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Estudo não encontra evidências de que o consumo de café aumenta o risco de taquiarritmias incidentes

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A ingestão moderada e habitual de café está associada ao risco de arritmia1, e essa associação é modificada por variantes genéticas que afetam o metabolismo2 da cafeína?

Uma análise da associação entre o consumo de café e o risco de arritmia1 cardíaca em uma população de mais de 375.000 pacientes, publicada no JAMA Internal Medicine, retornou resultados positivos para consumidores habituais de café.

Usando dados da coorte3 do UK Biobank, uma equipe da Universidade da Califórnia, San Francisco (UCSF) não encontrou nenhuma evidência de que o consumo moderado de café estava relacionado ao aumento do risco de arritmias4, e até mesmo descobriu evidências sugerindo que cada xícara adicional de café estava associada a um risco 3% menor de arritmia1 incidente5, incluindo fibrilação atrial ou flutter atrial e taquicardia6 supraventricular.

Saiba mais sobre "Usos e abusos da cafeína", "Arritmia1 cardíaca", "Fibrilação atrial", "Taquicardia6".

“O café é a principal fonte de cafeína para a maioria das pessoas e tem a reputação de causar ou agravar arritmias”, disse o autor sênior7 e correspondente Gregory Marcus, MD, professor de medicina da Divisão de Cardiologia da UCSF, em um comunicado à imprensa da UCSF. “Mas não encontramos nenhuma evidência de que o consumo de cafeína leve a um risco maior de arritmias4. Nosso estudo de base populacional oferece garantias de que as proibições comuns contra a cafeína para reduzir o risco de arritmia1 são provavelmente injustificadas.”

Além destes achados, um estudo de randomização mendeliana não mostrou que os genes relacionados ao metabolismo2 da cafeína modificam a relação entre o consumo de café e as arritmias4, relatou Marcus.

No artigo, os pesquisadores relatam como a noção de que a cafeína aumenta o risco de arritmias4 cardíacas é comum. No entanto, as evidências de que o consumo de produtos com cafeína aumenta o risco de arritmias4 permanecem pouco fundamentadas.

Nesse contexto, o objetivo do estudo foi avaliar a associação entre o consumo de produtos cafeinados comuns e o risco de arritmias4.

O estudo de coorte8 prospectivo9 analisou dados longitudinais do UK Biobank entre 1º de janeiro de 2006 e 31 de dezembro de 2018. Após a aplicação dos critérios de exclusão, 386.258 indivíduos estavam disponíveis para análise.

As exposições do estudo foram a Ingestão diária de café e polimorfismos genéticos que afetam o metabolismo2 da cafeína.

Os principais desfechos e medidas foram qualquer arritmia1 cardíaca, incluindo fibrilação atrial ou flutter atrial, taquicardia6 supraventricular, taquicardia6 ventricular, complexos atriais prematuros e complexos ventriculares prematuros.

Um total de 386.258 indivíduos (idade média [DP], 56 [8] anos; 52,3% mulheres) foram avaliados. Durante um acompanhamento médio (DP) de 4,5 (3,1) anos, 16.979 participantes desenvolveram uma arritmia1 incidente5.

Após o ajuste para características demográficas, condições comórbidas e hábitos de vida, cada xícara adicional de café habitual consumido foi associada a um risco 3% menor de arritmia1 incidente5 (razão de risco [HR], 0,97; IC 95%, 0,96-0,98; P <0,001).

Nas análises de cada arritmia1 isoladamente, associações estatisticamente significativas exibindo uma magnitude semelhante foram observadas para fibrilação atrial e/ou flutter atrial (HR, 0,97; IC 95%, 0,96-0,98; P <0,001) e taquicardia6 supraventricular (HR, 0,96; IC 95%, 0,94-0,99; P = 0,002).

Duas análises de interação distintas, uma usando uma pontuação poligênica relacionada ao metabolismo2 da cafeína de 7 polimorfismos genéticos e outra restrita ao polimorfismo CYP1A2 rs762551 sozinho, não revelou nenhuma evidência de modificação do efeito. Um estudo de randomização mendeliana que usou essas mesmas variantes genéticas não revelou nenhuma associação significativa entre propensões subjacentes a diferentes metabolismos da cafeína e o risco de arritmia1 incidente5.

Neste estudo de coorte8 prospectivo9, maiores quantidades de consumo habitual de café foram inversamente associadas a um menor risco de arritmia1, sem nenhuma evidência de que o metabolismo2 da cafeína geneticamente mediado afetou essa associação. A randomização mendeliana falhou em fornecer evidências de que o consumo de cafeína estava associado a arritmias4.

Assim, nem o consumo habitual de café nem as diferenças geneticamente mediadas no metabolismo2 da cafeína foram associadas a um risco elevado de arritmias4 cardíacas.

Leia sobre "Doenças cardiovasculares10" e "Fibrilação ventricular".

 

Fontes:
JAMA Internal Medicine, publicação em 19 de julho de 2021.
Practical Cardiology, notícia publicada em 20 de julho de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Estudo não encontra evidências de que o consumo de café aumenta o risco de taquiarritmias incidentes. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1398960/estudo-nao-encontra-evidencias-de-que-o-consumo-de-cafe-aumenta-o-risco-de-taquiarritmias-incidentes.htm>. Acesso em: 26 out. 2021.

Complementos

1 Arritmia: Arritmia cardíaca é o nome dado a diversas perturbações que alteram a frequência ou o ritmo dos batimentos cardíacos.
2 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
3 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
4 Arritmias: Arritmia cardíaca é o nome dado a diversas perturbações que alteram a frequência ou o ritmo dos batimentos cardíacos.
5 Incidente: 1. Que incide, que sobrevém ou que tem caráter secundário; incidental. 2. Acontecimento imprevisível que modifica o desenrolar normal de uma ação. 3. Dificuldade passageira que não modifica o desenrolar de uma operação, de uma linha de conduta.
6 Taquicardia: Aumento da frequência cardíaca. Pode ser devido a causas fisiológicas (durante o exercício físico ou gravidez) ou por diversas doenças como sepse, hipertireoidismo e anemia. Pode ser assintomática ou provocar palpitações.
7 Sênior: 1. Que é o mais velho. 2. Diz-se de desportistas que já ganharam primeiros prêmios: um piloto sênior. 3. Diz-se de profissionais experientes que já exercem, há algum tempo, determinada atividade.
8 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
9 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
10 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
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