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Pessoas em empregos que estimulam a cognição experimentaram um risco 23% menor de demência

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A demência1, uma condição devastadora que afeta quase 50 milhões de pessoas em todo o mundo, não é uma parte inevitável do envelhecimento. Agora é amplamente aceito que a prevenção da demência1 é alcançável, devido às reduções de risco associadas ao controle vitalício de fatores de risco cardiovascular, engajamento em atividade física ou educação prolongada.

A proteção aparentemente consistente proporcionada pela educação, embora longe de ser totalmente compreendida, provavelmente envolve o impacto benéfico da estimulação cognitiva2 no aumento de neurônios3, sinapses e enriquecimento de reserva – a capacidade do cérebro4 de resistir a danos que, de outra forma, levariam à demência1.

À luz desses benefícios hipotéticos, muitos pesquisadores procuraram examinar o enriquecimento mental além da escolaridade. A estimulação cognitiva2 ocupacional merecidamente recebeu muito interesse, dada a exposição prolongada a ambientes de trabalho ao longo do curso de vida.

Apesar de pesquisas anteriores consideráveis, no entanto, o papel do enriquecimento mental relacionado ao trabalho na demência1 permaneceu obscuro, devido ao pequeno tamanho das populações dos estudos, principalmente originárias do norte da Europa.

Agora, um estudo inovador, publicado no The British Medical Journal, encontrou uma ligação clara entre ter um trabalho estimulante e menor risco de demência1.

Leia sobre "Demência1", "O processo de envelhecimento", "Envelhecimento cerebral normal ou patológico" e "Como exercitar o cérebro4".

O estudo multicoorte com três conjuntos de análises, com participantes do Reino Unido, Europa e Estados Unidos, teve como objetivo examinar a associação entre a estimulação cognitiva2 no local de trabalho e o risco subsequente de demência1 e identificar as vias pelas quais as proteínas5 plasmáticas influenciam essa associação.

Três associações foram examinadas: estimulação cognitiva2 e risco de demência1 em 107.896 participantes de sete estudos de coorte6 prospectivos de base populacional do consórcio IPD-Work (metanálise de dados de participantes individuais em populações de trabalho); estimulação cognitiva2 e proteínas5 em uma amostra aleatória de 2.261 participantes de um estudo de coorte7; e proteínas5 e risco de demência1 em 13.656 participantes de dois estudos de coorte6.

A estimulação cognitiva2 foi medida na linha de base usando instrumentos de questionário padrão em empregos ativos versus passivos e na linha de base e ao longo do tempo usando um indicador de matriz de exposição de trabalho.

4.953 proteínas5 em amostras de plasma8 foram digitalizadas. O acompanhamento da demência1 incidente9 variou entre 13,7 a 30,1 anos, dependendo da coorte10. Pessoas com demência1 foram identificadas por meio de registros eletrônicos de saúde11 vinculados e exames clínicos repetidos.

Durante 1,8 milhão de pessoas-ano em risco, 1.143 pessoas com demência1 foram registradas. O risco de demência1 foi menor para participantes com alto, em comparação com baixo, estímulo cognitivo12 no trabalho (incidência13 bruta de demência1 por 10.000 pessoas-ano 4,8 no grupo de alta estimulação e 7,3 no grupo de baixa estimulação, razão de risco ajustada por idade e sexo 0,77, intervalo de confiança de 95% de 0,65 a 0,92, heterogeneidade nas estimativas específicas da coorte10 I² = 0%, P = 0,99).

Esta associação foi robusta para ajustes adicionais para educação, fatores de risco para demência1 na idade adulta (tabagismo, consumo excessivo de álcool, inatividade física, estresse no trabalho, obesidade14, hipertensão15 e diabetes16 prevalente no início do estudo) e doenças cardiometabólicas (diabetes16, doença coronariana17, AVC) antes do diagnóstico18 de demência1 (taxa de risco totalmente ajustada 0,82, intervalo de confiança de 95% 0,68 a 0,98).

O risco de demência1 também foi observado durante os primeiros 10 anos de acompanhamento (razão de risco 0,60, intervalo de confiança de 95% 0,37 a 0,95) e do ano 10 em diante (0,79, 0,66 a 0,95) e replicado usando um indicador de matriz de exposição de trabalho repetido de estimulação cognitiva2 (razão de risco por 1 desvio padrão [DP] de aumento 0,77, intervalo de confiança de 95% 0,69 a 0,86).

Na análise controlando para testes múltiplos, maior estimulação cognitiva2 no trabalho foi associada a níveis mais baixos de proteínas5 que inibem a axonogênese e sinaptogênese do sistema nervoso central19: homólogo de SLIT 2 (SLIT2, β totalmente ajustado -0,34, P <0,001), sulfotransferase de carboidrato20 12 (CHSTC, β totalmente ajustado -0,33, P <0,001) e monoxigenase α-amidante de peptidil-glicina (AMD, β totalmente ajustado -0,32, P <0,001).

Essas proteínas5 foram associadas a um risco aumentado de demência1, com a razão de risco totalmente ajustada por 1 DP sendo 1,16 (intervalo de confiança de 95% 1,05 a 1,28) para SLIT2, 1,13 (1,00 a 1,27) para CHSTC e 1,04 (0,97 a 1,13) para AMD.

O estudo concluiu que o risco de demência1 na velhice foi menor em pessoas com empregos cognitivamente estimulantes do que naquelas com empregos não estimulantes. As descobertas de que a estimulação cognitiva2 está associada a níveis mais baixos de proteínas5 plasmáticas que potencialmente inibem a axonogênese e a sinaptogênese e aumentam o risco de demência1 podem fornecer pistas para os mecanismos biológicos subjacentes.

Veja também sobre "Distúrbio neurocognitivo", "Mal de Alzheimer21", "Doenças degenerativas22" e "O envelhecimento saudável".

 

Fonte: The British Medical Journal, publicação em 19 de agosto de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Pessoas em empregos que estimulam a cognição experimentaram um risco 23% menor de demência. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1400740/pessoas-em-empregos-que-estimulam-a-cognicao-experimentaram-um-risco-23-menor-de-demencia.htm>. Acesso em: 19 set. 2021.

Complementos

1 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
2 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
3 Neurônios: Unidades celulares básicas do tecido nervoso. Cada neurônio é formado por corpo, axônio e dendritos. Sua função é receber, conduzir e transmitir impulsos no SISTEMA NERVOSO. Sinônimos: Células Nervosas
4 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
5 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
6 Estudos de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
7 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
8 Plasma: Parte que resta do SANGUE, depois que as CÉLULAS SANGÜÍNEAS são removidas por CENTRIFUGAÇÃO (sem COAGULAÇÃO SANGÜÍNEA prévia).
9 Incidente: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
10 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
11 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
12 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
13 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
14 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
15 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
16 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
17 Doença coronariana: Doença do coração causada por estreitamento das artérias que fornecem sangue ao coração. Se o fluxo é cortado, o resultado é um ataque cardíaco.
18 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
19 Sistema Nervoso Central: Principais órgãos processadores de informação do sistema nervoso, compreendendo cérebro, medula espinhal e meninges.
20 Carboidrato: Um dos três tipos de nutrientes dos alimentos, é um macronutriente. Os alimentos que possuem carboidratos são: amido, açúcar, frutas, vegetais e derivados do leite.
21 Alzheimer: Doença degenerativa crônica que produz uma deterioração insidiosa e progressiva das funções intelectuais superiores. É uma das causas mais freqüentes de demência. Geralmente começa a partir dos 50 anos de idade e tem incidência similar entre homens e mulheres.
22 Degenerativas: Relativas a ou que provocam degeneração.
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