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Tafenoquina tem o potencial de reduzir a transmissão do Plasmodium vivax, causador da malária, segundo estudo realizado no Brasil

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Apesar da recente intensificação das medidas de controle, o Plasmodium vivax representa um grande desafio para os esforços de eliminação da malária.

Parasitas hipnozoítos em estágio de fígado1 que causam infecções2 recorrentes podem ser eliminados com primaquina; no entanto, a baixa adesão ao tratamento prejudica a eficácia do medicamento. A tafenoquina, um novo tratamento de dose única, oferece uma opção alternativa para prevenir recaídas e reduzir a transmissão.

Em 2018, mais de 237 mil casos de malária foram notificados ao sistema de saúde3 brasileiro, dos quais 91,5% foram por P. vivax.

Nesse estudo de modelagem, publicado na revista PLOS Medicine, pesquisadores avaliaram o impacto da introdução da tafenoquina nas práticas de gerenciamento de casos na dinâmica de transmissão em nível populacional usando um modelo matemático de transmissão do P. vivax.

Leia sobre "Conhecendo a malária" e "Parasitoses - quais as principais".

O modelo foi calibrado para refletir a dinâmica de transmissão de ambientes endêmicos de P. vivax no Brasil em 2018, informada por dados de notificação de casos de malária em todo o país. Os parâmetros para as vias de tratamento com cloroquina, primaquina e tafenoquina com teste de deficiência de glicose4-6-fosfato desidrogenase (G6PD) foram informados por dados de ensaios clínicos5 e pela literatura.

Assumiu-se 71,3% de eficácia para primaquina e tafenoquina, uma taxa de adesão de 66,7% ao regime de primaquina de 7 dias, uma prevalência6 média de 5,5% de deficiência de G6PD e 8,1% de prevalência6 de metabolizador lento.

Prevê-se que a introdução da tafenoquina melhore a depuração efetiva de hipnozoítos entre os casos de P. vivax e reduza a transmissão em nível populacional ao longo do tempo, com níveis heterogêneos de impacto em diferentes ambientes de transmissão.

De acordo com o modelo, ao atingir a eliminação em apenas alguns locais no Brasil, estima-se que a distribuição da tafenoquina em 2021 melhore a taxa de cura radical efetiva média de 42% (intervalo de incerteza [UI] de 95%, 41% - 44%) para 62% (UI 95%, 54% - 68%) entre os casos clínicos, levando a uma redução prevista de 38% (UI 95%, 7% - 99%) na transmissão e mais de 214.000 casos evitados cumulativos entre 2021 e 2025.

Maior impacto é previsto em ambientes com baixa transmissão, baixa adesão à primaquina pré-existente e uma alta proporção de casos em homens em idade produtiva. Os ambientes de alta transmissão com uma alta proporção de casos em crianças se beneficiariam de uma dose segura de tafenoquina de alta eficácia para crianças.

As limitações metodológicas incluem não levar em consideração o papel dos casos importados de fora do ambiente de transmissão, confiar nos casos clínicos relatados como uma medida da transmissão no nível da comunidade e implementar a eficácia do tratamento como uma condição binária.

Nesse estudo de modelagem, portanto, previu-se que, desde que haja distribuição simultânea de diagnósticos de deficiência de G6PD, a tafenoquina tem o potencial de reduzir a transmissão do P. vivax, melhorando a cura radical eficaz por meio do aumento da adesão e proteção contra novas infecções2.

Embora a tafenoquina por si só possa não ser suficiente para a eliminação do P. vivax, sua introdução irá melhorar o gerenciamento de casos, prevenir um número substancial de casos e aproximar os países de alcançar as metas de eliminação da malária.

Veja também sobre "Infecções2 oportunistas" e "Diferenças de endemia, epidemia e pandemia7".

Resumo do autor

Por que este estudo foi feito?

  • A cura radical com tafenoquina mais cloroquina foi recentemente aprovada para tratar a malária por P. vivax; no entanto, o impacto de melhorar a cura radical eficaz em nível individual – superando a não adesão com primaquina com este regime de dose única – na transmissão em nível populacional é desconhecido.
  • Dependendo da idade, estado de gravidez8 e lactação9, e atividade fenotípica10 da glicose4-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e metabolismo11 do medicamento, a elegibilidade ao tratamento e as taxas de cura radical eficaz podem variar em diferentes populações com transmissão variável.

O que os pesquisadores fizeram e descobriram?

  • Com a modelagem matemática, os pesquisadores contabilizaram essas dinâmicas complexas para considerar a dinâmica não linear do tratamento com primaquina e tafenoquina sobre a carga da malária por P. vivax em uma gama de cenários e para várias estratégias de implementação.
  • Até onde se sabe, esse trabalho é o primeiro a mostrar como a implantação da tafenoquina nas populações melhorará o manejo de casos de P. vivax, reduzirá a transmissão e evitará um número substancial de casos, mesmo em ambientes com altas taxas de manejo efetivo de casos com primaquina. No entanto, a tafenoquina por si só não leva à eliminação do P. vivax.

O que essas descobertas significam?

  • Levando em consideração os fatores que levam a um grau variável de impacto, os resultados podem orientar os países que consideram a introdução de tafenoquina com testagem de deficiência de G6PD como parte de estratégias de intervenção adaptadas ao seu contexto local.
  • No geral, a tafenoquina terá vários benefícios para a saúde3 pública; no entanto, deve ser considerada como uma ferramenta adicional junto com outras intervenções para atingir as metas de eliminação no período de tempo proposto.

 

Fonte: PLOS Medicine, publicação em 23 de abril de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Tafenoquina tem o potencial de reduzir a transmissão do Plasmodium vivax, causador da malária, segundo estudo realizado no Brasil. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1394265/tafenoquina-tem-o-potencial-de-reduzir-a-transmissao-do-plasmodium-vivax-causador-da-malaria-segundo-estudo-realizado-no-brasil.htm>. Acesso em: 26 nov. 2021.

Complementos

1 Fígado: Órgão que transforma alimento em energia, remove álcool e toxinas do sangue e fabrica bile. A bile, produzida pelo fígado, é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.
2 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
3 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
4 Glicose: Uma das formas mais simples de açúcar.
5 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
6 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
7 Pandemia: É uma epidemia de doença infecciosa que se espalha por um ou mais continentes ou por todo o mundo, causando inúmeras mortes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pandemia pode se iniciar com o aparecimento de uma nova doença na população, quando o agente infecta os humanos, causando doença séria ou quando o agente dissemina facilmente e sustentavelmente entre humanos. Epidemia global.
8 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
9 Lactação: Fenômeno fisiológico neuro-endócrino (hormonal) de produção de leite materno pela puérpera no pós-parto; independente dela estar ou não amamentando.Toda mulher após o parto tem produção de leite - lactação; mas, infelizmente nem todas amamentam.
10 Fenotípica: Referente a fenótipo, ou seja, à manifestação visível ou detectável de um genótipo. Características físicas, morfológicas e fisiológicas do organismo.
11 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
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