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Programa de triagem neonatal para doença falciforme foi lançado na África

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Em 21 de abril de 2021, a triagem neonatal para a doença falciforme foi lançada no Arthur Davison Children's Hospital em Ndola, Zâmbia. O primeiro programa de triagem neonatal da doença falciforme e intervenção terapêutica1 precoce dentro da estrutura existente do Programa Expandido de Imunização2 e HIV3 para diagnóstico4 infantil precoce na Zâmbia faz parte do Consórcio para Triagem Neonatal na África (CONSA, do inglês Consortium on Newborn Screening in Africa) da Sociedade Americana de Hematologia. A triagem será feita em três hospitais na Zâmbia para criar um registro de informações demográficas, médicas e laboratoriais de crianças com diagnóstico4 de doença falciforme.

Lançado em 2016 para lidar com a carga global da doença falciforme, o CONSA mostra o valor da triagem neonatal e como ela pode ser implementada em diversos ambientes em toda a África Subsaariana. “Mais de 300.000 bebês5 nascem com doença falciforme na África Subsaariana todos os anos. No entanto, a grande maioria não vive até os 5 anos”, afirma Kwaku Ohene-Frempong, Presidente da Sickle Cell Foundation de Gana e coordenador nacional do CONSA. “Isso se deve principalmente a três causas amplamente evitáveis: infecção6 pneumocócica invasiva, malária aguda e sequestro esplênico7 agudo8, todos os quais podem estar associados a altas taxas de mortalidade9 após uma curta doença”, disse ele ao The Lancet Hematology.

O diagnóstico4 precoce da doença falciforme seguido de profilaxia oral com penicilina duas vezes ao dia reduz bastante a bacteremia10 pneumocócica; a quimioprofilaxia da malária ou os mosquiteiros tratados com inseticida ajudam a reduzir a incidência11 e a mortalidade9 por infecção6 aguda da malária; e o treinamento dos pais e cuidadores na palpação12 do baço13 permite o diagnóstico4 precoce de esplenomegalia14 devido ao sequestro esplênico7 agudo8 e consulta médica imediata para intervenção que salva vidas, explica Ohene-Frempong. O valor da triagem neonatal para a doença falciforme, seguido de profilaxia com penicilina, foi demonstrado nos EUA em 1986. “Essas intervenções baratas reduziram a mortalidade9 de bebês5 com doença falciforme em Kumasi, Gana, para 4,5% nos primeiros 10 anos de vida no programa piloto de triagem neonatal”, diz Ohene-Frempong.

Saiba mais sobre "Anemia falciforme15", "Teste do Pezinho ou Triagem Neonatal" e "Hemoglobinopatias16 - como elas são".

O objetivo do CONSA é introduzir práticas de tratamento padrão para triagem e terapias de intervenção precoces nas instituições participantes, rastreando de 10.000 a 16.000 bebês5 por ano no Quênia, Gana, Libéria, Nigéria, Uganda, Tanzânia e Zâmbia, e fornecer serviços clínicos de acompanhamento para bebês5 com teste positivo para a doença, afirma Enrico Novelli, copresidente do CONSA. Hematologistas e funcionários de saúde17 pública do CONSA mobilizam redes de laboratórios de triagem, clínicas de doença falciforme ou hematologia pediátrica, hospitais universitários, universidades e clínicas satélite para examinar bebês5 e fornecer serviços clínicos. As triagens começaram em Gana, Nigéria, Uganda e Zâmbia; Quênia, Libéria e Tanzânia começarão a triagem nos próximos meses, disse Novelli.

Na Nigéria, os primeiros bebês5 identificados no programa CONSA foram no Centro de Saúde17 Primária Angwan Dodo e no Hospital Universitário da Universidade de Abuja em dezembro de 2020. Em meados de abril de 2021, mais três bebês5 foram confirmados como portadores de doença falciforme na Rede Abuja do CONSA. Na Rede Kaduna, os primeiros dois bebês5 foram examinados para a doença falciforme na unidade de cuidados especiais para bebês5 do Hospital Universitário de Shika-Zaria, da Universidade Ahmadu Bello, em Kaduna, em abril. “Este projeto da Iniciativa Africana de Pesquisa e Inovação para a Educação em Doença Falciforme (também conhecida como ARISE) é um dos muitos esforços conjuntos de diferentes ONGs para realizar exames de recém-nascidos no país”, disse Nnodu Obiageli, Professora de Hematologia e Transfusão18 de Sangue19, Universidade de Abuja, Nigéria.

O governo nigeriano em nível federal estabeleceu centros abrangentes de triagem neonatal em cada zona geopolítica do país desde 2012, diz ela, acrescentando que “alguns dos centros estão realizando triagem neonatal, embora nem todos estejam ativos”.

A triagem neonatal da doença falciforme na África está ganhando atenção, diz Obiageli, mas “novos programas precisam ser devidamente estabelecidos antes que possamos descrevê-los como em expansão”. “A falta de conhecimento técnico e de mão20 de obra treinada e a necessidade de obter todos os reagentes e equipamentos de fora do continente” prejudica o progresso, diz ela.

A adoção da triagem neonatal para a doença falciforme na África tem sido lenta. Nenhum país africano se comprometeu com a triagem universal como fizeram com as imunizações infantis, diz Ohene-Frempong. Poucos países têm um programa de triagem neonatal, e apenas uma pequena porcentagem dos bebês5 nascidos anualmente na África foram testados para a doença, diz ele.

Embora o CONSA tenha sido um catalisador para a triagem neonatal por meio do fornecimento de infraestrutura, reagentes para os ensaios de triagem e treinamento de profissionais de saúde17 para implementar a triagem nos países do consórcio, cada país deve ter alocação orçamentária para apoiar a triagem neonatal a longo prazo, nota Obiageli.

“Nosso objetivo é a sustentabilidade de longo prazo para o programa”, diz Novelli. “Esperamos envolver os defensores da doença falciforme, governos locais, organizações internacionais e parceiros da indústria à medida que vemos a expansão da triagem neonatal para a doença falciforme na África Subsaariana”.

Leia sobre "Calendário de Vacinação", "Pneumonia21 na infância", "Sequestro esplênico7 - qual é o perigo" e "Conheça mais sobre as anemias".

 

Fonte: The Lancet Haematology, Vol. 8, Nº 7, em julho de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Programa de triagem neonatal para doença falciforme foi lançado na África. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/saude/1397400/programa-de-triagem-neonatal-para-doenca-falciforme-foi-lancado-na-africa.htm>. Acesso em: 4 ago. 2021.

Complementos

1 Terapêutica: Terapia, tratamento de doentes.
2 Imunização: Processo mediante o qual se adquire, de forma natural ou artificial, a capacidade de defender-se perante uma determinada agressão bacteriana, viral ou parasitária. O exemplo mais comum de imunização é a vacinação contra diversas doenças (sarampo, coqueluche, gripe, etc.).
3 HIV: Abreviatura em inglês do vírus da imunodeficiência humana. É o agente causador da AIDS.
4 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
5 Bebês: Lactentes. Inclui o período neonatal e se estende até 1 ano de idade (12 meses).
6 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
7 Esplênico: Relativo ao baço.
8 Agudo: Descreve algo que acontece repentinamente e por curto período de tempo. O oposto de crônico.
9 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
10 Bacteremia: Presença de bactérias no sangue, porém sem que as mesmas se multipliquem neste. Quando elas se multiplicam no sangue chamamos “septicemia”.
11 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
12 Palpação: Ato ou efeito de palpar. Toque, sensação ou percepção pelo tato. Em medicina, é o exame feito com os dedos ou com a mão inteira para explorar clinicamente os órgãos e determinar certas características, como temperatura, resistência, tamanho etc.
13 Baço:
14 Esplenomegalia: Aumento tamanho do baço acima dos limites normais
15 Anemia falciforme: Doença hereditária que causa a má formação das hemácias, que assumem forma semelhante a foices (de onde vem o nome da doença), com maior ou menor severidade de acordo com o caso, o que causa deficiência do transporte de gases nos indivíduos que possuem a doença. É comum na África, na Europa Mediterrânea, no Oriente Médio e em certas regiões da Índia.
16 Hemoglobinopatias: Doenças genéticas que resultam de uma alteração na estrutura das cadeias de globinas em uma molécula de hemoglobina. As hemoglobinopatias mais comuns são as doenças falciformes e a talassemia.
17 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
18 Transfusão: Introdução na corrente sangüínea de sangue ou algum de seus componentes. Podem ser transfundidos separadamente glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma, fatores de coagulação, etc.
19 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
20 Mão: Articulação entre os ossos do metacarpo e as falanges.
21 Pneumonia: Inflamação do parênquima pulmonar. Sua causa mais freqüente é a infecção bacteriana, apesar de que pode ser produzida por outros microorganismos. Manifesta-se por febre, tosse, expectoração e dor torácica. Em pacientes idosos ou imunodeprimidos pode ser uma doença fatal.
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