outra complicação”.

Com base neste estudo e em outros, a equipe de pesquisa pediu uma revisão das recomendações atuais da Organização Mundial da Saúde1 para o espaçamento da gravidez2 após a perda da gravidez2.

Tessema disse que os resultados foram tranquilizadores para mulheres ou famílias que desejam tentar outra gravidez2 logo após sofrerem um aborto espontâneo ou induzido.

“Experimentar qualquer tipo de perda de gravidez2 pode ser uma experiência extremamente difícil e traumática para as famílias, e ter que esperar mais seis meses antes de tentar engravidar novamente pode ser muito difícil”, disse Tessema.

“Nossos resultados são promissores para as famílias que desejam engravidar após uma perda precoce da gravidez2, mas são necessárias mais pesquisas para investigar o vínculo. Nossos resultados atuais do estudo não apoiam as recomendações atuais da OMS e sugerem que as diretrizes internacionais precisam ser revisadas”.

No artigo publicado, os pesquisadores relatam que o objetivo foi investigar o risco de resultados adversos da gravidez2parto prematuro (PP), PP espontâneo, nascimento pequeno para a idade gestacional (PIG), nascimento grande para a idade gestacional (GIG), pré-eclâmpsia6 e diabetes mellitus7 gestacional (DMG) – por intervalo intergestação (IIG) para nascimentos após um aborto espontâneo ou aborto induzido anterior.

Foi conduzido um estudo de coorte8 usando um total de 49.058 nascimentos após um aborto espontâneo anterior e 23.707 nascimentos após um aborto induzido anterior na Noruega entre 2008 e 2016.

Modelou-se a relação entre IIG e 6 resultados adversos da gravidez2 separadamente para nascimentos após abortos espontâneos e nascimentos após abortos induzidos. Usou-se a regressão log-binomial para estimar o risco relativo ajustado (aRR) e não ajustado e intervalos de confiança (ICs) de 95%.

No modelo ajustado, incluiu-se idade materna, quantidade de gravidezes e ano de nascimento medidos no momento dos nascimentos índice (após o intervalo). Em uma análise de sensibilidade, ajustou-se ainda mais para tabagismo durante a gravidez2 e índice de massa corporal9 pré-gravidez2.

Em comparação com nascimentos com IIG de 6 a 11 meses após abortos espontâneos (10,1%), houve menores riscos de nascimentos PIG entre os nascimentos com IIG <3 meses (8,6%) (aRR 0,85, IC 95%: 0,79, 0,92, p <0,01) e de 3 a 5 meses (9,0%) (aRR 0,90, IC 95%: 0,83, 0,97, p = 0,01).

Um IIG de <3 meses após um aborto espontâneo (3,3%) também foi associado a um menor risco de DMG (aRR 0,84, IC 95%: 0,75, 0,96, p = 0,01) em comparação com um IIG de 6 a 11 meses (4,5%).

Para nascimentos após um aborto induzido, um IIG <3 meses (11,5%) foi associado a um risco não significativo, mas aumentado de PIG (aRR 1,16, IC 95%: 0,99, 1,36, p = 0,07) em comparação com um IIG de 6 a 11 meses (10,0%), enquanto o risco de GIG foi menor entre aqueles com IIG de 3 a 5 meses (8,0%) (RR 0,84, IC 95%: 0,72, 0,98, p = 0,03) em comparação com IIG de 6 a 11 meses (9,4%).

Não foi observada associação entre desfechos adversos da gravidez2 com um IIG >12 meses após aborto espontâneo ou induzido (p >0,05), com exceção de um risco aumentado de DMG entre mulheres com IIG de 12 a 17 meses (5,8%) (aRR 1,20, IC 95%: 1,02, 1,40, p = 0,02), 18 a 23 meses (6,2%) (aRR 1,24, IC 95%: 1,02, 1,50, p = 0,03) e ≥24 meses (6,4%) (aRR 1,14, IC 95%: 0,97, 1,34, p = 0,10) em comparação com um IIG de 6 a 11 meses (4,5%) após um aborto espontâneo.

Inerente a estudos retrospectivos baseados em registros, não havia informações sobre potenciais fatores de confusão, como intenção de gravidez2 e comportamento de busca de saúde1. Além disso, só havia informações sobre abortos espontâneos que resultaram em contato com o sistema de saúde1.

O estudo sugere que conceber dentro de 3 meses após um aborto espontâneo ou induzido não está associado a riscos aumentados de resultados adversos na gravidez2. Em combinação com pesquisas anteriores, esses resultados sugerem que as mulheres podem tentar engravidar logo após um aborto espontâneo ou induzido anterior sem aumentar os riscos à saúde1 perinatal.

Veja também sobre "Sangramentos durante a primeira metade da gravidez2", "Curetagem10 uterina" e "Ultrassonografia11 na gravidez2".

 

Fontes:
PLoS Medicine, publicação em 22 de novembro de 2022.
Curtin University, notícia publicada em 23 de novembro de 2022.
The BMJ, notícia publicada em 24 de novembro de 2022.

 

NEWS.MED.BR, 2022. Engravidar três meses após aborto espontâneo ou induzido não aumenta os riscos, revela estudo. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1430505/engravidar-tres-meses-apos-aborto-espontaneo-ou-induzido-nao-aumenta-os-riscos-revela-estudo.htm>. Acesso em: 6 fev. 2023.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
3 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
4 Mortalidade Infantil: A taxa de mortalidade infantil é o quociente entre os óbitos de menores de um ano ocorridos em uma determinada unidade geográfica e período de tempo, e os nascidos vivos da mesma unidade nesse período, segundo a fórmula: Taxa de Mortalidade Infantil = (Óbitos de Menores de 1 ano / Nascidos Vivos) x 1.000
5 Diabetes gestacional: Tipo de diabetes melito que se desenvolve durante a gravidez e habitualmente desaparece após o parto, mas aumenta o risco da mãe desenvolver diabetes no futuro. O diabetes gestacional é controlado com planejamento das refeições, atividade física e, em alguns casos, com o uso de insulina.
6 Pré-eclâmpsia: É caracterizada por hipertensão, edema (retenção de líquidos) e proteinúria (presença de proteína na urina). Manifesta-se na segunda metade da gravidez (após a 20a semana de gestação) e pode evoluir para convulsão e coma, mas essas condições melhoram com a saída do feto e da placenta. No meio médico, o termo usado é Moléstia Hipertensiva Específica da Gravidez. É a principal causa de morte materna no Brasil atualmente.
7 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
8 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
9 Índice de massa corporal: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
10 Curetagem: Operação ou cirurgia que consiste em esvaziar o interior de uma cavidade natural ou patológica com o auxílio de uma cureta; raspagem.
11 Ultrassonografia: Ultrassonografia ou ecografia é um exame complementar que usa o eco produzido pelo som para observar em tempo real as reflexões produzidas pelas estruturas internas do organismo (órgãos internos). Os aparelhos de ultrassonografia utilizam uma frequência variada, indo de 2 até 14 MHz, emitindo através de uma fonte de cristal que fica em contato com a pele e recebendo os ecos gerados, os quais são interpretados através de computação gráfica.
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