Ultrassom de alta frequência na dermatologia permite enxergar além da superfície da pele
Estudos recentes destacam que a ultrassonografia1 de alta resolução e alta frequência (≥15 MHz, tipicamente entre 20-25 MHz) é cada vez mais utilizada em dermatologia para a visualização não invasiva e em tempo real das estruturas e patologias da pele2.
As aplicações incluem o diagnóstico3, a caracterização e o tratamento de cânceres de pele2 (como carcinoma4 basocelular, carcinoma4 espinocelular e melanoma5), em que a ultrassonografia1 pode delinear as margens da lesão6, avaliar a profundidade e prever a espessura de Breslow no melanoma5, auxiliando no planejamento cirúrgico e no estadiamento.
Além disso, protocolos padronizados, incorporando modos de escala de cinza, Doppler colorido/de potência e Doppler espectral, melhoraram a precisão diagnóstica e a reprodutibilidade para doenças inflamatórias (por exemplo, hidradenite supurativa, morfeia), distúrbios das unhas7 e complicações estéticas. Esses protocolos facilitam a detecção precoce de lesões8 subclínicas, orientam as decisões terapêuticas e apoiam a avaliação comparativa na patologia9 das unhas7.
A ultrassonografia1 também é valiosa para monitorar a resposta ao tratamento em condições inflamatórias, mapear anomalias vasculares10 e avaliar o envelhecimento da pele2 por meio de parâmetros como espessura e ecogenicidade. Ela é cada vez mais utilizada para avaliar a eficácia de intervenções e produtos cosméticos.
Apesar de suas vantagens (custo-benefício, segurança e imagens em tempo real), ainda existem limitações, incluindo a dependência do operador, a variabilidade na medição e os desafios na detecção de lesões8 minúsculas. As pesquisas em andamento se concentram em aprimorar ainda mais a resolução da imagem, padronizar os parâmetros de diagnóstico3 e integrar a ultrassonografia1 com modalidades complementares para uma avaliação abrangente da pele2.
Dessa forma, a ultrassonografia1 em dermatologia está evoluindo rapidamente, com aplicações clínicas, cirúrgicas e de pesquisa em expansão, impulsionadas pelos avanços na tecnologia e na padronização de protocolos.
Leia sobre "A pele2 e seus anexos11", "Ultrassonografia1: como é este exame" e "Ultrassom terapêutico - o que é".
Dois estudos de revisão, publicados no Journal of The European Academy of Dermatology & Venereology (2024) e no Journal of Cutaneous Medicine and Surgery (2021), avaliaram as aplicações mais comuns da ultrassonografia1 no campo da dermatologia. A seguir apresentamos os resumos desses artigos.
Enxergando além da superfície da pele2: ultrassonografia1 de alta resolução em dermatologia — uma revisão abrangente e perspectivas futuras
A ultrassonografia1 de alta resolução (HRUS), operando em frequências de 20 a 25 MHz, é uma ferramenta de imagem não invasiva que oferece aos dermatologistas a capacidade de visualizar estruturas abaixo da superfície da pele2. O objetivo desta revisão foi apresentar uma visão12 geral abrangente das aplicações da HRUS, enfatizando sua utilidade no diagnóstico3, caracterização e manejo de diversas condições dermatológicas.
Realizou-se uma revisão abrangente da literatura sobre a aplicação dermatológica da HRUS nas bases de dados Medline, Embase e Cochrane Library, incorporando também a própria experiência clínica dos pesquisadores, de mais de 16 anos com a ferramenta.
Na pele2 normal, a epiderme13 e a derme14 são hiperecoicas, e a camada subcutânea15 é hipoecoica. Os carcinomas basocelulares aparecem hipoecoicos com margens irregulares, enquanto a presença de corpos de inclusão hiperecoicos sugere patologia9 agressiva.
Os carcinomas espinocelulares representam desafios devido aos artefatos de sombra acústica causados pelo espessamento do estrato córneo.
Os melanomas são lesões8 hipoecoicas homogêneas, e a HRUS é utilizada para prever com precisão a espessura de Breslow.
A revisão concluiu que a HRUS oferece aos dermatologistas um valioso complemento ao exame clínico tradicional. Futuros avanços na resolução da imagem e a padronização dos parâmetros diagnósticos podem expandir ainda mais sua utilidade.
Visão12 geral das aplicações da ultrassonografia1 em dermatologia
Resumo
A visualização completa das lesões8 é fundamental para o diagnóstico3 e tratamento precisos de doenças dermatológicas. Atualmente, as tecnologias mais acessíveis e utilizadas por dermatologistas incluem a dermatoscopia e a fotografia.
No entanto, a ultrassonografia1 tem se destacado como uma modalidade não invasiva útil em dermatologia, que pode ser adicionada ao exame clínico, auxiliando em um diagnóstico3 precoce e mais preciso.
Além disso, avanços tecnológicos significativos nos últimos anos, como o desenvolvimento de dispositivos portáteis e transdutores de ultra-alta frequência, ampliaram a integração da ultrassonografia1 na prática dermatológica diária.
Neste artigo, revisou-se as aplicações mais comuns da ultrassonografia1 na área da dermatologia.
Introdução
Nos últimos anos, o uso da ultrassonografia1 (US) em dermatologia expandiu-se e ganhou popularidade. O ultrassom de alta frequência (HFUS), com comprimento de onda ≥15 megahertz (MHz), permite uma visualização de alta resolução das camadas da pele2 com profundidade suficiente para capturar toda a espessura da pele2.
O US é uma modalidade de imagem segura que utiliza ondas acústicas para atravessar a pele2; os ecos refletidos pelos diferentes tecidos cutâneos retornam ao transdutor, formando uma imagem visual. A ecogenicidade de cada estrutura da pele2 é determinada por sua densidade, que afeta a velocidade da onda acústica ao atravessá-la. As principais fontes de ecogenicidade nas camadas da pele2 são os queratinócitos16 na epiderme13, o colágeno17 na derme14 e a gordura18 no tecido subcutâneo19.
A 15-20 MHz, as camadas normais da pele2 não glabra (pele2 pilosa) aparecem como uma linha epidérmica hiperecoica, seguida por uma faixa dérmica hiperecoica e por uma camada subcutânea15 hipoecoica muito mais espessa. Na pele2 glabra das palmas das mãos20 e plantas dos pés, a epiderme13 apresenta-se como uma estrutura bilaminar hiperecoica, devido a um estrato córneo mais espesso.
O ultrassom Doppler colorido é uma aplicação do ultrassom que permite a visualização em tempo real do fluxo sanguíneo, que aumenta na neoangiogênese, em tumores e em inflamações21.
Estudo anterior propôs diretrizes para padronizar a realização de exames de ultrassonografia1 em dermatologia. Ele recomenda uma frequência mínima de 15 MHz, a realização de no mínimo 300 exames de pele2 por médico anualmente para garantir a competência, e o uso rotineiro do ultrassom Doppler colorido para avaliar a vascularização.
O ultrassom tem a vantagem de ser não invasivo e de baixo custo em comparação com outras técnicas de imagem, como a ressonância magnética22 (RM). Possui uma resolução axial maior do que a RM e a tomografia computadorizada23. A resolução axial do ultrassom pode variar de 100 µm a 15 MHz a 30 µm, o que se aproxima da menor magnificação da histologia.
As principais aplicações do ultrassom em dermatologia são o estudo de tumores benignos e malignos, patologia9 das unhas7, dermatoses inflamatórias e a redução de complicações em procedimentos estéticos. Além disso, não utiliza radiação e pode ajudar a evitar biópsias24 de pele2, o que é especialmente útil na população pediátrica.
As limitações do US incluem a incapacidade de detectar lesões8 que medem <0,1 mm a 15 MHz e <0,03 mm a 70 MHz ou lesões8 maculares intraepidérmicas, como lentigos solares e máculas25 café com leite.
Com o crescente interesse em tecnologia, especialmente em ferramentas não invasivas à beira do leito, apresentou-se essa revisão atualizada do uso da ultrassonografia1 em dermatologia. Pesquisou-se nas bases de dados MEDLINE, EMBASE e Cochrane Central Register desde suas respectivas datas de criação até 4 de janeiro de 2020. A pesquisa incluiu palavras-chave relacionadas ao ultrassom e doenças cutâneas26 que geralmente necessitam de investigação adicional, como biópsia27 de pele2 ou exames de imagem.
Nesta revisão, as condições dermatológicas foram divididas em tumores benignos, seguidos por lesões8 vasculares10, tumores malignos, condições inflamatórias, doenças do cabelo28, doenças das unhas7 e material exógeno.
Saiba mais sobre "Câncer29 de pele2", "Melanoma5", "Pintas na pele2" e "Discromias da pele2".
Resultados
Tumores benignos
» Cisto epidérmico
- Cisto íntegro: lesão6 arredondada bem delimitada, anecoica/hipoecoica na derme14/subcutâneo30; pode haver bandas anecoicas (cristais de colesterol31) e realce acústico posterior.
- Cisto roto: contornos mal definidos, forma irregular/lobulada e hiperfluxo periférico; pode-se ver banda anecoica/hipoecoica superficial correlacionando-se com o ponto (punctum) clínico.
» Pilomatricoma
- US frequentemente mostra padrão “alvo”: halo hipoecoico com centro hiperecoico calcificado; há classificações por padrões (calcificado total/parcial, complexo, pseudocisto, pseudotumoral). Pontos hiperecoicos (calcificações) e ecos puntiformes (queratina/material proteico) são sinais32 sugestivos.
Lesões8 vasculares10
- Aspecto varia por fase: proliferativa (massa sólida hipoecoica e hipervascular, com fluxo arterial/venoso e possíveis shunts33), involução parcial (ecogenicidade mista e vascularidade intermediária) e involuída (mais hiperecoica, hipovascular, com componente fibroadiposo).
Malformações34 vasculares10
- Classificação alto fluxo (arterial/arteriovenosa) vs baixo fluxo (venosa/capilar35/linfática). US pode mostrar túbulos/lacunas anecoicas; Doppler + espectral ajudam a definir tipo e velocidade do fluxo (arterial com padrão sistólico/diastólico; venoso monofásico; capilar35/linfático36 sem fluxo).
- Malformação37 arteriovenosa: fluxo venoso “arterializado” turbulento. Malformação37 venosa pode ter trombose38 intralesional39; flebólitos geram sombra acústica, ajudando a diferenciar de hemangioma profundo.
Tumores malignos
Melanoma5
- Evidência de utilidade para medir espessura tumoral pré-operatória com boa correlação com histologia (Breslow) e boa reprodutibilidade; pode reduzir necessidade de reabordagem cirúrgica em alguns fluxos.
- Lesões8 satélites/em trânsito: nódulos subcutâneos hipoecoicos e hipervasculares; US pode detectar metástases40 clinicamente ocultas.
- Limitação: não diferencia bem nevos41 vs melanoma5 e é menos confiável para lesões8 muito superficiais/epidérmicas; atua como complemento à dermatoscopia.
» Cânceres de pele2 não melanoma5 (carcinoma4 basocelular e carcinoma4 espinocelular)
- Para CBC/CEC, US pode estimar espessura tumoral e auxiliar no planejamento pré-operatório, mas a acurácia varia (dependência de treinamento).
- Carcinoma4 basocelular: presença de pontos hiperecoicos intralesionais é altamente sugestiva; quantidade (ex.: ≥7) pode indicar subtipo histológico42 de maior risco de recorrência43.
» Dermatofibrossarcoma protuberante
- HFUS pode mostrar imagem “medusa”: corpo dérmico hipoecoico oval com projeções tipo tentáculos/pseudópodes no subcutâneo30; pode haver áreas hiperecoicas (infiltrado estromal) e aumento de vascularidade ao Doppler, apoiando diagnóstico3 e planejamento cirúrgico.
Condições inflamatórias
- US ajuda a diagnosticar, estadiar e medir atividade, identificando achados profundos/subclínicos (fístulas44, coleções).
- “Lesões-chave”: folículos dilatados, pseudocistos, coleções e fístulas44; Doppler estima atividade inflamatória. Pode reclassificar gravidade e mudar conduta (inclusive de clínica para cirúrgica).
- Há propostas de relato padronizado (tipo/extensão de lesões8 e vascularidade).
Esclerose45 sistêmica e morfeia
- Doppler avalia atividade; US diferencia fase inflamatória vs atrófica46 (relevante para prognóstico47/conduta).
- Morfeia ativa: derme14 mais espessa com menor ecogenicidade + subcutâneo30 mais ecogênico e aumento de fluxo; fase atrófica46 apresenta redução de espessura e ausência de fluxo.
- Calcinoses: foco subcutâneo30 hiperecoico com sombra acústica posterior. US também pode avaliar extensão de úlceras48 e, em esclerose45 sistêmica, estimar pele2 endurecida com potencial superioridade ao escore clínico.
- US pode diferenciar septal vs lobular:
- Lobular: hiperecogenicidade difusa dos lóbulos de gordura18.
- Septal: espessamento hipoecoico dos septos entre lóbulos adiposos hiperecoicos.
Doenças dos pelos/cabelos (doenças capilares49)
- Tricoscopia é superficial; US pode ajudar a avaliar inflamação50/fibrose51 perifolicular (atividade/gravidade).
- Pelo normal: terminal (escálpeo) com aspecto trilaminar hiperecoico (medula52 + córtex/cutícula53); pelo corporal/vellus com aspecto bilaminar sem medula52.
- Frequências convencionais (15-18 MHz) têm limitação; transdutores ultra-alta frequência (até ~70 MHz) permitem visualizar folículos individualmente e podem apoiar métricas (densidade, diâmetro, razão anágeno/telógeno) e padrões, como na alopecia54 androgenética.
Doenças das unhas7 (onicopatias)
- US pode reduzir necessidade de biópsia27 ungueal55 (dolorosa e com risco de dano permanente), com foco em tumores, inflamação50 e alterações de crescimento.
Tumor56 glômico
- Nódulo57 hipoecoico oval no leito ungueal55, com possível escavação da falange58 distal59; frequentemente hipervascular ao Doppler.
Exostose60 subungueal
- Estrutura hiperecoica em “faixa”, com sombra acústica posterior, contínua com a cortical óssea subjacente.
» Onicocriptose
- Fragmento61 bilaminar hiperecoico na região periungueal e tecido62 adjacente hipoecoico inflamatório; Doppler pode mostrar hiperemia63 variável.
Material exógeno (corpos estranhos e preenchedores)
- Útil para corpos estranhos e preenchedores: corpos estranhos aparecem como linhas hiperecoicas com halo hipoecoico (reação/granuloma64), ajudando na localização para remoção.
- Também pode identificar tipos comuns de preenchedores e apoiar manejo de complicações (granuloma64/inflamação50).
Veja também sobre "Procedimentos estéticos", "Intradermoterapia" e "Doppler: como é este exame".
Conclusão
A ultrassonografia1 é uma modalidade não invasiva útil na área da dermatologia, capaz de fornecer informações cruciais que complementam o exame clínico. Ela permite avaliar com precisão a gravidade e a atividade de diversas dermatoses inflamatórias. Também é útil no diagnóstico3 e planejamento pré-operatório de tumores de pele2. Além disso, pode reduzir a necessidade de biópsia27 cutânea65 em algumas situações, o que é especialmente útil na população pediátrica e em distúrbios das unhas7 e do cabelo28.
Fontes:
Journal of The European Academy of Dermatology & Venereology, Vol. 38, Nº 7, em julho de 2024.
Journal of Cutaneous Medicine and Surgery, Vol. 25, Nº 5, em setembro/outubro de 2021.










