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JAMA Psychiatry: distúrbios alimentares maternos podem aumentar risco de eventos adversos na gravidez e de danos aos neonatos

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A prevalência1 de distúrbios alimentares é alta entre as mulheres em idade reprodutiva, mas a associação de distúrbios alimentares com complicações na gravidez2 e saúde3 neonatal não foi investigada em detalhes, até o momento.

Com o objetivo de investigar o risco relativo de gravidez2 adversa e resultados neonatais para mulheres com transtornos alimentares foi realizado um estudo, publicado online pelo periódico JAMA Psychiatry. Este estudo de coorte4 de base populacional incluiu todos os nascimentos únicos incluídos no Registro de Nascimento Médico da Suécia de 1 de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2014.

Um total de 7.542 mulheres com transtornos alimentares foi comparado com 1.225.321 mulheres sem transtornos alimentares. A análise estatística foi realizada de 1 de janeiro de 2018 a 30 de abril de 2019. Por meio do vínculo com o registro nacional de pacientes, mulheres com transtornos alimentares foram identificadas e comparadas com mulheres livres de qualquer transtorno alimentar. Os distúrbios alimentares foram ainda estratificados em doenças ativas ou anteriores, com base na última vez do diagnóstico5.

O risco de resultados adversos na gravidez2 (hiperêmese, anemia6, pré-eclâmpsia7 e hemorragia8 pré-parto), o modo de parto (parto cesáreo, parto vaginal ou parto vaginal instrumental) e os resultados neonatais (parto prematuro, tamanhos pequeno e grande para idade gestacional, índice de Apgar menor que 7 aos 5 minutos e microcefalia9) foram calculados usando a análise de regressão de Poisson para estimar as razões de risco (RRs). Os modelos foram ajustados para idade, paridade, tabagismo e ano de nascimento.

Saiba mais sobre "Hiperêmese gravídica", "Anemia6 na gravidez2", "Eclâmpsia10 e pré-eclâmpsia7", "Sangramentos na gravidez2".

Havia 2.769 mulheres com anorexia nervosa11 (idade média [DP], 29,4 [5,3] anos), 1.378 mulheres com bulimia12 nervosa (idade média [DP], 30,2 [4,9] anos) e 3.395 mulheres com um “distúrbio alimentar não especificado de outra forma” (do inglês “eating disorder not otherwise specified“ ou “EDNOS”; idade média [DP], 28,9 [5,3] anos) e elas foram analisadas e comparadas com 1.225.321 mulheres sem distúrbios alimentares (idade média [DP], 30,3 [5,2] anos).

Todos os subtipos de transtornos alimentares maternos foram associados a um risco aproximadamente duas vezes maior de hiperêmese durante a gravidez2 (anorexia nervosa11: RR, 2,1 [IC 95%, 1,8-2,5]; bulimia12 nervosa: RR, 2,1 [IC 95%, 1,6- 2,7]; EDNOS: RR, 2,6 [IC 95%, 2,3-3,0]).

O risco de anemia6 durante a gravidez2 foi dobrado para mulheres com anorexia nervosa11 ativa (RR, 2,1 [IC 95%, 1,3-3,2]) ou EDNOS (RR, 2,1 [IC 95%, 1,5-2,8]).

A anorexia nervosa11 materna foi associada a um risco aumentado de hemorragia8 pré-parto (RR, 1,6 [IC 95%, 1,2-2,1]), que foi mais pronunciado na doença ativa versus anterior.

Mulheres com anorexia nervosa11 (RR, 0,7 [IC 95%, 0,6-0,9]) e mulheres com EDNOS (RR, 0,8 [IC 95%, 0,7-1,0]) apresentaram risco reduzido de partos vaginais assistidos por instrumentos; caso contrário, não houve grandes diferenças no tipo de parto.

Mulheres com transtornos alimentares de todos os subtipos apresentavam risco aumentado de parto prematuro (anorexia nervosa11: RR, 1,6 [IC 95%, 1,4-1,8]; bulimia12 nervosa: RR, 1,3 [IC 95%, 1,0-1,6] e EDNOS: RR, 1,4 [IC 95%, 1,2-1,6]) e de recém-nascidos com microcefalia9 (anorexia nervosa11: RR, 1,9 [IC 95%, 1,5-2,4]; bulimia12 nervosa: RR, 1,6 [IC 95%, 1,1 -2,4]; EDNOS: RR, 1,4 [IC 95%, 1,2-1,9]).

O estudo concluiu que os distúrbios alimentares maternos foram associados principalmente a hemorragia8 pré-parto, parto prematuro, tamanho pequeno para a idade gestacional (PIG) e microcefalia9. O risco da maioria desses resultados foi mais pronunciado em mulheres com transtorno alimentar ativo, mas também aumentou significativamente em mulheres com transtorno alimentar anterior.

Dessa forma, os distúrbios alimentares ativos ou anteriores, independentemente do subtipo, parecem estar associados a um risco aumentado de resultados adversos na gravidez2 e nos neonatos13. Esses resultados destacam a importância do reconhecimento de distúrbios alimentares em gestantes e da possível associação com a saúde3 materna e neonatal. Isso sugere que é necessária maior vigilância nos cuidados pré-natais e no parto.

Leia sobre "Anorexia nervosa11", "Bulimia12", "Ortorexia" e "Prematuridade".

 

Fonte: JAMA Psychiatry, publicação online de 20 de novembro de 2019.

 

NEWS.MED.BR, 2019. JAMA Psychiatry: distúrbios alimentares maternos podem aumentar risco de eventos adversos na gravidez e de danos aos neonatos. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1352998/jama-psychiatry-disturbios-alimentares-maternos-podem-aumentar-risco-de-eventos-adversos-na-gravidez-e-de-danos-aos-neonatos.htm>. Acesso em: 7 dez. 2019.

Complementos

1 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
2 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
3 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
4 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
5 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
6 Anemia: Condição na qual o número de células vermelhas do sangue está abaixo do considerado normal para a idade, resultando em menor oxigenação para as células do organismo.
7 Pré-eclâmpsia: É caracterizada por hipertensão, edema (retenção de líquidos) e proteinúria (presença de proteína na urina). Manifesta-se na segunda metade da gravidez (após a 20a semana de gestação) e pode evoluir para convulsão e coma, mas essas condições melhoram com a saída do feto e da placenta. No meio médico, o termo usado é Moléstia Hipertensiva Específica da Gravidez. É a principal causa de morte materna no Brasil atualmente.
8 Hemorragia: Saída de sangue dos vasos sanguíneos ou do coração para o exterior, para o interstício ou para cavidades pré-formadas do organismo.
9 Microcefalia: Pequenez anormal da cabeça, geralmente associada à deficiência mental.
10 Eclâmpsia: Ocorre quando a mulher com pré-eclâmpsia grave apresenta covulsão ou entra em coma. As convulsões ocorrem porque a pressão sobe muito e, em decorrência disso, diminui o fluxo de sangue que vai para o cérebro.
11 Anorexia nervosa: Distúrbio alimentar caracterizado por uma alteração da imagem corporal associado à anorexia.
12 Bulimia: Ingestão compulsiva de alimentos, em geral seguida de indução do vômito ou uso abusivo de laxantes. Trata-se de uma doença psiquiátrica, que faz parte dos chamados Transtornos Alimentares, juntamente com a Anorexia Nervosa, à qual pode estar associada.
13 Neonatos: Refere-se a bebês nos seus primeiros 28 dias (mês) de vida. O termo “recentemente-nascido“ refere-se especificamente aos primeiros minutos ou horas que se seguem ao nascimento. Esse termo é utilizado para enfocar os conhecimentos e treinamento da ressuscitação imediatamente após o nascimento e durante as primeiras horas de vida.
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