Um tipo de treinamento cognitivo específico demonstrou efeito "surpreendente" na redução do risco de demência
Um tipo de treinamento cognitivo1 que testa a capacidade de memorização rápida das pessoas parece reduzir o risco de demência2, incluindo a doença de Alzheimer3.
De acordo com os resultados do primeiro ensaio clínico randomizado4 do mundo sobre qualquer intervenção contra a doença, publicado no periódico científico Alzheimer’s & Dementia: Translational Research and Clinical Interventions, o “treinamento de velocidade” cognitiva5 pode reduzir o risco de um diagnóstico6 de demência2 em 25%.
“Havia muito ceticismo sobre se as intervenções de treinamento cerebral eram realmente benéficas e, para mim, nosso estudo responde à pergunta de que são”, diz Marilyn Albert, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, nos EUA.
O treinamento cerebral tem gerado controvérsia há anos. O entusiasmo inicial diminuiu depois que várias empresas de treinamento cerebral que prometiam proteção contra o declínio cognitivo1 foram consideradas culpadas de exagerar seus benefícios.
Em 2014, quase 70 cientistas assinaram uma carta aberta afirmando que não havia evidências conclusivas de que o treinamento cerebral produzisse mudanças relevantes no mundo real ou promovesse a saúde7 cerebral. Meses depois, outra carta aberta, assinada por mais de 100 cientistas, contestou seus argumentos.
Agora, um estudo de 20 anos com 2.832 pessoas com 65 anos ou mais sugere que exercícios específicos podem oferecer benefícios.
Os participantes foram aleatoriamente designados para um dos três grupos de intervenção ou para um grupo de controle. Um grupo participou de um treinamento de velocidade, utilizando uma tarefa computadorizada chamada Decisão Dupla, que exibe brevemente um carro e uma placa8 de trânsito em uma cena antes de desaparecerem. Os participantes devem então se lembrar qual carro apareceu e onde a placa8 estava localizada. A tarefa é adaptativa, tornando-se mais difícil à medida que o desempenho melhora.
Os outros dois grupos participaram de treinamento de memória ou raciocínio, aprendendo estratégias projetadas para aprimorar essas habilidades.
Os participantes completaram duas sessões de 60 a 75 minutos por semana, durante cinco semanas. Cerca de metade dos participantes de cada grupo foi então aleatoriamente designada para receber sessões de reforço: quatro sessões adicionais de 1 hora ao final do primeiro ano e outras quatro ao final do terceiro ano.
Vinte anos depois, os pesquisadores analisaram dados de solicitações de reembolso do Medicare dos EUA para determinar quantos dos participantes haviam sido diagnosticados com demência2. Eles descobriram que aqueles que completaram o treinamento de velocidade com sessões de reforço apresentaram um risco 25% menor de diagnóstico6 de Alzheimer9 ou demência2 relacionada, em comparação com o grupo de controle. Nenhum outro grupo, incluindo o de treinamento de velocidade sem reforços, apresentou uma mudança significativa no risco. “A magnitude do efeito é realmente surpreendente”, afirma Albert.
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“A análise parece rigorosa”, diz Torkel Klingberg, do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia. “É impressionante ter um acompanhamento de 20 anos, e reduzir a pontuação de risco para demência2 é um resultado impressionante e importante.”
Walter Boot, da Weill Cornell Medicine, no estado de Nova York, alerta que a equipe mediu muitos desfechos ao longo do período de 20 anos, incluindo a saúde7 mental. “Quanto mais desfechos forem examinados e mais testes estatísticos forem realizados, maior a probabilidade de que pelo menos um resultado pareça significativo, mesmo que a intervenção em si não tenha tido um impacto real”, diz ele. “Isso não significa que as descobertas estejam erradas, mas significa que devem ser interpretadas com cautela.”
O motivo pelo qual o treinamento de velocidade pode funcionar ainda não está claro. Uma possibilidade é sua dependência da aprendizagem implícita, que ocorre sem consciência. “Sabemos que as mudanças que ocorrem a partir desse tipo de aprendizagem são muito duradouras”, diz Albert. Além disso, embora a duração do treinamento tenha sido relativamente curta, foi exigente. “Você realmente precisa prestar atenção, e fica mais difícil se você fizer bem”, diz ela.
Há muitos exemplos de experiências curtas que provocam mudanças duradouras no cérebro11, afirma Etienne De Villers-Sidani, da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Por exemplo, um único acidente de carro pode induzir um medo permanente de dirigir.
Ele sugere que o treinamento de velocidade pode construir reserva cerebral – uma espécie de amortecedor cognitivo1 contra danos. Se partirmos do princípio de que a cognição12 diminui a partir de um determinado limiar de dano, então um cérebro11 com mais neurônios13 e conexões irá sucumbir mais tarde.
Albert acrescenta que a conectividade cerebral alterada também pode ajudar as pessoas a dividir sua atenção com mais eficácia, facilitando a vida diária à medida que envelhecem. Isso poderia reduzir o isolamento, incentivar maior atividade ou aumentar o engajamento social, fatores que comprovadamente contribuem para a saúde7 cerebral a longo prazo.
Os autores também afirmam que os resultados do grupo de reforço podem refletir um efeito dose-dependente do treinamento de velocidade. Bobby Stojanoski, da Ontario Tech University, afirma que trabalhos futuros devem se concentrar nesta relação: “Qual é a quantidade ideal de treinamento?”
A mensagem principal, diz Andrew Budson, da Universidade de Boston, “não é que todos devam se trancar em seus porões sem janelas e começar a jogar jogos de treinamento de velocidade no computador”. Mas atividades que utilizam o aprendizado implícito podem ser benéficas para retardar os efeitos da doença de Alzheimer3. “Aprender um novo esporte, profissão ou ofício provavelmente produzirá mudanças benéficas duradouras no cérebro11, além de qualquer prazer que você obtenha ao se envolver nessas atividades.”
No artigo publicado, os pesquisadores relatam que o efeito a longo prazo do treinamento cognitivo1 no risco de doença de Alzheimer3 e demências relacionadas (DADR) é desconhecido. Eles avaliaram então o impacto do treinamento cognitivo1 no diagnóstico6 de demência2 com base em registros médicos ao longo de 20 anos.
O estudo relaciona dados do estudo Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly (ACTIVE), um ensaio clínico randomizado4 de quatro braços sobre treinamento cognitivo1 em uma amostra grande e diversificada, com registros do Medicare (1999 a 2019). A inclusão nas análises exigiu a inscrição no Medicare tradicional no início do estudo (n = 2021). DADR foi medida com o algoritmo Chronic Conditions Warehouse.
Os participantes randomizados para o grupo de treinamento de velocidade que completaram uma ou mais sessões de reforço apresentaram um risco significativamente menor de diagnóstico6 de DADR (razão de risco [RR]: 0,75, intervalo de confiança [IC] de 95%: 0,59, 0,95), enquanto os participantes que receberam treinamento de velocidade, mas não fizeram treinamento de reforço, não apresentaram um risco menor de diagnóstico6 de DADR (RR: 1,01, IC de 95%: 0,81, 1,27). Não houve efeito principal do treinamento de memória ou raciocínio no risco de DADR.
O estudo concluiu que o treinamento cognitivo1 que envolve a velocidade do processamento cognitivo1 tem o potencial de retardar o diagnóstico6 de DADR.
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Fontes:
Alzheimer’s & Dementia: Translational Research and Clinical Interventions, publicação em 09 de fevereiro de 2026.
New Scientist, notícia publicada 09 de fevereiro de 2026.










