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Lesão renal aguda ocorre em 43% dos episódios de cetoacidose diabética pediátrica e pode ser parte de um padrão de lesão de múltiplos órgãos envolvendo os rins e o cérebro

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A lesão1 renal2 aguda (LRA) ocorre comumente durante a cetoacidose diabética3 (CAD) em crianças, mas os mecanismos e associações subjacentes não são claros.

O objetivo de um estudo publicado no JAMA Network Open foi investigar a frequência e os fatores de risco de lesão1 renal2 aguda durante a cetoacidose diabética3 em crianças e sua associação com desfechos neurocognitivos.

Saiba mais sobre "Insuficiência renal4 aguda", "Diabetes5 na adolescência" e "Cetoacidose diabética3".

O estudo de coorte6 foi uma análise secundária de dados do Pediatric Emergency Care Applied Research Network Fluid Therapies Under Investigation in DKA Study, um estudo clínico prospectivo7, multicêntrico e randomizado8 comparando protocolos de fluidos para CAD pediátrica em 13 hospitais dos EUA. Os episódios de CAD incluídos ocorreram em crianças menores de 18 anos com glicose9 no sangue10 de 300 mg/dL11 ou mais e pH venoso menor que 7,25 ou nível de bicarbonato sérico menor que 15 mEq/L.

A exposição do estudo foi CAD requerendo terapia com insulina12 intravenosa. A ocorrência e o estágio da LRA foram avaliados por meio de medições de creatinina13 sérica usando os critérios de Doença Renal2: Melhoria dos Resultados Globais. Episódios de CAD com e sem LRA foram comparados por métodos univariável e multivariável, explorando fatores associados.

Entre 1.359 episódios de CAD (média [DP] de idade do paciente, 11,6 [4,1] anos; 727 [53,5%] meninas; 651 pacientes [47,9%] com diabetes5 de início recente), a LRA ocorreu em 584 episódios (43%; IC 95%, 40% - 46%). Um total de 252 eventos de LRA (43%; IC 95%, 39% - 47%) foram estágio 2 ou 3.

As análises multivariadas identificaram idade mais avançada (odds ratio ajustada [AOR] por 1 ano, 1,05; IC 95%, 1,00-1,09; P = 0,03), nitrogênio ureico sérico inicial mais alto (AOR por 1 mg/dL11 de aumento, 1,14; IC 95%, 1,11-1,18; P <0,001), frequência cardíaca mais alta (AOR para aumento de 1-DP no escore-z, 1,20; IC 95%, 1,09-1,32; P <0,001), sódio corrigido pela glicose9 mais alto (AOR por aumento de 1 mEq/L, 1,03; IC 95%, 1,00-1,06; P = 0,001), concentrações de glicose9 mais altas (AOR por aumento de 100 mg/dL11, 1,19; IC 95%, 1,07-1,32; P = 0,001) e pH mais baixo (AOR por aumento de 0,10, 0,63; IC 95%, 0,51-0,78; P <0,001) como variáveis ​​associadas com a LRA.

Crianças com LRA, em comparação com aquelas sem, tiveram pontuações mais baixas em testes de memória de curto prazo durante a CAD (média [DP] memória de amplitude de dígitos: 6,8 [2,4] vs 7,6 [2,2]; P = 0,02) e média (DP) mais baixa de Pontuações de QI14 3 a 6 meses após a recuperação da CAD (100,0 [12,2] vs 103,5 [13,2]; P = 0,005).

As diferenças persistiram após o ajuste para gravidade de CAD e fatores demográficos, incluindo status socioeconômico.

Esses achados sugerem que a lesão1 renal2 aguda pode ocorrer com mais frequência em crianças com maior acidose15 e maior depleção16 do volume circulatório durante a cetoacidose diabética3 e pode ser parte de um padrão de lesão1 de múltiplos órgãos envolvendo os rins17 e o cérebro18.

Leia sobre "Cetoacidose em crianças e adolescentes com diabetes tipo 119 recentemente diagnosticada" e "Nefropatia20 diabética".

 

Fonte: JAMA Network Open, publicação em 04 de dezembro de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Lesão renal aguda ocorre em 43% dos episódios de cetoacidose diabética pediátrica e pode ser parte de um padrão de lesão de múltiplos órgãos envolvendo os rins e o cérebro. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1386210/lesao-renal-aguda-ocorre-em-43-dos-episodios-de-cetoacidose-diabetica-pediatrica-e-pode-ser-parte-de-um-padrao-de-lesao-de-multiplos-orgaos-envolvendo-os-rins-e-o-cerebro.htm>. Acesso em: 22 out. 2021.

Complementos

1 Lesão: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
2 Renal: Relacionado aos rins. Uma doença renal é uma doença dos rins. Insuficiência renal significa que os rins pararam de funcionar.
3 Cetoacidose diabética: Complicação aguda comum do diabetes melito, é caracterizada pela tríade de hiperglicemia, cetose e acidose. Laboratorialmente se caracteriza por pH arterial 250 mg/dl, com moderado grau de cetonemia e cetonúria. Esta condição pode ser precipitada principalmente por infecções, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, trauma e tratamento inadequado do diabetes. Os sinais clínicos da cetoacidose são náuseas, vômitos, dor epigástrica (no estômago), hálito cetônico e respiração rápida. O não-tratamento desta condição pode levar ao coma e à morte.
4 Insuficiência renal: Condição crônica na qual o corpo retém líquido e excretas pois os rins não são mais capazes de trabalhar apropriadamente. Uma pessoa com insuficiência renal necessita de diálise ou transplante renal.
5 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
6 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
7 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
8 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
9 Glicose: Uma das formas mais simples de açúcar.
10 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
11 Mg/dL: Miligramas por decilitro, unidade de medida que mostra a concentração de uma substância em uma quantidade específica de fluido.
12 Insulina: Hormônio que ajuda o organismo a usar glicose como energia. As células-beta do pâncreas produzem insulina. Quando o organismo não pode produzir insulna em quantidade suficiente, ela é usada por injeções ou bomba de insulina.
13 Creatinina: Produto residual das proteínas da dieta e dos músculos do corpo. É excretada do organismo pelos rins. Uma vez que as doenças renais progridem, o nível de creatinina aumenta no sangue.
14 QI: O QI é utilizado para dimensionar a inteligência humana em relação à faixa etária a que um sujeito pertence. Em 1905, os franceses Alfred Binet e Theodore Simon desenvolveram uma ferramenta para avaliar os potenciais cognitivos dos estudantes, tentando detectar entre eles aqueles que precisavam de um auxílio maior de seus mestres, criando a Escala de Binet-Simon. Outros estudiosos aperfeiçoaram esta metodologia. William Stern foi quem, em 1912, propôs o termo “QI“. O Quociente de Inteligência é a razão entre a Idade Mental e a Cronológica, multiplicada por 100 para se evitar a utilização dos decimais. Seguindo-se este indicador, é possível avaliar se um infante é precoce ou se apresenta algum retardamento no aprendizado. Os que apresentam o quociente em torno de 100 são considerados normais, os acima deste resultado revelam-se precoces e os que alcançam um valor mais inferior (cerca de 70) são classificados como retardados. Uma alta taxa de QI não indica que o indivíduo seja mentalmente são, ou mesmo feliz, e também não avalia outros potenciais e capacidades, tais como as artísticas e as de natureza espiritual. O QI mede bem os talentos linguísticos, os pensamentos lógicos, matemáticos e analíticos, a facilidade de abstração em construções teóricas, o desenvolvimento escolar, o saber acadêmico acumulado ao longo do tempo. Os grandes gênios do passado, avaliados dessa forma, apresentavam uma taxa de aproximadamente 180, o que caracteriza um superdotado.
15 Acidose: Desequilíbrio do meio interno caracterizado por uma maior concentração de íons hidrogênio no organismo. Pode ser produzida pelo ganho de substâncias ácidas ou perda de substâncias alcalinas (básicas).
16 Depleção: 1. Em patologia, significa perda de elementos fundamentais do organismo, especialmente água, sangue e eletrólitos (sobretudo sódio e potássio). 2. Em medicina, é o ato ou processo de extração de um fluido (por exxemplo, sangue) 3. Estado ou condição de esgotamento provocado por excessiva perda de sangue. 4. Na eletrônica, em um material semicondutor, medição da densidade de portadores de carga abaixo do seu nível e do nível de dopagem em uma temperatura específica.
17 Rins: Órgãos em forma de feijão que filtram o sangue e formam a urina. Os rins são localizados na região posterior do abdômen, um de cada lado da coluna vertebral.
18 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
19 Diabetes tipo 1: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada por deficiência na produção de insulina. Ocorre quando o próprio sistema imune do organismo produz anticorpos contra as células-beta produtoras de insulina, destruindo-as. O diabetes tipo 1 se desenvolve principalmente em crianças e jovens, mas pode ocorrer em adultos. Há tendência em apresentar cetoacidose diabética.
20 Nefropatia: Lesão ou doença do rim.
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