Neutrófilos podem desempenhar um papel inesperado no desenvolvimento da esquizofrenia
Pesquisadores da Stanford Medicine descobriram que os glóbulos brancos mais comuns do organismo – células1 do sistema imunológico2 chamadas neutrófilos3 – podem produzir uma proteína cuja síntese por essas células1 era desconhecida. Essa constatação inesperada se soma a uma lista crescente de indícios que associam a esquizofrenia4, um transtorno cerebral, a processos que ocorrem em outras partes do corpo.
As descobertas estão resumidas em um artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Essa nova conexão envolvendo os neutrófilos3 – como fonte da proteína C4A – articula uma série de outras observações que, isoladamente, parecem intrigantes: por exemplo, estudos de genética populacional em larga escala identificaram a C4A (já conhecida por ser produzida principalmente no fígado5) como um fator de risco6 significativo para a esquizofrenia4; pessoas com esquizofrenia4 tendem a apresentar níveis elevados de neutrófilos3 no sangue7; e o medicamento mais eficaz para a esquizofrenia4 inibe a atividade dos neutrófilos3.
“Estabelecer conexões entre relações aparentemente tão díspares poderia nos proporcionar uma compreensão melhor da esquizofrenia4 e, futuramente, levar a tratamentos e diagnósticos mais eficazes para a doença,” afirmou Agnes Kalinowski, MD, PhD, professora assistente clínica de psiquiatria e ciências comportamentais da Stanford Medicine.
Kalinowski, que atua tanto como pesquisadora quanto como psiquiatra clínica especializada em esquizofrenia4, é a autora principal do estudo publicado na PNAS. O autor sênior8 é Alexander Urban, PhD, professor associado de psiquiatria e ciências comportamentais e de genética.
A esquizofrenia4 afeta uma em cada 100 pessoas em todo o mundo, praticamente sem variações geográficas ou étnicas. Seus sintomas9 mais evidentes são alucinações10, delírios e fixações. Uma característica fundamental da doença é o comprometimento cognitivo11: incapacidade de pensar com clareza, redução da memória de trabalho12 e desorganização do pensamento e do comportamento.
Os tratamentos atuais para a esquizofrenia4 são paliativos13, afirmou Kalinowski. Eles não interrompem a progressão da doença nem restauram a motivação ou a clareza cognitiva14. “O melhor medicamento que temos hoje é a clozapina”, disse ela. “Ele reduz manifestações como alucinações10, fixações e delírios. Isso pode transformar a vida do paciente. No entanto, apresenta efeitos colaterais15 que variam desde ganho de peso até risco de ataque cardíaco.”
Curiosamente, outro dos principais efeitos colaterais15 da clozapina – ou será que é realmente um efeito “colateral”? – é a redução do número de neutrófilos3 circulantes, observou ela.
Leia sobre "Sistema imunológico2" e "Genética - conceitos básicos".
Os neutrófilos3 representam cerca de metade dos glóbulos brancos circulantes em uma pessoa saudável. Esses guerreiros “kamikaze” de vida curta têm uma existência árdua. São as primeiras células1 do sistema imunológico2 a chegar ao local de infecções16 bacterianas. Lá, eles devoram patógenos microbianos, liberam substâncias bactericidas tóxicas e expelem redes viscosas capazes de aprisionar micróbios, formadas por longas moléculas filamentosas, incluindo o seu próprio DNA. Os neutrófilos3 frequentemente morrem em serviço – sua expectativa de vida17 varia de menos de um dia a uma semana – para então se tornarem o principal componente celular do pus18.
A C4A é uma das cerca de 50 proteínas19 que atuam em estreita e complexa colaboração na nossa corrente sanguínea, compondo o chamado sistema complemento. Esse antigo núcleo evolutivo do nosso sistema imunológico2 moderno – cuja origem remonta às esponjas de cerca de 500 milhões de anos atrás – é capaz de reconhecer rapidamente diversos eventos inflamatórios, como invasões microbianas.
Em resposta, inicia-se uma sequência de eventos em cadeia. Uma a uma, as proteínas19 componentes são ativadas e ligam-se à proteína seguinte da sequência, ativando-a. A ativação da C4A é disparada quando um pequeno fragmento20 dela, chamado C4-ana, é clivado.
O sistema complemento ativado – resultado dessa reação em cadeia – desempenha funções como perfurar as membranas externas de células1 bacterianas; curiosamente, ele é frequentemente encontrado em amostras de sangue7 de pessoas com esquizofrenia4.
A C4A não aparece apenas no sangue7. No cérebro21, ela atua de uma maneira bem diferente. Ela tem sido associada a um processo chamado poda sináptica, no qual o cérebro21 se livra periodicamente do excesso de pontos de contato entre células nervosas22, conhecidos como sinapses.
Um cérebro21 humano adulto saudável possui entre 100 trilhões e 500 trilhões de sinapses. Durante o desenvolvimento cerebral inicial, esse número dispara, resultando em muitas conexões desnecessárias, redundantes e até mesmo confusas. Assim como um editor que corta o excesso de palavras de uma história potencialmente excelente, a poda sináptica geralmente melhora a coerência cognitiva14. Esse processo ocorre em ondas durante o desenvolvimento fetal, a primeira infância e a adolescência.
Mas isso pode ir longe demais. Demonstrou-se que a camada mais externa do cérebro21 de uma pessoa com esquizofrenia4 – o córtex cerebral, crucial para funções mentais de alto nível – contém cerca de 30% menos sinapses do que um cérebro21 saudável e é mais fina do que o normal.
Pesquisadores descobriram uma relação entre a espessura do cérebro21 e a contagem de neutrófilos3 em circulação23, disse Kalinowski.
Os fatores de risco para a esquizofrenia4 incluem altos níveis de estresse emocional ou febre24 grave na primeira infância (antes dos 5 anos de idade) e o uso diário de maconha, especialmente durante a adolescência.
No entanto, esses fatores ambientais são menos significativos do que os fatores genéticos.
“A herdabilidade da esquizofrenia4 é muito forte – cerca de 80%”, afirmou Kalinowski. O principal fator de risco hereditário comum envolve a C4A.
Genes são instruções para a produção de proteínas19. Nossos genomas geralmente carregam duas cópias de cada gene: uma herdada da mãe e outra do pai. Mas, ao longo da evolução, alguns de nossos genes sofreram mutações chamadas duplicações, resultando em um número maior de cópias desses genes no genoma de algumas pessoas.
Esse é o caso da C4A: algumas pessoas têm duas cópias do gene para ela, enquanto outras podem ter várias. O número de cópias do gene da C4A no genoma de uma pessoa é o fator de risco6 genético comum mais forte associado à esquizofrenia4. Ninguém conseguiu explicar o motivo. No entanto, observou-se que a concentração de C4A no plasma25 de pacientes com esquizofrenia4 acompanha o número de cópias do gene da C4A presentes no genoma desses pacientes.
A intensidade dos sintomas9 em pacientes com esquizofrenia4 correlaciona-se com os níveis cerebrais de C4A, inferidos a partir das medições realizadas no líquido cefalorraquidiano26.
Saiba mais sobre "Esquizofrenia4" e "A hereditariedade27 nas principais doenças mentais".
Em 2021, Kalinowski e Urban foram coautores de um artigo na revista Translational Psychiatry que demonstrava uma forte conexão entre o número de cópias do gene da C4A no genoma de pessoas com esquizofrenia4 e a quantidade, no plasma25 delas, de C4-ana – aquele pequeno fragmento20 do C4A que é removido para desencadear a ativação da C4A.
O C4-ana pode ser considerado uma espécie de “impressão digital” da presença de C4A ativada.
No novo estudo publicado na PNAS, Kalinowski, Urban e seus colegas analisaram um vasto banco de dados de expressão gênica. As análises de expressão gênica medem, gene a gene, a intensidade da participação deles em uma etapa inicial da produção de proteínas19 nas células1 individuais.
Nossos genomas contêm cerca de 20.000 genes. No entanto, apenas um conjunto pequeno e específico de genes de qualquer célula28 atua ativamente no direcionamento da produção de proteínas19, dependendo do tipo de célula28 (nervosa, da pele29, cardíaca, etc.) e de seu estado (saudável ou doente, agitada ou em repouso, jovem e ativa ou velha e debilitada). Os pesquisadores também analisaram amostras de sangue7 de 10 voluntários anônimos.
Eles observaram que os neutrófilos3 podem produzir – e de fato produzem – a proteína C4A.
Além disso, a intensidade da produção de C4A pelos neutrófilos3 em indivíduos com esquizofrenia4 apresentou correlação com suas medidas clínicas. Será que a C4A proveniente dos neutrófilos3 de pacientes com esquizofrenia4 estaria chegando ao cérebro21 e acelerando a poda sináptica nesses indivíduos?
“Descobrimos que os neutrófilos3 podem atuar como pequenas fábricas de C4A”, disse Kalinowski. “E os neutrófilos3 de pacientes com esquizofrenia4 iniciam uma produção de C4A muito maior do que os neutrófilos3 de indivíduos saudáveis do grupo de controle.”
Paradoxalmente, eles retêm menos dessa proteína: não houve diferença na quantidade da proteína em si no plasma25, e a quantidade presente nos neutrófilos3 de pacientes com esquizofrenia4 era menor do que nos neutrófilos3 do grupo de controle. No entanto, os níveis de C4-ana estavam mais elevados no plasma25 dos pacientes com esquizofrenia4.
Tudo isso sugere a Kalinowski que a proteína é produzida em abundância nos neutrófilos3, mas acaba sendo consumida de alguma forma.
“Os neutrófilos3 de pacientes com esquizofrenia4 parecem estar esgotando suas reservas iniciais, que eram abundantes, de C4A”, afirmou ela. “Algo, em algum lugar, está consumindo essa proteína. Não sabemos exatamente onde isso ocorre, mas esperamos descobrir.”
O estudo levanta a possibilidade de que os neutrófilos3 desempenhem um papel direto na esquizofrenia4. Se isso se confirmar, talvez o bloqueio de sua atividade possa interferir no processo da doença. “Medicamentos que bloqueiam a ativação de neutrófilos3 não precisariam atravessar a barreira hematoencefálica, pois atuariam na nossa corrente sanguínea periférica”, disse Kalinowski.
A avaliação dos níveis de neutrófilos3 também poderia fazer parte de um diagnóstico30, afirmou Kalinowski. “Conseguir obter um sinal31 diagnóstico30 a partir de um componente do sangue7, em combinação com informações clínicas, seria algo revolucionário.”
Será que a detecção de contagens elevadas de neutrófilos3 poderia prever o surgimento dos sintomas9?
“Ainda não temos uma explicação completa para a esquizofrenia4, mas estamos montando esse quebra-cabeça”, disse Kalinowski. “Descobrir onde cada peça se encaixa ajuda a posicionar as demais mais rapidamente.”
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Proteína C4 do sistema complemento periférico na esquizofrenia4: associação com o número de cópias gênicas e subtipos de células1 imunes
Significância
O número de cópias do gene C4A está associado ao risco de esquizofrenia4 em estudos de associação genômica ampla (GWAS) de indivíduos com ascendência europeia. Uma maior expressão do gene C4A está associada a níveis mais elevados de poda sináptica no cérebro21. Verificou-se que neutrófilos3 de pessoas com esquizofrenia4 apresentam quantidades de proteína C4 positivamente correlacionadas com o número de cópias do gene C4A. Neutrófilos3 podem obter acesso ao sistema nervoso central32 durante alguns períodos críticos do desenvolvimento da esquizofrenia4. O papel dos neutrófilos3, tanto fora do cérebro21 (na circulação23 periférica) quanto dentro dele, merece maior investigação, podendo levar a novas abordagens terapêuticas.
Resumo
A escassez de tratamentos altamente eficazes que modifiquem o curso da esquizofrenia4 torna necessária a exploração de novos aspectos de sua fisiopatologia33, incluindo a atenção aos mecanismos de imunidade34 inata fora do cérebro21. A ativação da proteína C4, associada à cascata do sistema complemento de imunidade34 inata, relaciona-se a sintomas9 e prediz desfechos na esquizofrenia4. No entanto, a ativação da proteína C4 não coincide com as alterações esperadas em outras proteínas19 da cascata do complemento, sugerindo uma fonte distinta para essa ativação.
Ao analisar uma combinação de sangue7 total fresco de 10 doadores anônimos e um amplo conjunto de dados de microarranjos disponíveis publicamente, demonstrou-se que a proteína C4 é encontrada e expressa principalmente em neutrófilos3 e monócitos35.
Em seguida, comparou-se a correlação entre a proteína C4 em neutrófilos3, monócitos35 clássicos e plasma25 e o número de cópias do gene C4A. Determinou-se o número de genes C4A utilizando PCR36 digital em gotas; os níveis de proteína C4 em neutrófilos3 (15 pacientes/21 controles) e no plasma25 (30 pacientes/38 controles) por Western blotting; e os níveis em monócitos35 clássicos (30 pacientes/38 controles) por citometria de fluxo.
Encontrou-se uma forte correlação positiva entre o número de cópias do gene C4A e a quantidade de proteína C4 apenas nos neutrófilos3 e apenas no grupo com esquizofrenia4 (rho de Spearman = 0,63; IC de 95% BCa: 0,12 a 0,89; P = 0,012).
Esses resultados indicam uma convergência de mecanismos de imunidade34 inata associados à esquizofrenia4. O envolvimento da imunidade34 inata merece maior atenção para determinar se ela poderia constituir um alvo terapêutico na esquizofrenia4.
Veja também sobre "As células1 do sistema imunológico2" e "Principais transtornos mentais".
Fontes:
PNAS, publicação em 11 de maio de 2026.
Stanford Medicine, notícia publicada em 19 de maio de 2026.















