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Enxaqueca durante a gravidez e o risco de acidente vascular cerebral materno

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A enxaqueca1 tem sido associada ao aumento do risco de acidente vascular cerebral2 materno no período perinatal. Levantou-se a hipótese de que distúrbios hipertensivos mediam essa associação; no entanto, até onde se sabe, isso não foi formalmente quantificado.

O objetivo deste estudo, publicado pelo JAMA Neurology, foi determinar em que medida os distúrbios hipertensivos mediam a associação entre enxaqueca1 e acidente vascular cerebral2 materno.

Consultou-se uma coorte3 retrospectiva de 3 milhões de nascidos vivos na Califórnia, entre janeiro de 2007 e dezembro de 2012, criada a partir de certidões de nascimento e resumos de alta hospitalar. A aprovação do conselho de revisão institucional foi concedida pelo Comitê para a Proteção de Seres Humanos do Estado da Califórnia.

A enxaqueca1 foi identificada a partir dos códigos (346) da Classificação Internacional de Doenças, Nona Revisão (CID-9) no departamento de emergência4 ou nos registros de alta hospitalar durante a gravidez5 ou o parto. O AVC foi identificado a partir dos códigos da CID-9 (AVC isquêmico6: 433, 434, 436; AVC hemorrágico7: 430, 431) e analisado separadamente quanto à ocorrência durante a gravidez5 / parto ou período pós-parto. Os distúrbios hipertensivos (incluindo pré-eclâmpsia8) foram identificados pelo código CID 642.

Para estimar a associação entre enxaqueca1 e acidente vascular cerebral2, realizou-se uma regressão log-linear multivariável, ajustando para idade, índice de massa corporal9 (calculado como peso em quilogramas dividido pela altura em metros ao quadrado), raça/etnia, natividade, fonte do pagador, doença mental, tabagismo, uso de drogas ou álcool e diabetes10.

Uma análise de mediação estimou a proporção da associação total de enxaqueca1 com o risco de AVC materno mediado por distúrbios hipertensivos gestacionais. As análises foram realizadas no SAS, versão 9.4 (SAS Institute), e a significância estatística foi estabelecida em P <0,05.

Saiba mais sobre "Enxaqueca1", "Hipertensão11 da gravidez5" e "Acidente vascular cerebral2".

Havia 26.440 mulheres com diagnóstico12 de enxaqueca1 (914/100.000 partos). Acidentes vasculares13 cerebrais ocorreram em 843 mulheres (29/100.000 partos); AVC isquêmico6 foram 58% de todos os eventos de AVC.

Mulheres com enxaqueca1 eram mais propensas a serem brancas não-hispânicas, ter seguro privado, obesidade14, diabetes10 (pré-existente ou gestacional), ter distúrbios de saúde15 mental, usar tabaco e usar drogas ou álcool.

Mulheres com enxaqueca1 durante a gravidez5 eram mais propensas a ter um distúrbio hipertensivo (15,1% vs 7,0%; taxa de risco ajustada [aRR], 1,6; IC 95%, 1,6-1,7), acidente vascular cerebral2 durante a gravidez5 ou o parto (0,15% vs 0,01% ; aRR, 6,8; IC 95%, 4,7-9,8) ou acidente vascular cerebral2 pós-parto (0,05% vs 0,01%; aRR, 2,1; IC 95%, 1,2-3,7).

Embora os números fossem pequenos, os efeitos foram duas vezes mais fortes nos modelos de AVC isquêmico6 em comparação com o AVC hemorrágico7 (resultados não mostrados). Em uma análise de mediação ajustada para os mesmos potenciais fatores de confusão, os distúrbios hipertensivos mediaram 21% do risco de acidente vascular cerebral2 durante a gravidez5/parto e 27% do risco de acidente vascular cerebral2 pós-parto. Nas análises estratificadas, a pré-eclâmpsia8 pareceu contribuir com a maior parte do excesso de risco associado aos distúrbios hipertensivos (resultados não mostrados).

Semelhante a trabalhos anteriores, tanto em grávidas quanto em mulheres não grávidas, foi encontrado um risco elevado de acidente vascular cerebral2 entre mulheres com enxaqueca1. Aproximadamente um quarto dos casos em excesso de acidente vascular cerebral2 materno associado à enxaqueca1 foram atribuídos a distúrbios hipertensivos.

Isso sugere que existem outras vias entre enxaqueca1 e acidente vascular cerebral2 durante o período perinatal, potencialmente através de alterações fisiopatológicas, como aumento do volume sanguíneo e circulação16 cerebral.

As limitações deste estudo incluem a temporalidade incerta de enxaqueca1, hipertensão11 e acidente vascular cerebral2 nos modelos pré-natais. Como a dor de cabeça17 intensa pode acompanhar os derrames ou a pré-eclâmpsia8, a enxaqueca1 pode ser codificada como uma sequela18 de qualquer uma das condições, com o momento da enxaqueca1 não sendo distinguível nos resumos de alta.

A mediação pressupõe que a exposição (enxaqueca1) causa o mediador (hipertensão11), que por sua vez causa o resultado, e os desvios a essa sequência ou estrutura temporal afetariam os achados e a interpretação. Além disso, é provável que apenas enxaquecas19 graves e ativas sejam registradas em resumos de alta, o que poderia levar a taxas de risco mais fortes que não são generalizáveis ​​a enxaquecas19 menos severas. Finalmente, não havia dados sobre o tratamento da enxaqueca1 e todos os modelos são vulneráveis ​​a confusões não mensuradas.

Em conclusão, aproximadamente 25% do risco excessivo de AVC materno associado à enxaqueca1 foi mediado por distúrbios hipertensivos. Embora os acidentes vasculares13 cerebrais sejam eventos raros, a morbidade20 e mortalidade21 associadas justificam a identificação de alvos de intervenção modificáveis.

Leia sobre "Gravidez5 de risco", "Eclâmpsia22 e pré-eclâmpsia8" e "Mitos e verdades sobre dor de cabeça17".

 

Fonte: JAMA Neurology, publicação em 01 de junho de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. Enxaqueca durante a gravidez e o risco de acidente vascular cerebral materno. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1368843/enxaqueca-durante-a-gravidez-e-o-risco-de-acidente-vascular-cerebral-materno.htm>. Acesso em: 24 nov. 2020.

Complementos

1 Enxaqueca: Sinônimo de migrânea. É a cefaléia cuja prevalência varia de 10 a 20% da população. Ocorre principalmente em mulheres com uma proporção homem:mulher de 1:2-3. As razões para esta preponderância feminina ainda não estão bem entendidas, mas suspeita-se de alguma relação com o hormônio feminino. Resulta da pressão exercida por vasos sangüíneos dilatados no tecido nervoso cerebral subjacente. O tratamento da enxaqueca envolve normalmente drogas vaso-constritoras para aliviar esta pressão. No entanto, esta medicamentação pode causar efeitos secundários no sistema circulatório e é desaconselhada a pessoas com problemas cardiológicos.
2 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
3 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
4 Emergência: 1. Ato ou efeito de emergir. 2. Situação grave, perigosa, momento crítico ou fortuito. 3. Setor de uma instituição hospitalar onde são atendidos pacientes que requerem tratamento imediato; pronto-socorro. 4. Eclosão. 5. Qualquer excrescência especializada ou parcial em um ramo ou outro órgão, formada por tecido epidérmico (ou da camada cortical) e um ou mais estratos de tecido subepidérmico, e que pode originar nectários, acúleos, etc. ou não se desenvolver em um órgão definido.
5 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
6 Isquêmico: Relativo à ou provocado pela isquemia, que é a diminuição ou suspensão da irrigação sanguínea, numa parte do organismo, ocasionada por obstrução arterial ou por vasoconstrição.
7 Hemorrágico: Relativo à hemorragia, ou seja, ao escoamento de sangue para fora dos vasos sanguíneos.
8 Pré-eclâmpsia: É caracterizada por hipertensão, edema (retenção de líquidos) e proteinúria (presença de proteína na urina). Manifesta-se na segunda metade da gravidez (após a 20a semana de gestação) e pode evoluir para convulsão e coma, mas essas condições melhoram com a saída do feto e da placenta. No meio médico, o termo usado é Moléstia Hipertensiva Específica da Gravidez. É a principal causa de morte materna no Brasil atualmente.
9 Índice de massa corporal: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
10 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
11 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
12 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
13 Vasculares: Relativo aos vasos sanguíneos do organismo.
14 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
15 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
16 Circulação: 1. Ato ou efeito de circular. 2. Facilidade de se mover usando as vias de comunicação; giro, curso, trânsito. 3. Movimento do sangue, fluxo de sangue através dos vasos sanguíneos do corpo e do coração.
17 Cabeça:
18 Sequela: 1. Na medicina, é a anomalia consequente a uma moléstia, da qual deriva direta ou indiretamente. 2. Ato ou efeito de seguir. 3. Grupo de pessoas que seguem o interesse de alguém; bando. 4. Efeito de uma causa; consequência, resultado. 5. Ato ou efeito de dar seguimento a algo que foi iniciado; sequência, continuação. 6. Sequência ou cadeia de fatos, coisas, objetos; série, sucessão. 7. Possibilidade de acompanhar a coisa onerada nas mãos de qualquer detentor e exercer sobre ela as prerrogativas de seu direito.
19 Enxaquecas: Sinônimo de migrânea. É a cefaléia cuja prevalência varia de 10 a 20% da população. Ocorre principalmente em mulheres com uma proporção homem:mulher de 1:2-3. As razões para esta preponderância feminina ainda não estão bem entendidas, mas suspeita-se de alguma relação com o hormônio feminino. Resulta da pressão exercida por vasos sangüíneos dilatados no tecido nervoso cerebral subjacente. O tratamento da enxaqueca envolve normalmente drogas vaso-constritoras para aliviar esta pressão. No entanto, esta medicamentação pode causar efeitos secundários no sistema circulatório e é desaconselhada a pessoas com problemas cardiológicos.
20 Morbidade: Morbidade ou morbilidade é a taxa de portadores de determinada doença em relação à população total estudada, em determinado local e em determinado momento.
21 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
22 Eclâmpsia: Ocorre quando a mulher com pré-eclâmpsia grave apresenta covulsão ou entra em coma. As convulsões ocorrem porque a pressão sobe muito e, em decorrência disso, diminui o fluxo de sangue que vai para o cérebro.
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