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Estudo apresenta evidência de que exercícios de resistência, como musculação, promovem a queima de gordura

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Todos nós sabemos que levantar pesos pode fortalecer nossos músculos1. Mas, ao mudar o funcionamento interno das células2, o treinamento com pesos também pode reduzir a gordura3, de acordo com um novo estudo esclarecedor sobre os fundamentos moleculares dos exercícios de resistência, publicado no FASEB Journal.

O estudo, que envolveu ratos e pessoas, descobriu que após o treinamento com pesos, os músculos1 criam e liberam pequenas bolhas de material genético que podem fluir para as células2 de gordura3, iniciando processos relacionados à queima de gordura3.

Os resultados aumentam as evidências científicas de que os exercícios de resistência têm benefícios exclusivos para a perda de gordura3. E também ressaltam o quão extensos e interconectados os efeitos internos do exercício podem ser.

Muitos de nós classificamos o treinamento de resistência como construção muscular, e com razão. Levantar pesos – ou trabalhar contra nosso peso corporal enquanto fazemos flexões, agachamentos ou mergulho na cadeira – aumentará visivelmente o tamanho e a força de nossos músculos1. Mas um número crescente de estudos sugere que o treinamento com pesos também remodela nosso metabolismo4 e cintura.

Em experimentos recentes, os exercícios com peso aumentaram o gasto de energia e a queima de gordura3 por pelo menos 24 horas depois em mulheres jovens, homens com sobrepeso5 e atletas. Da mesma forma, em outro estudo, as pessoas que levantavam pesos ocasionalmente tinham muito menos probabilidade de se tornarem obesas do que aquelas que nunca levantaram.

Mas como o treinamento com pesos renova a gordura3 corporal permanece obscuro. Parte do efeito ocorre porque o músculo é metabolicamente ativo e queima calorias6, portanto, adicionar massa muscular por meio do levantamento de pesos deve aumentar o gasto de energia e as taxas metabólicas de repouso. Após seis meses de levantamento de peso, por exemplo, os músculos1 queimarão mais calorias6 apenas porque são maiores. Mas isso não explica totalmente o efeito, porque adicionar massa muscular requer tempo e repetição, enquanto alguns dos efeitos metabólicos do treinamento com pesos nos estoques de gordura3 parecem ocorrer imediatamente após o exercício.

Leia sobre "Metabolismo4: como ele influencia no peso corporal", "Como ganhar massa muscular", "Treinamento funcional" e "CrossFit".

Talvez, então, algo aconteça em nível molecular logo após exercícios de resistência que visam células2 de gordura3, uma hipótese que um grupo de cientistas da Universidade de Kentucky em Lexington, da Universidade de Nebraska-Lincoln e outras instituições recentemente decidiram investigar. Os pesquisadores vinham estudando a saúde7 muscular há anos, mas começaram a se interessar cada vez mais por outros tecidos, especialmente a gordura3. Talvez, eles especularam, músculos1 e gordura3 conversassem amigavelmente depois de um treino.

Na última década, a ideia de que células2 e tecidos se comunicam por toda a extensão de nossos corpos tornou-se amplamente aceita, embora a complexidade das interações permaneça incompreensível. Experimentos sofisticados mostram que os músculos1, por exemplo, liberam uma cascata de hormônios e outras proteínas8 após o exercício que entram na corrente sanguínea, seguem para vários órgãos e desencadeiam ali reações bioquímicas, em um processo conhecido como crosstalk celular.

Nossos tecidos também podem bombear pequenas bolhas, conhecidas como vesículas9, durante o crosstalk. Antes consideradas sacos de lixo microscópicos10, cheias de detritos celulares, as vesículas9 agora são conhecidas por conterem material genético saudável e ativo e outras substâncias. Liberadas na corrente sanguínea, elas transmitem essa matéria biológica de um tecido11 para outro, como mensagens minúsculas em garrafas.

Curiosamente, alguns experimentos indicam que o exercício aeróbico estimula os músculos1 a liberar essas vesículas9, transmitindo uma variedade de mensagens. Mas poucos estudos investigaram se o exercício de resistência também pode resultar na formação de vesículas9 e conversa entre os tecidos.

Assim, para o novo estudo, os pesquisadores decidiram examinar as células2 de camundongos fisiculturistas. Inicialmente, eles incapacitaram experimentalmente vários músculos1 da perna em ratos adultos saudáveis, deixando um único músculo para carregar todas as demandas físicas do movimento. Esse músculo rapidamente hipertrofiou, ou aumentou, fornecendo uma versão acelerada do treinamento de resistência.

Antes e depois desse processo, os pesquisadores coletaram sangue12, fizeram biópsia13 de tecidos, centrifugaram fluidos e procuraram microscopicamente vesículas9 e outras alterações moleculares nos tecidos.

Eles notaram muitas. Antes do treinamento de peso improvisado, os músculos1 das pernas dos roedores fervilhavam com um fragmento14 particular de material genético, conhecido como miR-1, que modula o crescimento muscular. Em músculos1 normais não treinados, miR-1, um de um grupo de minúsculos fios de material genético conhecidos como microRNA, freia a construção muscular.

Após o exercício de resistência dos roedores, que consistia em caminhar, os músculos1 das pernas dos animais pareciam esgotados de miR-1. Ao mesmo tempo, as vesículas9 em sua corrente sanguínea agora estavam lotadas com a substância, assim como o tecido adiposo15 próximo. Parece, os cientistas concluíram, que as células musculares16 dos animais de alguma forma empacotaram aqueles pedaços de microRNA que retardam a hipertrofia17 em vesículas9 e os enviaram para células2 de gordura3 vizinhas, o que então permitiu que os músculos1 crescessem imediatamente.

Mas o que o miR-1 estava fazendo com a gordura3 depois de chegar, os cientistas se perguntaram? Para descobrir, eles marcaram vesículas9 de ratos que faziam treinamento com pesos com um corante fluorescente, injetaram-nas em animais que não treinavam e rastrearam os caminhos das bolhas brilhantes. As vesículas9 se hospedaram na gordura3, os cientistas viram, depois se dissolveram e depositaram sua carga de miR-1 lá.

Logo depois, alguns dos genes nas células2 de gordura3 entraram em ação excessiva. Esses genes ajudam a direcionar a decomposição da gordura3 em ácidos graxos, que outras células2 podem usar como combustível, reduzindo os estoques de gordura3. Na verdade, o treinamento com pesos estava diminuindo a gordura3 em camundongos, criando vesículas9 nos músculos1 que, por meio de sinais18 genéticos, diziam à gordura3 que era hora de se fragmentar.

“O processo foi simplesmente notável”, disse John J. McCarthy, professor de fisiologia19 da Universidade de Kentucky, autor do estudo com seu então aluno de graduação Ivan J. Vechetti Jr. e outros colegas.

Ratos não são pessoas, no entanto. Assim, como uma faceta final do estudo, os cientistas coletaram sangue12 e tecido11 de homens e mulheres saudáveis que realizaram um único treino fatigante com pesos para a parte inferior do corpo e confirmaram que, como em camundongos, os níveis de miR-1 nos músculos1 dos voluntários caiu após o treino, enquanto a quantidade de vesículas9 contendo miR-1 em suas correntes sanguíneas disparou.

Claro, o estudo envolveu principalmente ratos e não foi projetado para nos dizer com que frequência ou intensidade devemos levantar pesos para maximizar a produção de vesículas9 e queima de gordura3. Mas, mesmo assim, os resultados servem como um lembrete estimulante de que “a massa muscular é de vital importância para a saúde7 metabólica”, disse McCarthy, e que começamos a construir essa massa e fazer nossos tecidos conversarem entre si cada vez que levantamos peso.

Saiba mais sobre "Gordura abdominal20: como perder a barriga", "Composição corporal - Como avaliar e como melhorar" e "Hipertrofia17: o que é".

Resumo do artigo

No artigo publicado, os pesquisadores explicam o processo de como vesículas9 extracelulares derivadas de músculos1 induzidas por sobrecarga mecânica promovem a lipólise do tecido adiposo15.

Como ainda não se compreende como a atividade física regular pode melhorar a saúde7, tem sido proposto que a liberação de fatores do músculo esquelético21 após o exercício seja um possível mecanismo de mediação de tais benefícios sistêmicos22.

Os pesquisadores descrevem um mecanismo em que o músculo esquelético21, em resposta a um estímulo hipertrófico induzido por sobrecarga mecânica (SCM), liberou vesículas9 extracelulares (VEs) contendo miR-1 específico do músculo que foram preferencialmente absorvidas pelo tecido adiposo15 branco epididimal (TABe).

No TABe, o miR-1 promoveu a sinalização adrenérgica e a lipólise ao ter como alvo o Tfap2α, um conhecido repressor da expressão de Adrβ3. A inibição da liberação de VE impediu o aumento induzido por SCM na abundância miR-1 no TABe e na expressão de genes lipolíticos.

O exercício de resistência diminuiu a expressão de miR-1 do músculo esquelético21 com um aumento concomitante na abundância plasmática de miR-1 da VE, sugerindo que um mecanismo semelhante pode estar operando em humanos.

Juntos, esses achados demonstram que o músculo esquelético21 promove adaptações metabólicas no tecido adiposo15 em resposta à sobrecarga mecância via entrega de miR-1 mediada por vesículas9 extracelulares.

 

Fontes:
The FASEB Journal, publicação em 25 de maio de 2021.
The New York Times, notícia publicada em 21 de julho de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Estudo apresenta evidência de que exercícios de resistência, como musculação, promovem a queima de gordura. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1399580/estudo-apresenta-evidencia-de-que-exercicios-de-resistencia-como-musculacao-promovem-a-queima-de-gordura.htm>. Acesso em: 26 out. 2021.

Complementos

1 Músculos: Tecidos contráteis que produzem movimentos nos animais.
2 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
3 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
4 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
5 Sobrepeso: Peso acima do normal, índice de massa corporal entre 25 e 29,9.
6 Calorias: Dizemos que um alimento tem “x“ calorias, para nos referirmos à quantidade de energia que ele pode fornecer ao organismo, ou seja, à energia que será utilizada para o corpo realizar suas funções de respiração, digestão, prática de atividades físicas, etc.
7 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
8 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
9 Vesículas: Lesões papulares preenchidas com líquido claro.
10 Microscópicos: 1. Relativo à microscopia ou a microscópio. 2. Que se realiza com o auxílio do microscópio. 3. Visível somente por meio do microscópio. 4. Muito pequeno, minúsculo.
11 Tecido: Conjunto de células de características semelhantes, organizadas em estruturas complexas para cumprir uma determinada função. Exemplo de tecido: o tecido ósseo encontra-se formado por osteócitos dispostos em uma matriz mineral para cumprir funções de sustentação.
12 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
13 Biópsia: 1. Retirada de material celular ou de um fragmento de tecido de um ser vivo para determinação de um diagnóstico. 2. Exame histológico e histoquímico. 3. Por metonímia, é o próprio material retirado para exame.
14 Fragmento: 1. Pedaço de coisa que se quebrou, cortou, rasgou etc. É parte de um todo; fração. 2. No sentido figurado, é o resto de uma obra literária ou artística cuja maior parte se perdeu ou foi destruída. Ou um trecho extraído de uma obra.
15 Tecido Adiposo: Tecido conjuntivo especializado composto por células gordurosas (ADIPÓCITOS). É o local de armazenamento de GORDURAS, geralmente na forma de TRIGLICERÍDEOS. Em mamíferos, existem dois tipos de tecido adiposo, a GORDURA BRANCA e a GORDURA MARROM. Suas distribuições relativas variam em diferentes espécies sendo que a maioria do tecido adiposo compreende o do tipo branco.
16 Células Musculares: Células contráteis maduras, geralmente conhecidas como miócitos, que formam um dos três tipos de músculo. Os três tipos de músculo são esquelético (FIBRAS MUSCULARES), cardíaco (MIÓCITOS CARDÍACOS) e liso (MIÓCITOS DE MÚSCULO LISO). Provêm de células musculares embrionárias (precursoras) denominadas MIOBLASTOS.
17 Hipertrofia: 1. Desenvolvimento ou crescimento excessivo de um órgão ou de parte dele devido a um aumento do tamanho de suas células constituintes. 2. Desenvolvimento ou crescimento excessivo, em tamanho ou em complexidade (de alguma coisa). 3. Em medicina, é aumento do tamanho (mas não da quantidade) de células que compõem um tecido. Pode ser acompanhada pelo aumento do tamanho do órgão do qual faz parte.
18 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
19 Fisiologia: Estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
20 Gordura Abdominal: Tecido gorduroso da região do ABDOME. Dela fazem parte as GORDURAS SUBCUTÂNEAS ABDOMINAL e a INTRA-ABDOMINAL
21 Músculo Esquelético: Subtipo de músculo estriado fixado por TENDÕES ao ESQUELETO. Os músculos esqueléticos são inervados e seu movimento pode ser conscientemente controlado. Também são chamados de músculos voluntários.
22 Sistêmicos: 1. Relativo a sistema ou a sistemática. 2. Relativo à visão conspectiva, estrutural de um sistema; que se refere ou segue um sistema em seu conjunto. 3. Disposto de modo ordenado, metódico, coerente. 4. Em medicina, é o que envolve o organismo como um todo ou em grande parte.
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