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Sertralina reduz primeiro os sintomas de ansiedade e só depois os de depressão, em estudo publicado pelo The Lancet Psychiatry

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A depressão é geralmente tratada nos cuidados primários, mas a maioria dos ensaios com antidepressivos são realizados em doentes dos serviços de saúde1 mental de cuidados secundários, com critérios de elegibilidade baseados no diagnóstico2 e na gravidade dos sintomas3 depressivos. Os antidepressivos são agora utilizados num grupo muito mais vasto de pessoas do que em ensaios regulamentares anteriores.

Em estudo publicado no periódico The Lancet Psychiatry, pacientes com sintomas3 depressivos leves a graves, ou ansiedade, ou uma mistura de ambos, foram selecionados por pesquisadores da University College London (UCL) no Reino Unido e incluídos no estudo PANDA. O estudo investigou a eficácia clínica da sertralina em pacientes em cuidados primários com sintomas3 depressivos leves a graves e testou o papel da gravidade e duração na resposta ao tratamento com a sertralina.

Saiba mais sobre "Ansiedade normal e patológica", "Depressão" e "Antidepressivos".

O estudo PANDA foi um estudo pragmático, multicêntrico, duplo-cego, randomizado4 e controlado por placebo5 de pacientes de 179 consultórios de cuidados primários em quatro cidades do Reino Unido (Bristol, Liverpool, Londres e York). Foram incluídos pacientes entre 18 e 74 anos que apresentavam sintomas3 depressivos de qualquer gravidade ou duração nos últimos 2 anos, onde havia incerteza clínica sobre o benefício de um antidepressivo. Esta estratégia foi concebida para melhorar a generalização da amostra quanto ao uso atual de antidepressivos nos cuidados primários.

Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente (1:1) com um código gerado por computador remoto para sertralina ou placebo5, e foram estratificados por gravidade, duração e local com comprimento de bloco aleatório. Os pacientes receberam uma cápsula (sertralina 50 mg ou placebo5 por via oral) diariamente por uma semana e depois duas cápsulas diariamente por até 11 semanas, consistentes com evidências de doses ótimas para eficácia e aceitabilidade.

O desfecho primário incluiu sintomas3 depressivos 6 semanas após a randomização, medidos pelos escores do questionário Patient Health Questionnaire, 9-item version (PHQ-9). Os desfechos secundários em 2, 6 e 12 semanas foram sintomas3 depressivos e remissão (PHQ-9 e Beck Depression Inventory-II), sintomas3 de ansiedade generalizada (Generalised Anxiety Disorder Assessment 7-item version), qualidade de vida relacionada à saúde1 física e mental (12-item Short-Form Health Survey) e melhora autorrelatada. Todas as análises compararam grupos como aleatórios (intenção de tratamento).

Entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de agosto de 2017, foram recrutados e distribuídos aleatoriamente 655 pacientes — 326 (50%) para sertralina e 329 (50%) para placebo5. Dois pacientes do grupo sertralina não completaram uma proporção substancial da avaliação basal e foram excluídos, deixando 653 pacientes no total. Devido ao atrito, as análises de desfecho primário foram de 550 pacientes (266 no grupo sertralina e 284 no grupo placebo5; 85% de seguimento que não diferiram na alocação do tratamento).

Não foram encontradas evidências de que a sertralina tenha levado a uma redução clinicamente significativa dos sintomas3 depressivos em seis semanas. A média do escore PHQ-9 de 6 semanas foi 7,98 (DP 5,63) no grupo sertralina e 8,76 (5,86) no grupo placebo5 (diferença proporcional ajustada 0,95; IC 95% 0,85-1,07; p = 0,41). No entanto, para desfechos secundários, foram encontradas evidências de que a sertralina levou à redução dos sintomas3 de ansiedade, melhor qualidade de vida relacionada à saúde1 mental (mas não física) e melhorias autorrelatadas na saúde1 mental.

Observou-se fraca evidência de que os sintomas3 depressivos foram reduzidos pela sertralina em 12 semanas. Foram registrados sete eventos adversos — quatro para sertralina e três para placebo5, e os eventos adversos não diferiram na alocação do tratamento. Três eventos adversos foram classificados como graves — dois no grupo sertralina e um no grupo placebo5. Um evento adverso grave no grupo sertralina foi classificado como possivelmente relacionado à medicação em estudo.

É improvável que a sertralina reduza os sintomas3 depressivos dentro de 6 semanas nos cuidados primários, mas foram observadas melhorias na ansiedade, qualidade de vida e saúde1 mental auto-avaliada, que provavelmente serão clinicamente importantes. Os achados apoiam a prescrição de antidepressivos SSRI em um grupo maior de participantes do que se pensava anteriormente, incluindo aqueles com sintomas3 leves a moderados que não atendem aos critérios diagnósticos para depressão maior ou transtorno de ansiedade generalizada.

Pesquisas anteriores já diziam que todos os antidepressivos são mais eficazes na redução dos sintomas3 de depressão aguda do que pílulas placebo5, mas não foram baseados em opiniões individuais dos pacientes a respeito de como eles se sentiam. Este é o maior estudo controlado por placebo5 de um antidepressivo que não foi financiado pela indústria farmacêutica, disseram os pesquisadores da UCL.

Leia também sobre "Depressão psicótica versus depressão maior", "Transtorno de ansiedade generalizada" e "Por que as pessoas são mais ansiosas hoje em dia do que antigamente".

 

Fonte: The Lancet Psychiatry, em 19 de setembro de 2019.

 

NEWS.MED.BR, 2019. Sertralina reduz primeiro os sintomas de ansiedade e só depois os de depressão, em estudo publicado pelo The Lancet Psychiatry. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1346913/sertralina-reduz-primeiro-os-sintomas-de-ansiedade-e-so-depois-os-de-depressao-em-estudo-publicado-pelo-the-lancet-psychiatry.htm>. Acesso em: 12 dez. 2019.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
5 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
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