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Restaurando a juventude de células imunológicas envelhecidas: terapia com mRNA reverte o processo de envelhecimento

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Um coquetel de três RNAs mensageiros (mRNAs), administrado duas vezes por semana, pode rejuvenescer o sistema imunológico1 debilitado de camundongos idosos e potencializar as respostas a vacinas e tratamentos contra o câncer2, segundo um estudo publicado na revista Nature.

O tratamento fornece um reforço necessário às células3 imunológicas chamadas células3 T, que coordenam as respostas imunes e destroem células3 infectadas. À medida que as pessoas envelhecem, sua capacidade de produzir células3 T diminui, e as que restam tornam-se menos eficazes.

O envelhecimento das células3 T ajuda a explicar por que as vacinas às vezes são menos eficazes em idosos do que em adultos jovens, e por que os tratamentos contra o câncer2 que estimulam o sistema imunológico1 contra tumores não funcionam tão bem em idosos, afirma María Mittelbrunn, imunologista do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, em Madri. A diminuição da imunidade4 mediada por células3 T também está ligada à inflamação5 crônica associada a muitas doenças relacionadas à idade, incluindo algumas formas de doenças cardiovasculares6.

“As células3 T, em particular, são um dos tipos de células3 que mais se modificam durante o envelhecimento”, diz Mittelbrunn, que não participou do estudo. “Rejuvenescê-las pode ter consequências imensas.”

As células3 T são produzidas na medula óssea7 e migram para uma pequena glândula8 chamada timo9 para amadurecerem. No timo9, elas aprendem a reconhecer e a responder a patógenos como bactérias ou vírus10. Elas também aprendem a não atacar as próprias células3 saudáveis do corpo.

Mas o timo9 se degenera com a idade: começa a encolher e é gradualmente substituído por tecido adiposo11. As tentativas de reverter esse processo com tratamentos hormonais e outros medicamentos não funcionaram, afirma Mirco Friedrich, hematologista e oncologista do Centro Alemão de Pesquisa do Câncer2 em Heidelberg e primeiro autor do estudo.

Saiba mais sobre "O processo de envelhecimento" e "As células3 do sistema imunológico1".

Assim, Friedrich e seus colegas decidiram adotar uma abordagem diferente: em vez de tratar o timo9 diretamente, eles mudaram o alvo para as células3 T, administrando uma terapia experimental no fígado12. “A maioria das células3 T está no sangue”, diz Friedrich. “E o fígado12 recebe todo o volume sanguíneo do corpo.”

A equipe começou caracterizando os efeitos do envelhecimento nas células3 T de camundongos, catalogando as diferenças na atividade gênica e nas vias de sinalização molecular desde pouco depois do nascimento até os animais ficarem idosos e frágeis, por volta dos 20 meses de idade.

Em seguida, os pesquisadores selecionaram três proteínas13 que pareciam desempenhar papéis fundamentais no envelhecimento das células3 T. Eles encapsularam o mRNA que codifica essas proteínas13 em partículas de gordura14 que tendem a se acumular no fígado12 e injetaram as partículas em camundongos com cerca de 16 meses de idade, o equivalente aproximado a um humano no final da faixa dos cinquenta ou início dos sessenta anos.

Comparados aos camundongos não tratados, os camundongos tratados produziram mais células3 T e responderam melhor à vacinação e a terapias que estimulam as respostas das células3 T contra o câncer2. A maioria dos efeitos do tratamento diminuiu após a interrupção das injeções.

Muitos outros estudos são necessários antes que o tratamento possa ser testado em humanos, afirma Friedrich. Mas acredita-se que as três proteínas13 que a equipe visou tenham funções semelhantes em pessoas, acrescenta ele.

Os resultados são promissores, afirma Michelle Linterman, imunologista do Instituto Malaghan de Pesquisa Médica em Wellington, Nova Zelândia, e o rejuvenescimento das células3 T no fígado12 representa uma nova abordagem para um problema importante.

O estudo reforça a crescente compreensão de como o sistema imunológico1 pode ser restaurado, acrescenta ela. “O envelhecimento das células3 T não é um processo fixo; é algo que pode ser modificado”, diz Linterman. “Podemos pensar em alterar a biologia das células3 T de uma forma que realmente possibilite uma melhor saúde15 em idades avançadas.”

Leia sobre "RNA mensageiro: como funciona e para que serve" e "Genética e longevidade".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Reconstituição hepática16 transitória de fatores tróficos aprimora a imunidade4 na idade avançada

O envelhecimento erode a imunidade4 humana, em parte remodelando o repertório de células3 T, levando ao aumento da vulnerabilidade a infecções17, malignidades e falhas vacinais. As tentativas de rejuvenescer a função imunológica produziram apenas resultados modestos e são limitadas pela toxicidade18 ou falta de viabilidade clínica.

Neste estudo, mostrou-se que o fígado12 pode ser reaproveitado transitoriamente para restaurar sinais19 imunológicos diminuídos pela idade e melhorar a função das células3 T em camundongos idosos.

Esses sinais19 imunológicos foram encontrados por meio de mapeamento multiômico em nichos centrais e periféricos em animais jovens e idosos, levando à identificação de que as vias de Notch e do ligante da tirosina20 quinase 3 semelhante a Fms (FLT3L), juntamente com a sinalização da interleucina-7 (IL-7), declinam com o avanço da idade.

A administração de mRNAs que codificam o ligante semelhante a Delta 1 (DLL1), FLT3L e IL-7 em hepatócitos expandiu os progenitores linfoides21 comuns, impulsionou a timopoiese sem afetar a composição de células-tronco22 hematopoiéticas (CTH) e reabasteceu as células3 T, ao mesmo tempo que aumentou a abundância e a função das células dendríticas23.

O tratamento com esses mRNAs melhorou as respostas a vacinas peptídicas e restaurou a imunidade4 antitumoral em camundongos idosos, aumentando a infiltração de CD8+ específicos do tumor24 e a diversidade clonal, além de apresentar sinergia com o bloqueio de checkpoints imunológicos.

Esses efeitos foram reversíveis após a interrupção da administração e não violaram a autotolerância, ao contrário dos efeitos inflamatórios e autoimunes25 dos tratamentos com citocinas26 recombinantes.

Essas descobertas ressaltam o potencial de estratégias baseadas em mRNA para a modulação imunológica sistêmica e destacam o potencial de intervenções destinadas a preservar a resiliência imunológica em populações idosas.

Veja também sobre "O envelhecimento saudável" e "Suplementos "anti-idade" prolongam a vida?"

 

Fontes:
Nature, publicação em 17 de dezembro de 2025.
Nature, notícia publicada em 17 de dezembro de 2025.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Restaurando a juventude de células imunológicas envelhecidas: terapia com mRNA reverte o processo de envelhecimento. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1498805/restaurando-a-juventude-de-celulas-imunologicas-envelhecidas-terapia-com-mrna-reverte-o-processo-de-envelhecimento.htm>. Acesso em: 13 jan. 2026.

Complementos

1 Sistema imunológico: Sistema de defesa do organismo contra infecções e outros ataques de micro-organismos que enfraquecem o nosso corpo.
2 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
3 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
4 Imunidade: Capacidade que um indivíduo tem de defender-se perante uma agressão bacteriana, viral ou perante qualquer tecido anormal (tumores, enxertos, etc.).
5 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
6 Doenças cardiovasculares: Doença do coração e vasos sangüíneos (artérias, veias e capilares).
7 Medula Óssea: Tecido mole que preenche as cavidades dos ossos. A medula óssea apresenta-se de dois tipos, amarela e vermelha. A medula amarela é encontrada em cavidades grandes de ossos grandes e consiste em sua grande maioria de células adiposas e umas poucas células sangüíneas primitivas. A medula vermelha é um tecido hematopoiético e é o sítio de produção de eritrócitos e leucócitos granulares. A medula óssea é constituída de um rede, em forma de treliça, de tecido conjuntivo, contendo fibras ramificadas e preenchida por células medulares.
8 Glândula: Estrutura do organismo especializada na produção de substâncias que podem ser lançadas na corrente sangüínea (glândulas endócrinas) ou em uma superfície mucosa ou cutânea (glândulas exócrinas). A saliva, o suor, o muco, são exemplos de produtos de glândulas exócrinas. Os hormônios da tireóide, a insulina e os estrógenos são de secreção endócrina.
9 Timo:
10 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
11 Tecido Adiposo: Tecido conjuntivo especializado composto por células gordurosas (ADIPÓCITOS). É o local de armazenamento de GORDURAS, geralmente na forma de TRIGLICERÍDEOS. Em mamíferos, existem dois tipos de tecido adiposo, a GORDURA BRANCA e a GORDURA MARROM. Suas distribuições relativas variam em diferentes espécies sendo que a maioria do tecido adiposo compreende o do tipo branco.
12 Fígado: Órgão que transforma alimento em energia, remove álcool e toxinas do sangue e fabrica bile. A bile, produzida pelo fígado, é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.
13 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
14 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
15 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
16 Hepática: Relativa a ou que forma, constitui ou faz parte do fígado.
17 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
18 Toxicidade: Capacidade de uma substância produzir efeitos prejudiciais ao organismo vivo.
19 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
20 Tirosina: É um dos aminoácidos polares, sem carga elétrica, que compõem as proteínas, caracterizado pela cadeia lateral curta na qual está presente um anel aromático e um grupamento hidroxila.
21 Linfoides: 1. Relativos a ou que constituem o tecido característico dos nodos linfáticos. 2. Relativos ou semelhantes à linfa.
22 Células-tronco: São células primárias encontradas em todos os organismos multicelulares que retêm a habilidade de se renovar por meio da divisão celular mitótica e podem se diferenciar em uma vasta gama de tipos de células especializadas.
23 Células Dendríticas: Células especializadas do sistema hematopoético que possuem extensões semelhantes a ramos. São encontradas em todo o sistema linfático, e tecidos não linfóides, como PELE e o epitélio nos tratos intestinal, respiratório e reprodutivo. Elas prendem e processam ANTÍGENOS e os apresentam às CÉLULAS T, estimulando assim a IMUNIDADE MEDIADA POR CÉLULAS. São diferentes das CÉLULAS DENDRÍTICAS FOLICULARES não hematopoéticas, que têm morfologia e função do sistema imune semelhantes, exceto em relação à imunidade humoral (PRODUÇÃO DE ANTICORPOS).
24 Tumor: Termo que literalmente significa massa ou formação de tecido. É utilizado em geral para referir-se a uma formação neoplásica.
25 Autoimunes: 1. Relativo à autoimunidade (estado patológico de um organismo atingido por suas próprias defesas imunitárias). 2. Produzido por autoimunidade. 3. Autoalergia.
26 Citocinas: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
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