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Tirzepatida melhora a qualidade muscular, apesar da redução de massa magra absoluta

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Uma análise recente do estudo SURPASS-3 revela o impacto do tratamento com o medicamento tirzepatida no volume muscular e na infiltração de gordura1 nos músculos2 em indivíduos com diabetes tipo 23.

Publicado na revista The Lancet Diabetes4 & Endocrinology, o estudo é resultado de uma colaboração de pesquisa liderada pelo Professor Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow, juntamente com colegas dos Hospitais Universitários de Cleveland, da AMRA Medical e da Eli Lilly and Company.

Estudos anteriores, como o SURMOUNT-1, que utilizou medidas de absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA), demonstraram que o tratamento com tirzepatida em adultos com obesidade5 ou sobrepeso6 resulta em uma redução absoluta da massa magra7 proporcional à perda de peso total, com aproximadamente 25% da perda de peso sendo de massa magra7 e 75% de massa gorda8. Esse padrão é consistente em subgrupos clinicamente relevantes, incluindo idade e sexo.

Porém, a nova análise ressalta que a tirzepatida também leva a uma melhora na qualidade muscular, caracterizada por reduções significativas na infiltração de gordura1 muscular.

A diminuição na infiltração de gordura1 muscular é maior do que a esperada com base em estimativas populacionais, sugerindo um efeito positivo direcionado na composição muscular. Embora o volume muscular diminua, essa redução não é acelerada em comparação com modelos populacionais de perda de peso e é amplamente proporcional ao grau de redução de peso.

No geral, portanto, a tirzepatida melhora a composição corporal reduzindo preferencialmente a massa gorda8 e aumentando a qualidade muscular, apesar de uma modesta redução na massa magra7 absoluta. Essas alterações estão associadas à melhora da função física e dos fatores de risco cardiometabólicos. A literatura clínica não indica um efeito prejudicial na força ou no desempenho muscular, e melhorias na qualidade muscular podem atenuar o impacto da perda de massa magra7.

O professor Naveed Sattar, primeiro autor do estudo, afirmou: “Os resultados deste estudo são importantes, pois muitas pessoas ainda se preocupam com os efeitos dos novos medicamentos para perda de peso sobre os músculos2. No entanto, esses novos dados sugerem que a quantidade de alterações no volume muscular com a tirzepatida parece estar em consonância com as alterações de volume muscular observadas na população em geral com diferenças de peso semelhantes. Mais importante ainda, esses dados sugerem uma clara redução na quantidade de gordura1 nos músculos2, alterações que podem, de fato, melhorar a eficiência muscular.”

Leia sobre "Avanços recentes no tratamento do diabetes4", "Composição corporal - como avaliar e como melhorar" e "Como ganhar massa muscular".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Tirzepatida e alterações na composição muscular em pessoas com diabetes tipo 23 (SURPASS-3 MRI)

A redução substancial de peso está frequentemente associada à perda de massa muscular. A tirzepatida tem sido associada a reduções significativas no peso corporal em ensaios clínicos9 de diabetes tipo 23 e a um efeito benéfico na distribuição de gordura1 corporal no subestudo de ressonância magnética10 do SURPASS-3.

Esta análise exploratória post-hoc estudou a associação do tratamento com tirzepatida com alterações no volume muscular da coxa11, no escore Z do volume muscular e na infiltração de gordura1 muscular, e teve como objetivo contextualizar os resultados usando dados longitudinais de ressonância magnética10 de participantes do UK Biobank.

O SURPASS-3 foi um ensaio clínico randomizado12, aberto, de grupos paralelos, de fase 3. O subestudo de ressonância magnética10 multicêntrico (45 locais) e multinacional (oito países) do SURPASS-3 recrutou adultos (≥18 anos) com diabetes tipo 23 que nunca haviam usado insulina13 e estavam em tratamento com metformina14, com ou sem um inibidor do cotransportador sódio-glicose15 2 (SGLT-2), apresentavam HbA1c16 de 7,0-10,5% (53-91 mmol/mol), IMC17 de pelo menos 25 kg/m² e índice de esteatose hepática18 de pelo menos 60.

Os participantes foram randomizados (1:1:1:1) para receber injeção subcutânea19 semanal de tirzepatida (5, 10 ou 15 mg) ou injeção subcutânea19 diária de insulina13 degludec titulada. A infiltração de gordura1 no músculo da coxa11, o volume muscular e o escore Z do volume muscular (invariável em relação a sexo, altura, peso e IMC17) foram quantificados por ressonância magnética10 no início do estudo e na semana 52.

Nesta análise post-hoc, avaliou-se as diferenças entre os valores médios da composição muscular no início do estudo e na semana 52 nos grupos tratados com tirzepatida (grupo combinado de 5 mg, 10 mg e 15 mg e grupos por dose) e no grupo tratado com insulina13 degludec, utilizando testes t pareados, e as diferenças nas alterações da composição muscular no grupo combinado tratado com tirzepatida versus o grupo de insulina13 degludec por meio de modelos ANCOVA ajustados.

As alterações observadas na infiltração de gordura1 muscular, no volume muscular e nos escores Z do volume muscular foram comparadas, utilizando testes t pareados, com estimativas populacionais calculadas a partir de modelos de regressão linear múltipla ajustados aos dados do UK Biobank (n = 2.942), que capturam as associações com a alteração do peso corporal.

As análises foram realizadas por intenção de tratar modificada, nos participantes inscritos no subestudo de ressonância magnética10 com um exame de ressonância magnética10 válido na semana 52.

Os participantes foram avaliados quanto à elegibilidade e recrutados de 1º de abril de 2019 a 15 de novembro de 2019. Entre os 502 participantes avaliados quanto à elegibilidade para participar do subestudo de ressonância magnética10, 296 foram inscritos e 246 tinham um exame de ressonância magnética10 válido na semana 52 e foram incluídos nas análises post-hoc (tirzepatida 5 mg, n = 63; tirzepatida 10 mg, n = 60; tirzepatida 15 mg, n = 67; insulina13 degludec, n = 56; 147 [59,8%] participantes do sexo masculino e 99 [40,2%] participantes do sexo feminino).

Na avaliação inicial, a idade média geral foi de 56,0 anos (DP 9,9), a duração mediana do diabetes tipo 23 foi de 6,7 anos (intervalo interquartil de 3,7 a 10,7), a HbA1c16 média foi de 8,3% (DP 0,9), o IMC17 médio foi de 33,4 kg/m² (DP 4,8) e 76 participantes (30,9%) estavam em uso de um inibidor de SGLT-2.

A infiltração de gordura1 muscular, o volume muscular e os escores Z do volume muscular na avaliação inicial foram semelhantes entre o grupo tratado com tirzepatida e o grupo tratado com insulina13 degludec. Para o grupo combinado de tirzepatida e os grupos individuais por dose de tirzepatida, observaram-se reduções significativas da linha de base até a semana 52 na infiltração de gordura1 muscular (para o grupo combinado de tirzepatida, alteração média de -0,36 pontos percentuais [IC 95% -0,48 a -0,25], p <0,0001), no volume muscular (-0,64 L [IC 95% -0,74 a -0,54], p <0,0001) e no escore Z do volume muscular (-0,22 [IC 95% -0,29 a -0,15], p <0,0001), que ocorreram no contexto de uma redução significativa de peso.

A insulina13 degludec foi associada a um aumento modesto e significativo no peso corporal e no volume muscular, mas sem alteração significativa nas outras variáveis. As alterações em todas as três variáveis de composição muscular no grupo combinado de tirzepatida foram significativamente diferentes em comparação com as observadas com a insulina13 degludec.

Nos participantes tratados com tirzepatida, as alterações observadas no volume muscular em todas as doses de tirzepatida foram semelhantes às alterações estimadas com base na população (para o grupo combinado de tirzepatida, diferença média em relação à estimativa baseada na população, -0,04 L [IC 95% -0,11 a 0,03], p = 0,22); enquanto que as reduções observadas na infiltração de gordura1 muscular em todas as doses foram significativamente maiores do que as estimativas baseadas na população (para o grupo combinado de tirzepatida, diferença média -0,42 pontos percentuais [IC 95% -0,54 a -0,31], p <0,0001), e a redução observada no escore Z do volume muscular com tirzepatida 15 mg foi significativamente maior do que a estimativa baseada na população (diferença média -0,18 [IC 95% -0,29 a -0,07], p = 0,0016).

Concluiu-se que, nesse subestudo de ressonância magnética10 do SURPASS-3, em um contexto de melhorias significativas no peso corporal e na distribuição de gordura1, o tratamento com tirzepatida foi associado a alterações potencialmente favoráveis na infiltração de gordura1 muscular e a reduções no volume muscular em ampla consonância com a associação geral entre alterações no volume muscular e no peso corporal.

Os presentes achados fornecem informações adicionais sobre o potencial efeito da tirzepatida na saúde20 muscular, o que pode auxiliar os profissionais de saúde20 na escolha das opções de tratamento para cada paciente.

Veja também "Tratamento da obesidade5: como os agonistas GLP-1 e a tecnologia estão redefinindo a prática clínica".

 

Fontes:
The Lancet, Vol. 13, Nº 6, em junho de 2025.
Medical Xpress, notícia publicada em 01 de maio de 2025.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Tirzepatida melhora a qualidade muscular, apesar da redução de massa magra absoluta. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1500310/tirzepatida-melhora-a-qualidade-muscular-apesar-da-reducao-de-massa-magra-absoluta.htm>. Acesso em: 5 mar. 2026.

Complementos

1 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
2 Músculos: Tecidos contráteis que produzem movimentos nos animais.
3 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
4 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
5 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
6 Sobrepeso: Peso acima do normal, índice de massa corporal entre 25 e 29,9.
8 Massa gorda: É a porção de massa do organismo constituída de gordura armazenada (encontrada no tecido subcutâneo) e gordura essencial (encontrada nas vísceras, responsável pelo funcionamento fisiológico normal). A massa gorda é o resultado em quilos do percentual de gordura existente no organismo. Por exemplo, um indivíduo de 100 quilos e com percentual de gordura de 38%, pode ter o valor da massa gorda calculado em 38 quilos.
9 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
10 Ressonância magnética: Exame que fornece imagens em alta definição dos órgãos internos do corpo através da utilização de um campo magnético.
11 Coxa: É a região situada abaixo da virilha e acima do joelho, onde está localizado o maior osso do corpo humano, o fêmur.
12 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
13 Insulina: Hormônio que ajuda o organismo a usar glicose como energia. As células-beta do pâncreas produzem insulina. Quando o organismo não pode produzir insulna em quantidade suficiente, ela é usada por injeções ou bomba de insulina.
14 Metformina: Medicamento para uso oral no tratamento do diabetes tipo 2. Reduz a glicemia por reduzir a quantidade de glicose produzida pelo fígado e ajudando o corpo a responder melhor à insulina produzida pelo pâncreas. Pertence à classe das biguanidas.
15 Glicose: Uma das formas mais simples de açúcar.
16 HbA1C: Hemoglobina glicada, hemoglobina glicosilada, glico-hemoglobina ou HbA1C e, mais recentemente, apenas como A1C é uma ferramenta de diagnóstico na avaliação do controle glicêmico em pacientes diabéticos. Atualmente, a manutenção do nível de A1C abaixo de 7% é considerada um dos principais objetivos do controle glicêmico de pacientes diabéticos. Algumas sociedades médicas adotam metas terapêuticas mais rígidas de 6,5% para os valores de A1C.
17 IMC: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
18 Esteatose hepática: Esteatose hepática ou “fígado gorduroso“ é o acúmulo de gorduras nas células do fígado.
19 Injeção subcutânea: Injetar fluido no tecido localizado abaixo da pele, o tecido celular subcutâneo, com uma agulha e seringa.
20 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
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