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Uso de reposição hormonal pode aumentar risco de câncer de ovário: meta-análise de 52 estudos epidemiológicos publicada pelo The Lancet

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Metade dos estudos epidemiológicos com dados sobre uso de terapia hormonal na menopausa1 e o risco de câncer2 de ovário3 permanecem sem publicação e alguns estudos retrospectivos poderiam ter sido influenciados pela participação seletiva ou recall. O objetivo da meta-análise publicada pelo The Lancet foi avaliar com viés mínimo os efeitos da terapia hormonal sobre o risco de câncer2 de ovário3.

Os conjuntos de dados de participantes individuais de 52 estudos epidemiológicos foram analisados de forma centralizada. A análise principal envolveu os estudos prospectivos (com o uso de terapia hormonal por mais de quatro anos) e as análises de sensibilidade incluíram os estudos retrospectivos.

Durante o seguimento prospectivo4, 12.110 mulheres na pós-menopausa1, 55% (6.601) das quais tinham usado a terapia hormonal, desenvolveram câncer2 de ovário3. Entre as mulheres registradas como usuárias atuais, o risco foi aumentado mesmo com menos de cinco anos de uso (RR 1,43, IC 95% 1,31-1,56; p<0,0001). Combinando o uso atual ou recente (qualquer duração de tratamento, mas que tenha sido encerrado com menos de cinco anos antes do diagnóstico5) resultou em um RR de 1,37 (IC 95% 1,29-1,46; p<0,0001); este risco foi semelhante em estudos prospectivos europeus e americanos e para o uso tanto de preparações com estrógeno6 apenas, quanto para aquelas com estrogênio e progesterona, mas diferiu entre os quatro principais tipos de tumores (heterogeneidade p<0,0001), sendo definitivamente aumentado para os dois tipos mais comuns, seroso (RR 1,53; IC 95% 1,40-1,66; p<0,0001) e endometrioide (1,42; 1,20-1,67; p<0,0001). O risco diminuía a medida que o tempo de suspensão dos hormônios aumentava, embora cerca de 10 anos depois de ter parado de usar terapia hormonal de longa duração ainda havia um excesso de tumores serosos ou endometrioides (RR 1,25; IC 95% 1,07-1,46, p=0,005).

O risco aumentado para o câncer2 de ovário3 em usuárias de terapia hormonal pode muito bem ser, em grande parte ou totalmente, causal; se for, as mulheres que usam a terapia hormonal por 5 anos a partir de cerca de 50 anos de idade têm cerca de um câncer2 de ovário3 adicional por 1.000 usuárias e, se o seu prognóstico7 for típico, cerca de uma morte extra por câncer2 de ovário3 por 1.700 usuárias.

O estudo foi financiado pelo Medical Research Council, Cancer2 Research UK.

Fonte: The Lancet, publicação online de 12 de fevereiro de 2015

NEWS.MED.BR, 2015. Uso de reposição hormonal pode aumentar risco de câncer de ovário: meta-análise de 52 estudos epidemiológicos publicada pelo The Lancet. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/743497/uso-de-reposicao-hormonal-pode-aumentar-risco-de-cancer-de-ovario-meta-analise-de-52-estudos-epidemiologicos-publicada-pelo-the-lancet.htm>. Acesso em: 28 out. 2020.

Complementos

1 Menopausa: Estado fisiológico caracterizado pela interrupção dos ciclos menstruais normais, acompanhada de alterações hormonais em mulheres após os 45 anos.
2 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
3 Ovário: Órgão reprodutor (GÔNADAS) feminino. Nos vertebrados, o ovário contém duas partes funcionais Sinônimos: Ovários
4 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
5 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
6 Estrógeno: Grupo hormonal produzido principalmente pelos ovários e responsáveis por numerosas ações no organismo feminino (indução da primeira fase do ciclo menstrual, desenvolvimento dos ductos mamários, distribuição corporal do tecido adiposo em um padrão feminino, etc.).
7 Prognóstico: 1. Juízo médico, baseado no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, em relação à duração, à evolução e ao termo de uma doença. Em medicina, predição do curso ou do resultado provável de uma doença; prognose. 2. Predição, presságio, profecia relativos a qualquer assunto. 3. Relativo a prognose. 4. Que traça o provável desenvolvimento futuro ou o resultado de um processo. 5. Que pode indicar acontecimentos futuros (diz-se de sinal, sintoma, indício, etc.). 6. No uso pejorativo, pernóstico, doutoral, professoral; prognóstico.
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Complementos

23/02/2015 - Complemento feito por Sonia
Importante o estudo revelar, além da est...
Importante o estudo revelar, além da estrutura molecular dos hormônios utilizados na reposição destas pacientes, a rota de administração dos mesmos. Sabemos que a via oral é sujeita à primeira passagem hepática com metabolização destes hormônios em mais de 70%, podendo surgir metabólitos com potencial carcinogênico. Além disso, influencia no aumento da atividade inflamatória, alteração das proteínas da coagulação, aumento de SHBG, aumento de PCRus, resistência à insulina, entre outras repercussões metabólicas envolvidas na RH por via oral, que podem contribuir para um maior risco de câncer. O próprio "The lancet" já publicou artigo ressaltando estas diferenças:(http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673603140664)
Outra consideração importante é a idade das pacientes que foram tratadas. Pois além da importância da "janela de oportunidade", que são os primeiros 10 anos de menopausa, somente a idade em si, já é um fator de risco isolado. Quanto mais idosa a mulher, maior o risco para câncer.
Muito oportuno saber se estas pacientes do estudo apresentavam ouros fatores de risco associados, tais como diabetes , hipertensão arterial e obesidade. Esta última aumenta o risco para câncer de mama ( e consequentemente outros) na ordem de 20-50% ( JAMA. 2006;296(2):193-201. doi:10.1001/jama.296.2.193).

18/02/2015 - Complemento feito por Gionei
O estudo não revela se se trata ou n&ati...
O estudo não revela se se trata ou não de hormônios produzidos a partir de urina de equinos como, por exemplo, a progestina (que um dia foi equivocadamente citada na fisiologia de Guyton como se fosse progesterona, resultando na confusão acadêmica até os dias de hoje) ou de Inhame ou soja (verdadeiros hormônios bioidênticos, que são produzidos pelos mesmos laboratórios que produzem a progestina). Naturalmente que os anticoncepcionais relatados no estudo são originados em processos laboratoriais sem a presença de hormônios bioidênticos (que se acoplam perfeitamente aos receptores celulares). Muito embora qualquer que seja a origem dos hormônios sempre haverá risco em sua prescrição.

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