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Descontinuar o uso de antidepressivos traz risco de recaída

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Pessoas que param de tomar antidepressivos porque sentem que não precisam mais deles podem correr o risco de uma recaída na depressão, mostrou um estudo. As descobertas podem ser consideradas por alguns como motivo para continuar tomando esses medicamentos indefinidamente – mas na verdade o quadro é mais complexo.

Em muitos países de alta renda, o número de pessoas que tomam antidepressivos está em níveis recorde, com uma estimativa de uma em cada 10 pessoas usando antidepressivos na Inglaterra, por exemplo.

O estudo em questão, publicado no The New England Journal of Medicine, analisou 478 pessoas no Reino Unido que tomavam um antidepressivo e que consideravam parar de tomar os comprimidos. Cerca de metade foi escolhida aleatoriamente para continuar, enquanto o restante recebeu comprimidos de placebo1 em vez de seus comprimidos habituais.

Depois de um ano, 56% das pessoas que receberam placebo1 viram a depressão voltar, em comparação com 39% daquelas que continuaram tomando o medicamento. Dito de outra forma, para cada 10 pessoas que avaliam a decisão de parar de tomar antidepressivos, cerca de quatro recaem e pouco mais de quatro ficam livres da depressão, qualquer que seja o curso que decidam tomar. Para os outros, a interrupção dos medicamentos pode levar a uma recaída.

As descobertas sugerem que qualquer uma das decisões é razoável, e a escolha que as pessoas devem fazer depende de suas preferências pessoais, disse um dos pesquisadores.

Leia sobre "Depressão maior", "O que saber sobre antidepressivos" e "Antidepressivos: eles estão sendo usados em excesso?"

No artigo publicado, os pesquisadores contextualizam como pacientes com depressão tratados em clínicas de atenção primária podem receber antidepressivos por períodos prolongados. Os dados são limitados sobre os efeitos da manutenção ou interrupção da terapia antidepressiva neste cenário.

Eles conduziram um estudo randomizado2 duplo-cego envolvendo adultos que estavam sendo tratados em 150 clínicas gerais no Reino Unido. Todos os pacientes tinham história de pelo menos dois episódios depressivos ou estavam tomando antidepressivos por 2 anos ou mais e se sentiam bem o suficiente para considerar a interrupção dos antidepressivos.

Os pacientes que receberam citalopram, fluoxetina, sertralina ou mirtazapina foram designados aleatoriamente em uma proporção de 1:1 para manter sua terapia antidepressiva atual (grupo de manutenção) ou para reduzir e descontinuar essa terapia com o uso de placebo1 correspondente (grupo de descontinuação).

O desfecho primário foi a primeira recaída da depressão durante o período de teste de 52 semanas, conforme avaliado em uma análise de tempo até o evento. Os desfechos secundários foram sintomas3 depressivos e de ansiedade, sintomas3 físicos e de abstinência, qualidade de vida, tempo para interromper um antidepressivo ou placebo1 e classificações globais de humor.

Um total de 1.466 pacientes foram submetidos à triagem. Destes pacientes, 478 foram incluídos no estudo (238 no grupo de manutenção e 240 no grupo de descontinuação). A idade média dos pacientes era de 54 anos; 73% eram mulheres. A adesão à atribuição do teste foi de 70% no grupo de manutenção e 52% no grupo de descontinuação.

Em 52 semanas, a recaída ocorreu em 92 de 238 pacientes (39%) no grupo de manutenção e em 135 de 240 (56%) no grupo de descontinuação (razão de risco, 2,06; intervalo de confiança de 95%, 1,56 a 2,70; P <0,001).

Os desfechos secundários foram geralmente na mesma direção do desfecho primário. Os pacientes no grupo de descontinuação tiveram mais sintomas3 de depressão, ansiedade e abstinência do que aqueles no grupo de manutenção.

O estudo concluiu que entre os pacientes em clínicas de atenção primária que se sentiram bem o suficiente para descontinuar a terapia antidepressiva, aqueles que foram designados para interromper a medicação tiveram um risco maior de recidiva4 da depressão em 52 semanas do que aqueles que foram designados para manter sua terapia atual.

Veja também sobre "Depressões - o que são", "Transtornos afetivos" e "Principais transtornos mentais".

 

Fontes:
The New England Journal of Medicine, publicação em 30 de setembro de 2021.
New Scientist, notícia publicada em 30 de setembro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Descontinuar o uso de antidepressivos traz risco de recaída. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1403030/descontinuar-o-uso-de-antidepressivos-traz-risco-de-recaida.htm>. Acesso em: 8 dez. 2021.

Complementos

1 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
2 Estudo randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle - o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Recidiva: 1. Em medicina, é o reaparecimento de uma doença ou de um sintoma, após período de cura mais ou menos longo; recorrência. 2. Em direito penal, significa recaída na mesma falta, no mesmo crime; reincidência.
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