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Primeiro nascimento vivo após transplante de útero de uma doadora falecida para receptora com infertilidade por fator uterino

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
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Primeiro nascimento vivo após transplante de útero de uma doadora falecida para receptora com infertilidade por fator uterino

O transplante de útero de doadores vivos tornou-se uma realidade para tratar a infertilidade após uma bem sucedida série sueca de 2014, inspirando centros de transplante de útero e programas em todo o mundo. No entanto, nenhum caso de nascidos vivos via útero de doador falecido tinha tido sucesso conhecido até o momento desta descrição de caso no periódico The Lancet. Daí as dúvidas sobre sua viabilidade, incluindo se o útero permanece viável após isquemia prolongada.

Em setembro de 2016, uma mulher de 32 anos com ausência uterina congênita (síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser [MRKH]) foi submetida a transplante uterino no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, no Brasil, recebendo o útero de uma doadora falecida por hemorragia subaracnóidea. A doadora tinha 45 anos e havia tido três partos vaginais anteriores. A receptora teve um ciclo de fertilização in vitro 4 meses antes do transplante, que resultou em oito blastocistos criopreservados.

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A receptora apresentou recuperação pós-operatória satisfatória e recebeu alta após 8 dias de observação no hospital. A imunossupressão foi induzida com prednisolona e timoglobulina e continuada via tacrolimus e micofenalato mofetil (MMF), até 5 meses após o transplante, quando a azatioprina substituiu o MMF.

A primeira menstruação ocorreu 37 dias após o transplante e regularmente (a cada 26-32 dias) a partir de então. A gravidez ocorreu após a primeira transferência única de embriões 7 meses após o transplante. Nenhuma anormalidade da forma de onda da velocidade do fluxo sanguíneo foi detectada pela ultrassonografia por Doppler das artérias uterinas, artérias umbilicais fetais ou artérias cerebrais médias, nem qualquer deficiência no crescimento fetal durante a gravidez. Nenhum episódio de rejeição ocorreu após o transplante ou durante a gestação.

A cesárea ocorreu em 15 de dezembro de 2017, próximo a 36 semanas de gestação. O bebê do sexo feminino pesava 2550 gramas ao nascimento, adequada para a idade gestacional, com Apgar de 9 em 1 minuto, 10 em 5 minutos e 10 em 10 minutos e, assim como a mãe, permaneceu saudável e desenvolveu-se normalmente 7 meses após o parto. O útero foi removido no mesmo procedimento cirúrgico que o parto e a terapia imunossupressora foi suspensa.

Os pesquisadores brasileiros descreveram, até onde se tem conhecimento, o primeiro caso mundial de nascidos vivos após transplante de útero de um doador falecido em uma paciente com síndrome de MRKH. Os resultados estabelecem a prova de conceito para o tratamento da infertilidade uterina por transplante de uma doadora falecida, abrindo esperanças para uma gravidez saudável para todas as mulheres com infertilidade por fator uterino, sem necessidade de doadores vivos ou cirurgias de doadores vivos.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, no Brasil, financiaram o estudo.

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Fonte: The Lancet, em 4 de dezembro de 2018

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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