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O uso de mochila para ir à escola pode causar dor nas costas em crianças e adolescentes?

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Entre crianças e adolescentes, o uso de mochilas nas costas1 para carregar os materiais escolares muitas vezes gera controvérsias entre os pais. Alguns acreditam que o peso carregado pode causar dores nas costas1 dos filhos, se tornando cada vez mais comum o uso de mochilas com rodinhas em busca de evitar problemas do tipo.

Mas há de fato uma relação entre o uso de mochilas e dor nas costas1? Duas importantes revisões sistemáticas avaliaram o assunto.

Leia sobre "Dor na coluna: quais são as causas", "Lombalgia2" e "Desvios da coluna vertebral3".

Na primeira, publicada no British Journal of Sports Medicine (BJSM) em 2018, os pesquisadores investigaram se as características do uso da mochila escolar são fatores de risco para dores nas costas1 em crianças e adolescentes.

Foram realizadas pesquisas eletrônicas nas bases de dados MEDLINE, EMBASE e CINAHL até abril de 2016.

Os critérios de elegibilidade para seleção dos estudos foram estudos de coorte4 prospectivos, ensaios transversais e randomizados controlados realizados com crianças ou adolescentes. O desfecho primário foi um episódio de dor nas costas1 e os desfechos secundários foram um episódio de procura de atendimento e ausência escolar por dor nas costas1.

Ponderou-se as evidências de estudos longitudinais acima daquelas de estudos transversais. O risco de viés dos estudos longitudinais foi avaliado por uma versão modificada da ferramenta Quality in Prognosis Studies.

Foram incluídos 69 estudos (n = 72.627), dos quais cinco eram longitudinais prospectivos e 64 transversais ou retrospectivos.

Encontrou-se evidências em cinco estudos prospectivos de que as características da mochila escolar, como peso, design e método de transporte, não aumentam o risco de desenvolver dor nas costas1 em crianças e adolescentes. Os estudos incluídos apresentavam risco de viés moderado a alto.

As evidências de estudos transversais alinharam-se com as de estudos longitudinais (ou seja, não houve padrão consistente de associação entre uso ou tipo de mochila escolar e dor nas costas1). Não foi possível agrupar os resultados devido a diferentes variáveis e resultados inconsistentes.

Este estudo concluiu que não há evidências convincentes de que aspectos do uso da mochila escolar aumentem o risco de dores nas costas1 em crianças e adolescentes.

Na segunda revisão sobre o tema, publicada no European Journal of Pain em 2020, o objetivo dos pesquisadores foi determinar se carregar uma mochila escolar pesada está associado a uma maior prevalência5 de dor lombar (lombalgia2).

Foi realizada uma revisão sistemática e metanálise. Estudos observacionais que analisaram a relação entre peso da mochila escolar e lombalgia2 foram pesquisados em 20 bases de dados eletrônicas e 12 periódicos especializados até 28 de fevereiro de 2019, sem restrições de data ou idioma. Todos os estudos que incluíram ≥50 indivíduos com idades entre 9 e 16 anos foram revisados.

A qualidade metodológica foi avaliada por dois revisores separadamente, utilizando ferramentas validadas. Uma metanálise e uma metanálise de dados individuais do paciente (DIP) foram realizadas para examinar a relação entre o peso da mochila escolar e a dor lombar. A certeza da evidência foi avaliada utilizando uma metodologia GRADE adaptada.

5.524 citações foram avaliadas, 21 estudos (18.296 indivíduos) foram revisados e 11 estudos (9.188 indivíduos) foram incluídos na metanálise. A metanálise de DIP incluiu 9.188 indivíduos de sete estudos. Entre os 21 estudos revisados, a pontuação média para qualidade metodológica foi de 78,3 de 100.

Apenas um estudo sugeriu associação entre mochilas escolares mais pesadas e lombalgia2. Nem a metanálise nem a metanálise de DIP encontraram associação entre carregar mochilas escolares com peso >10% do peso corporal e lombalgia2. Não foram encontradas diferenças com base na idade, sexo ou atividade esportiva.

Os autores concluíram que as evidências disponíveis não apoiam que mochilas escolares com peso >10% do peso corporal estejam associadas a uma maior prevalência5 de lombalgia2 entre crianças em idade escolar entre 9 e 16 anos. A certeza da evidência é baixa. Mais estudos longitudinais, com amostras grandes, longos períodos de acompanhamento e métodos rigorosos que levem em conta a duração do transporte e a capacidade física de cada sujeito, são necessários neste campo.

Veja também sobre "Má postura e suas consequências" e "Atrofia6 muscular"

Considerando essas revisões, portanto, seria possível afirmar não haver uma relação entre o uso de mochila escolar e dor nas costas1. E um terceiro estudo pode, na verdade, favorecer o uso de mochila carregada nas costas1, considerando que este uso é capaz de fortalecer a musculatura.

Um estudo realizado na Suécia, também publicado no British Journal of Sports Medicine, em 2019, mostrou que a fraqueza muscular na adolescência está associada à incapacidade 30 anos depois.

Os pesquisadores investigaram as associações da força muscular na adolescência com a pensão por invalidez (PI) posterior, em diferentes categorias de índice de massa corporal7 (IMC8) e em combinação com a aptidão aeróbica.

Este estudo de coorte9 prospectivo10 consistiu de homens com idade entre 16 e 19 anos, recrutados no registro militar sueco entre 1969 e 1994. Um total de 1.212.503 adolescentes preencheram todos os critérios de inclusão e foram, portanto, incluídos nas análises.

Extensão do joelho, força de preensão manual e de flexão do cotovelo e aptidão aeróbica (teste de bicicleta ergométrica) foram medidas durante o recrutamento. As causas de PI foram recuperadas na Secretaria do Seguro Social entre os anos de 1971 e 2012 (tempo médio de acompanhamento: 29,6 anos).

Os resultados demostraram que a força de extensão do joelho na adolescência foi inversamente associada ao risco dos homens de obter PI devido a todas as causas (HR 1,40, IC 95% 1,36 a 1,44 para o quintil11 de força mais baixo vs. mais alto). Assim, a fraqueza muscular foi associada à PI.

O risco associado à baixa força muscular diferiu entre causas específicas de PI e as associações mais fortes foram encontradas para causas psiquiátricas, do sistema nervoso12 e outras causas (HRs entre 1,47 e 1,90 para o quintil11 mais baixo versus o mais alto).

Ser forte foi associado a menor risco de PI em todas as categorias de IMC8 e ser inapto, fraco e obeso foi associado ao maior risco de PI (HR 3,70, IC 95% 2,99 a 4,58).

O estudo concluiu que houve forte associação entre fraqueza muscular e incapacidade. Uma combinação de fraqueza muscular e baixa aptidão aeróbica foi um fator de risco13 especialmente importante para incapacidade. Isso acrescenta peso para exigir força muscular e exercícios para melhorar o condicionamento físico para adolescentes em todas as categorias de IMC8.

Levando em conta esses 3 estudos em conjunto, pode-se sugerir que deixar as crianças e adolescentes carregarem mochila nas costas1, além de não ser causa de dor nas costas1, pode ajudá-los a serem adultos mais fortes e saudáveis.

 

Fontes:
British Journal of Sports Medicine, Vol. 52, Nº 19, em outubro de 2018.
European Journal of Pain, Vol. 24, Nº 1, em janeiro de 2020.
British Journal of Sports Medicine, Vol. 53, N º 19, em outubro de 2019.

 

NEWS.MED.BR, 2024. O uso de mochila para ir à escola pode causar dor nas costas em crianças e adolescentes?. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1465672/o-uso-de-mochila-para-ir-a-escola-pode-causar-dor-nas-costas-em-criancas-e-adolescentes.htm>. Acesso em: 21 abr. 2024.

Complementos

1 Costas:
2 Lombalgia: Dor produzida na região posterior inferior do tórax. As pessoas com lombalgia podem apresentar contraturas musculares, distensões dos ligamentos da coluna, hérnias de disco, etc. É um distúrbio benigno que pode desaparecer com uso de antiinflamatórios e repouso.
3 Coluna vertebral:
4 Estudos de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
5 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
6 Atrofia: 1. Em biologia, é a falta de desenvolvimento de corpo, órgão, tecido ou membro. 2. Em patologia, é a diminuição de peso e volume de órgão, tecido ou membro por nutrição insuficiente das células ou imobilização. 3. No sentido figurado, é uma debilitação ou perda de alguma faculdade mental ou de um dos sentidos, por exemplo, da memória em idosos.
7 Índice de massa corporal: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
8 IMC: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
9 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
10 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
11 Quintil: 1. Em estatística, diz-se de ou qualquer separatriz que divide a área de uma distribuição de frequência em cinco domínios de áreas iguais. O termo quintil também é utilizado, por vezes, para designar uma das quintas partes da amostra ordenada. 2. Em astronomia, é o aspecto de dois planetas distantes 72° entre si (distância angular correspondente a um quinto do Zodíaco). 3. Em matemática, é o mesmo que quíntico. A palavra quintil deriva do latim quintus, que significa quinto.
12 Sistema nervoso: O sistema nervoso é dividido em sistema nervoso central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP). O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinhal e a porção periférica está constituída pelos nervos cranianos e espinhais, pelos gânglios e pelas terminações nervosas.
13 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
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