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Convulsões funcionais foram associadas a transtornos psiquiátricos e doença cerebrovascular, incluindo acidente vascular cerebral

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Em um estudo em grande escala de registros eletrônicos de saúde1, investigadores do Vanderbilt University Medical Center determinaram a prevalência2 de convulsões funcionais e caracterizaram as comorbidades3 associadas a elas.

As convulsões funcionais são ataques súbitos ou espasmos4 que se parecem com crises epilépticas, mas não têm os padrões elétricos cerebrais aberrantes da epilepsia5.

Os resultados do estudo de caso-controle, publicado no JAMA Network Open, de mais de 3.000 pacientes com história de convulsões funcionais, sugerem que pode haver uma ligação entre convulsões funcionais e doença cerebrovascular6, incluindo acidente vascular cerebral7 – uma nova ligação entre as condições.

As convulsões funcionais, também conhecidas como convulsões não-epilépticas psicogênicas, também foram associadas a transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e trauma de agressão sexual.

As convulsões funcionais são pouco estudadas. Os pacientes apresentam um longo atraso no diagnóstico8, poucas modalidades de tratamento, uma alta taxa de comorbidades3 e estigma significativo devido à falta de conhecimento sobre as crises funcionais.

A primeira autora do estudo, Slavina Goleva, estudante de pós-graduação em Fisiologia9 Molecular e Biofísica do Vanderbilt University Medical Center, observou em um comunicado que cerca de 80% dos pacientes que apresentam convulsões funcionais são inicialmente diagnosticados com epilepsia5 e tratados com drogas antiepilépticas. Esse atraso no diagnóstico8 pode durar, em média, 7 anos. Cerca de 17% a 22% dos pacientes com crises funcionais apresentam epilepsia5 concomitante.

Saiba mais sobre "Convulsões - o que são e primeiros socorros", "Epilepsias", "Agressão sexual" e "Estresse pós-traumático".

Nesse contexto, o objetivo do estudo foi caracterizar a epidemiologia clínica de uma população de pacientes com convulsões funcionais observados no Vanderbilt University Medical Center (VUMC).

O estudo caso-controle incluiu pacientes com convulsões funcionais identificados no sistema de registro eletrônico de saúde1 do VUMC (VUMC-EHR) de outubro de 1989 a outubro de 2018. Pacientes com epilepsia5 foram excluídos do estudo e todos os pacientes restantes no sistema do VUMC foram usados como controles.

No total, o estudo incluiu 1.431 pacientes com diagnóstico8 de convulsões funcionais, 2.251 com epilepsia5 e convulsões funcionais, 4.715 com epilepsia5 sem convulsões funcionais e 502.200 pacientes controle que receberam tratamento no VUMC por um período mínimo de 3 anos. Os dados foram analisados ​​de novembro de 2018 a março de 2020.

A exposição do estudo foi o diagnóstico8 de convulsões funcionais, conforme identificado a partir do sistema VUMC-EHR por um algoritmo de fenotipagem automatizado que incorporou os códigos da Classificação Internacional de Doenças, Nona Revisão (CID-9), os códigos da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde1, Décima Revisão (CID-10), códigos da Current Procedural Terminology e processamento de linguagem natural.

Os principais resultados e medidas foram as associações de convulsões funcionais com comorbidades3 e fatores de risco, medidos em odds ratio (OR).

Do total de 2.346.808 pacientes no VUMC-EHR com 18 anos ou mais, 3.341 pacientes com crises funcionais foram identificados (prevalência2 de período, 0,14%), 1.062 (74,2%) dos quais eram mulheres e para os quais a mediana (intervalo interquartil) da idade era de 49,3 (39,4-59,9) anos.

Esta avaliação replicou associações previamente relatadas com transtornos psiquiátricos, incluindo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (OR, 1,22; IC 95%, 1,21-1,24; P <3,02 × 10−5), ansiedade (OR, 1,14; IC 95%, 1,13-1,15; P <3,02 × 10−5) e depressão (OR, 1,14; IC 95%, 1,13-1,15; P <3,02 × 10−5), e identificou novas associações com doença cerebrovascular6 (OR, 1,08; IC 95%, 1,06-1,09; P <3,02 × 10−5) e isquemia10 cerebral transitória (OR, 1,09; IC 95%, 1,08-1,11, P <3,02 x 10-5).

Entre os pacientes com convulsões funcionais e doença cerebrovascular6, 29% foram diagnosticados com convulsões funcionais antes do início da doença cerebrovascular6, 23% foram diagnosticados com doença cerebrovascular6 e convulsões funcionais dentro de 90 dias uma da outra, e 48% foram diagnosticados com convulsões funcionais após o diagnóstico8 de doença cerebrovascular6.

Foi encontrada uma associação entre convulsões funcionais e o conhecido fator de risco11 trauma por agressão sexual (OR, 10,26; IC 95%, 10,09-10,44; P <3,02 × 10−5), e o trauma por agressão sexual foi descoberto por mediar quase um quarto da associação entre sexo feminino e crises funcionais no VUMC-EHR.

Este estudo de caso-controle encontrou evidências para apoiar associações relatadas anteriormente e descobriu novas associações entre convulsões funcionais e TEPT, ansiedade e depressão. Uma associação entre doença cerebrovascular6 e convulsões funcionais também foi encontrada. Os resultados sugeriram que o trauma sexual pode ser um fator mediador na associação entre sexo feminino e convulsões funcionais.

As descobertas deste estudo sugerem que os pacientes que apresentam convulsões e comorbidades3 psiquiátricas adicionais, história de trauma por agressão sexual ou doença cerebrovascular6 devem ser encaminhados para avaliação diagnóstica por vídeo eletroencefalograma12.

Leia também sobre "Trauma psicológico" e "Transtornos afetivos".

 

Fontes:
JAMA Network Open, publicação em 29 de dezembro de 2020.
Practical Cardiology, notícia publicada em 10 de janeiro de 2021.
EurekAlert!, notícia publicada em 07 de janeiro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Convulsões funcionais foram associadas a transtornos psiquiátricos e doença cerebrovascular, incluindo acidente vascular cerebral. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1386420/convulsoes-funcionais-foram-associadas-a-transtornos-psiquiatricos-e-doenca-cerebrovascular-incluindo-acidente-vascular-cerebral.htm>. Acesso em: 31 jul. 2021.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
3 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
4 Espasmos: 1. Contrações involuntárias, não ritmadas, de um ou vários músculos, podendo ocorrer isolada ou continuamente, sendo dolorosas ou não. 2. Qualquer contração muscular anormal. 3. Sentido figurado: arrebatamento, exaltação, espanto.
5 Epilepsia: Alteração temporária e reversível do funcionamento cerebral, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Quando restritos, a crise será chamada crise epiléptica parcial; quando envolverem os dois hemisférios cerebrais, será uma crise epiléptica generalizada. O paciente pode ter distorções de percepção, movimentos descontrolados de uma parte do corpo, medo repentino, desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente e até perder a consciência - neste caso é chamada de crise complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Existem outros tipos de crises epilépticas.
6 Doença cerebrovascular: É um dano aos vasos sangüíneos do cérebro que resulta em derrame (acidente vascular cerebral). Os vasos tornam-se obstruídos por depósitos de gordura (aterosclerose) ou tornam-se espessados ou duros bloqueando o fluxo sangüíneo para o cérebro. Quando o fluxo é interrompido, as células nervosas sofrem dano ou morrem, resultando no derrame. Pacientes com diabetes descompensado têm maiores riscos de AVC.
7 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
8 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
9 Fisiologia: Estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
10 Isquemia: Insuficiência absoluta ou relativa de aporte sanguíneo a um ou vários tecidos. Suas manifestações dependem do tecido comprometido, sendo a mais frequente a isquemia cardíaca, capaz de produzir infartos, isquemia cerebral, produtora de acidentes vasculares cerebrais, etc.
11 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
12 Eletroencefalograma: Registro da atividade elétrica cerebral mediante a utilização de eletrodos cutâneos que recebem e amplificam os potenciais gerados em cada região encefálica.
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